sexta-feira, dezembro 19, 2008

Leituras III


“Alguns dias mais tarde, Banaka fez a sua aparição no café. Completamente bêbado, sentou-se sobre um tamborete do bar, caiu duas vezes, voltou a subir, pediu uma aguardente de cidra e pousou a cabeça no balcão. Tamina percebeu que ele chorava.


«O que é que se passa, sr. Banaka?» perguntou ela.


Banaka ergueu um olhar lacrimejante e mostrou o peito com o dedo: «Não sou nada, está a perceber! Não sou nada! Não existo!»


Depois foi à casa de banho e da casa de banho directamente para a rua, sem pagar.


Tamina contou o incidente a Hugo que à laia de explicação, lhe mostrou uma página de jornal em que estavam várias recensões de livros e uma nota de quatro linhas sarcásticas sobre a produção de Banaka.


O episódio de Banaka, a apontar o peito com o indicador e a chorar por não existir, lembra-me um verso do Divan ocidental-oriental de Goethe: Estaremos vivos quando vivem outros homens? Na pergunta de Goethe dissimula-se todo o mistério da condição do escritor: o homem , pelo facto de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala em universo de Balzac, em universo de Tchekov, em universo de Kafka?) e o que é próprio de um universo é precisamente ser único. A existência de outro universo ameaça-o na sua própria essência.


Dois sapateiros, desde que não tenham os estabelecimentos na mesma rua, podem viver em perfeita harmonia. Mas assim que se põem a escrever um livro sobre o destino dos sapateiros, começam logo a ser mutuamente incómodos, e a colocar-se a questão: Um sapateiro estará vivo quando existem outros sapateiros?


Tamina tem a impressão de que basta um olhar estranho para retirar todo o valor aos seus cadernos íntimos, e Goethe está persuadido de que um só olhar de um só ser humano que não venha pousar-se sobre as linhas da sua obra, põe em causa a própria existência de Goethe. A diferença entre Tamina e Goethe é a diferença entre o homem e o escritor.


Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si próprio e para todos os outros) ou nada. E como nunca ninguém conseguirá ser tudo, todos nós, que escrevemos livros, somos nada. Somos descontentes, invejosos, azedos, e desejamos a morte do outro. Nisso somos todos iguais: Banaka, Bibi, eu e Goethe.


A irresistível proliferação da grafomania entre os homens políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes demonstra-me que qualquer homem, sem excepção, traz em si um escritor virtual, de modo que toda a espécie humana poderia, com razão, descer à rua e gritar: somos todos escritores!


Porque cada um sofre com a ideia de desaparecer num universo indiferente, sem ser ouvido nem visto, e por essa razão quer, enquanto pode, transformar-se no seu próprio universo de palavras.
Quando um dia (muito em breve) todos os homens acordarem escritores, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.”



“O livro do riso e do esquecimento”, Milan Kundera

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Leituras I + 1/2


Servidão Humana é um livro sobre a condição servil do Homem; é um livro sobre escravidão.

O Homem como escravo incondicional: do seu corpo - Philip e o seu pé boto e as dificuldade de ser diferente; escravo do amor, do desejo, da atracção irracional e inexplicável; escravo da tradição e da moral - a promessa de sentido no sentido irracional da vida eterna; escravo do futuro, escravo do presente, escravo do passado.

Escravo da busca da imortalidade pela arte: a pintura, a literatura.

Escravo dessa busca, incessante e jamais satisfeita, do "sentido da vida". Escravo de, apesar de todas as evidências no sentido da incapacidade de o conseguir, querer saber que sentido tem "isto".

Escravo de si próprio, sempre, porque escravo do livre arbítrio: "Que preço se pagava para se ser diferente dos animais!"

Philip personifica tudo isto de uma forma admirável.

600 páginas de muito mais; um conjunto de novelas e contos, válidos em si mesmos (se separados), mas belissimamente imbricados.

Uma enorme riqueza descritiva da Inglaterra, Londres e Paris de finais do séc. XIX e princípio do XX e a perturbação causada pelo grotesco e miserável da vida nesses tempos.

Belo, perturbador.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Caramba



Even if I am in love with you
All this to say, what's it to you?
Observe the blood, the rose tattoo
Of the fingerprints on me from you

Other evidence has shown
That you and I are still alone
We skirt around the danger zone
And don't talk about it later

Marlene watches from the wall
Her mocking smile says it all
As she records the rise and fall
Of every soldier passing

But the only soldier now is me
I'm fighting things I cannot see
I think it's called my destiny
That I am changing

Marlene on the wall

I walk to your house in the afternoon
By the butcher's shop with the sawdust strewn
"Don't give away the goods too soon"
Is what she might have told me

And I tried so hard to resist
When you held me in your handsome fist
And reminded me of the night we kissed
And of why I should be leaving

Marlene watches from the wall
Her mocking smile says it all
As she records the rise and fall
Of every man who's been here

But the only one here now is me
I'm fighting things I cannot see
I think it's called my destiny
That I am changing

Marlene on the wall

Suzanne Vega

quarta-feira, novembro 12, 2008

Leituras II


Interrompi a leitura do Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago. Aconteceu-me o que já me tinha acontecido com a leitura do Ensaio sobre a Lucidez: irritação.

A maneira como se retrata o estado, o governo, o sistema de saúde - o poder enfim; a facilidade com que tudo aquilo se revela ser uma, até então insuspeitada, chusma de energúmenos é demais para o meu gosto.

Quanto àquilo em que o Homem é capaz de se tornar perante uma situação dramática e fora do seu controle já Júlio Cortázar em 1966 o tinha dito muito bem, em muito menos páginas e sem tiques políticos no pequeno conto La autopista del sur.

Qualquer dia recomeço se não tiver nada melhor para ler e entretanto vou ver o filme.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Leituras I


“O recém-nascido não concebe que o seu corpo é mais parte de si próprio do que os objectos que o rodeiam, e brinca com os dedos dos pés sem a mínima noção de que lhe pertencem mais do que a sua roca; e é só pouco a pouco, através da dor, que compreende a realidade do corpo. São necessárias experiências idênticas para que o indivíduo se torne consciente de si próprio; contudo há uma diferença: enquanto todos igualmente adquirem consciência do corpo como um organismo completo e separado, nem todos adquirem igualmente a consciência de si próprios como uma personalidade completa e separada. O sentimento de diferenciação dos outros surge para a maioria com a puberdade mas não se desenvolve sempre a um grau tal que torne perceptível ao indivíduo a diferença entre o indivíduo e o seu próximo. São estes, os tão pouco conscientes de si próprios como as abelhas numa colmeia, os afortunados na vida, pois têm os melhores ensejos de felicidade: as suas actividades são partilhadas por todos e os seus prazeres só são prazeres porque fruídos em comum; vêmo-los dançar na segunda-feira de Pentecostes em Hampstead Heath, aplaudir numa partida de futebol ou assistir a um desfile real das janelas de um clube de Pall Mall. Por sua causa tem o homem sido considerado um animal sociável.”


“Servidão Humana”, W. Somerset Maugham

Ed. “Livros do Brasil”, 13ª edição, pág 42

quarta-feira, setembro 10, 2008

A delicada arte de soltar (*)

«Atingir o alvo é algo secundário para os kyudokas, pelo menos inicialmente. Na arte tradicional japonesa de tiro ao arco, o período formativo de um arqueiro é passado a conciliar a técnica, o físico e o espírito. Os entusiastas do "arco e flecha" necessitam, acima de tudo, de duas qualidades: perseverança e paciência.»

«Com o seu dedo indicador, Akira Sato desenha uma linha no tampo da mesa. Segue até uma extremidade que designa o alvo, o qual Sato determina por si próprio, apesar de saber que talvez nunca o atinja, pelo menos, a longo prazo. Porque o kyudo, uma arte tradicional de arco do Japão, é uma disciplina exigente, até mesmo para um professor altamente respeitado como é o seu caso.» (*)



Parece tudo muito estranho e incompatível com aquilo a que se chama "sucesso", mas nem sequer foi esta estranheza que me chamou a atenção; foi coisa de linguagem, coisa de palavras.

Aparentemente, há uma gralha no texto: "apesar de saber que talvez nunca o atinja [o alvo], pelo menos, a longo prazo". E pode muito bem ser: é muito provável que o autor do texto pretendera dizer "pelo menos a curto prazo".

O que eu acho curioso é que, propositado ou não, por linha tortas ou direitas, o autor usou as palavras certas para definir uma actividade sem fim, que pretende atingir algo para lá do seu objectivo.

Sabe que não se conseguirá, pelo menos, a longo prazo, ilumina belissimamente o, só aparente, paradoxo.

É uma frase que pode ter contornos filosóficos?!? Pode pois, mas isso não importa; o que importa é a poesia.

David Augusto Fernandes


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(*) Título e extractos assinalados retirados de um texto de Felix Zimmermann para a revista Mercedes Magazine nº 03/2008

Mais informação em http://www.kyudo.com

terça-feira, setembro 09, 2008

A imortalidade

Artes, engenho, mera força
e no entanto a luz
emudecente
como fragmentos de livro
para um léxico incompleto.

Logo a apneia involuntária
assustadora como se aparecesses
mas efémera porque não.

Deste alívio se pressente então possível
uma validade insubmissa
como se o tempo não trespassasse tudo
a ver-se
mas tu nunca chegares.

Caminha-se com ele
mas não há desarranjo nos relógios
ou nas sirenes das fábricas
nem desânimo nas aves que migram.

E no entanto a sombra de tudo
perfeitamente como é de ser:
alfabetos vivos e mortos,
até dicionários sem serventia,
bibliotecas imensas de saber:
um universo de sombras
de perfeitas engrenagens.

David Augusto Fernandes

terça-feira, agosto 26, 2008

Terraplanagem do sentido

"Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo ─ o que se fala e escreve em Portugal ─ e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com a peneira"
Eugénio Lisboa in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 13 a 26 de Agosto de 2008 (nº 988)

Olhem-me só o desplante do homem; isto é uma heresia: não se pode dizer que há mais do que um "português" como já não se pode dizer:
preto, homem, mulher, cigano, casamento, brasileiro (que me lembre assim de repente).

A lista de palavras proibidas vai aumentando todos os dias. Não tarda, já só as poderemos trocar em sub-caves nas traseiras de edifícios de subúrbio.

Lamentavelmente, as palavras estão na mão de uma horda crescente de "fascistas da palavra politicamente correcta" devidamente amplificados pela "comunicação social" (bem sei, bem sei: lugar comum).

Contra este "fascismo da palavra"
vão-nos valendo (mas pouco) os poucos Eugénios Lisboas que não receiam usar as palavras certas (únicas?!?!?).

Mas o resultado não será de vulto. A terraplanagem está em curso e em força. E o pior é que quando isto for tudo plano, não haverá rios.

E o que eu gosto de penhascos.....

quinta-feira, agosto 21, 2008

domingo, agosto 10, 2008

Letras sob músicas (I)

Vens?

Momento de explicação, prova de cálculos vezes conferidos. Um mar chão de coisas impensáveis que de terra sinuosa sempre se poderá dizer subir, descer.

Águas passadas, dizia, mas meras correntes ao sabor de uma mais atrevida época geológica ou irremediável breve tropeço da graça.

Muito necessárias complicações que jamais sempre se sabe tudo são palavras supérfluas de um gozo que se maquina, inventando como nós.

Uma cobardia muito grande: nenhuma árvore ou planta mais rasteira se atrasará no ser maior nem mãe de cria recente se descuidará nos preparos da ceia.

Rápidos como ave rápida, o dia amanhece um pouco mais cedo e a noite, claro, que não duvida, lá vai como é de ser em tempos a caminho de uma outra estação.

Resoluções como intempéries, como ângulos de asa.

Abismos como a suspeição de crer aqui já não estares e ser uma alegria, uma coisa sem pés ou cabeça, uma raíz de saltimbanco.

Um nó laço no momento raro de a margem ser de lá e eu ir.

Vens?

David Augusto Fernandes

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"Are you going with me?", Pat Metheny Group

"Offramp", 1981

Uma inusitada versão com a bela Anna Maria Jopek:

terça-feira, junho 03, 2008

Amy Winehouse, o génio da lâmpada e o trabalho


Corre mundo a actuação de Amy Winehouse no Rock in Rio.

O Daniel Oliveira, fino como um alho, à cata de cliques, lá desencantou mais um post polémico com o sugestivo título: “Genialidade sem excesso? Não temos”.

Aparentemente, génio é sinónimo de excesso e é indissociável de excentricidade.

Os fãs, solícitos, correm na defesa da sua menina e arrasam as críticas à sua actuação, legítimas a meu ver, a quem pagou bilhete para assistir a um espectáculo musical e não pôde fazê-lo.

Se por um lado lançam inquestionáveis argumentos subjectivos de gosto, por outro atiram razões mais objectivas e menos questionáveis quanto à qualidade vocal da artista bem como da sua originalidade.

Qualidade vocal semelhante ou superior, que se conheça, há às dezenas, e escondida, aos milhares certamente; basta acompanhar um desses programas de “Ídolos” para o confirmar. E comportamentos excessivos, excêntricos e originais, há aos milhões.

Longe de mim querer assassinar artisticamente Amy Winehouse; nem que quisesse o poderia fazer, mas génio não é aquilo.

Génio é constância; ter uma ideia genial é uma coisa, fazer um disco genial é outra, SER genial é outra totalmente diferente.

Corre-se um risco enorme ao tentar branquear uma actuação daquelas com o bondoso, “pois, mas é genial” ou pior "pois, mas eu gosto muito".

Corre-se o risco de, como dizia alguém, para se ser reconhecido como artista ser necessário fazer constar que se dorme com a janela aberta, faça sol, chuva ou neve.

Corre-se o risco de associar genialidade a improviso efémero, a intuição, a desmazelo.

Mas, mais grave, corre-se o risco de associar mediocridade a trabalho, constância, brio e isso é que não pode ser.

segunda-feira, maio 26, 2008

Estilhaços

morrer de susto deve ser do coração desistir depois de muito tentar sair; e pode até ser de o conseguir.

a escola tinha começado há pouco tempo e a professora como todos os dias tinha acabado a correcção das nossas redacções.

ia chamar os piores, eu a sonhar e a acreditar que desta vez não era, mas

- joão.

se não fosse o meu pai no dia antes à noite a zanzar pela cozinha, a minha mãe

- despacha-te

eu a despachar-me e a letra a ficar mais torta para o final, talvez não fosse chamada.

lá fomos eu e mais seis ao quadro, ali muito alinhadinhos senão em vez de duas palmatoadas eram quatro.

o carlitos a chorar ainda antes de levar que depois parava, era sempre, e o raio do preto a fazer caretas.

lá passou como um temporal fora de época, o vermelho de uma mão qualquer, a princípio a trepar muito depressa pelo braço acima e depois na cara a demorar como o fumo dos aviões lá muito em cima, cada vez mais largo mas muito devagarinho e depois a desaparecer sem se dar por isso.

eu cuspia na mão a querer fazer o coração parar de bater nela, o avião andar mais depressa, que não andava.

eu cuspia na mão mas nunca dava pelo fim daquilo.

era ao contrário dum susto, dum sonho a acabar, lá acabava por acabar, apenas e ao invés de como daquela vez no telheiro atrás da escola o preto a chegar-se muito para mim, o cabelo dele muito loiro quase branco que fazia impressão, as sardas que parecia doente e os olhos como se nem tivesse

- dá-me um beijo.

não consigo dizer quanto tempo estive a tomar consciência de mim, das paredes, de respirar; não sei se haveria algum avião mas sei que nem medi quanto era suficiente para não deixar que se me escapasse o coração quando ele

- dá-me um beijo

e eu quase logo a correr dali para fora com quanto sangue em arrancos ainda me restava no peito, sem olhar para trás, sem trazer nada, a esquecer o avião se houvesse algum, a só ver um rasto branco a ficar largo tão depressa que se via, e eu sem trazer nada, a correr muito e só aquilo dentro da cabeça

- dá-me

alguém

- despacha-te

e outro alguém a despachar-se.

foram dias e dias, noites a fio a acordar muito devagar mas a nunca mais me apressar se à noite as minhas irmãs já a dormir, o meu pai a zanzar pela cozinha, a pensar na minha mãe e em

- dá-me

e ela, claro

- despacha-te.

nunca mais.

podem dizer-me que perdi algo porque sei que havia mais, mas hoje, décadas mais tarde, o preto ainda mais loiro adivinhou ao ver a minha mesma cara que daquela vez

- nunca mais te esqueceste

a achar que me acalmava, a não saber que não, a sorrir sem ser o riso das caretas que fazia e a recomeçar

- que é feito de ti

que nada de especial mas a mentir

- o normal, casei, tive filhos

a pensar, dei.

não tenho a certeza se perdi muito mas perdi algo, certamente, com o engano muito demorado de só tarde demais ver que

- dá-me um beijo

era afinal uma troca.

FIM

quinta-feira, maio 08, 2008

As palavras


"(...) descobrimos que as palavras não começaram por ser abstractas, antes por serem concretas - e suponho que neste caso "concreto" significa quase a mesma coisa que "poético". Consideremos uma palavra como "dreary" [triste]: a palavra "dreary" significava "manchado de sangue". Do mesmo modo, a palavra "glad" [alegre] significava "polido" e a palavra "threat" [ameaça] significava "multidão ameaçadora". Essas palavras que agora são abstractas tiveram outrora um significado forte.

Poderiamos prosseguir com outros exemplos: Tomemos a palavra "thunder" [trovão] e contemplemos o deus Thunor, o homólogo saxónico do norueguês Thor. A palavra unor valia para trovão e para deus; mas se tivéssemos perguntado aos homens que vieram para Inglaterra com Hengist se a palavra servia para o ribombar no céu e para o irado deus, não me parece que eles fossem suficientemente subtis para compreenderem a diferença. Suponho que a palavra encerrava os dois significados sem se comprometer muito estreitamente com qualquer deles. (...) As palavras estavam carregadas de magia; não tinham um significado rígido e fixo. Portanto, ao falarmos de poesia podemos dizer que a poesia (...) não tenta pegar numa porção de moedas lógicas e transformá-las por magia. Pelo contrário, devolve a linguagem à sua fonte."

Jorge Luis Borges, "Este Ofício de Poeta" Editorial Teorema

Os filhos da terra


São 5 volumes (*) e contam a história de Ayla, uma menina Cromagnon (humana tal como conhecemos o homem, hoje) que com 5 anos, depois de uma calamidade sísmica que mata toda a sua tribo (família, clã), se vê obrigada a meter pés a caminho.

Nessa busca de sobrevivência, encontra um clã de Neandertais, (se bem se lembram, uma espécie menos evoluída(?!), anterior aos Cromagnon) que também se viram na necessidade de procurar uma nova caverna.

É adoptada por estes e fica a cargo de Iza, a curandeira do clã, que a vai iniciar na sua arte.

Não é uma obra literariamente inesquecível, mas a descrição desta nossa terra há 25000 anos atrás, é maravilhosa: um mundo sem .... praticamente tudo o que sabemos que um mundo "deve" ter. Um mundo puro.

Estou a terminar o primeiro volume e mal posso esperar por pegar no segundo, terceiro ....

Um cheirinho do que se pode ler, e do que faz pensar:

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"Quando regressavam, Ayla deteve-se apontando uma erva com flores azuis, com mais ou menos 30 cm de altura.

- Há ali alguns pés de hisopo. A sua infusão é boa contra a tosse e contra o catarro, certo?

- Sim. E além disso proprociona um agradável sabor a qualquer outra infusão. Porque não colhes um pouco? - sugeriu Iza.

Ayla arrancou umas quantas plantas e foi cortando as folhas enquanto caminhavam.

- Ayla - chamou a mulher-, essa raízes produzem plantas novas todos os anos. Se arrabcas as plantas não haverá aí plantas no próximo verão. É melhor colher só as folhas caso não vás fazer uso das raízes.

- Não tinha pensado nisso. - disse Ayla.

- E sempre que precises das raízes, não as arranques todas do mesmo local.

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(*) a versão que tenho é espanhola. Em português existe na Europa América em 7 (ou 6) volumes.

-
Clã do urso das cavernas
-
O vale dos cavalos
- Os caçadores de mamutes (
I e II)
- Planícies de passagem (
I e II)
- O abrigo de pedra (desconheço se existe em português)

quarta-feira, abril 23, 2008

George Oppen - 100 anos


Faria amanhã, 24 de Abril, 100 anos. Chama-se George Oppen e é um homem e um poeta extraordinário.

Filho de um muuuuito abastado comerciante de diamantes, nunca precisou da massa do papá. A mãe suicidou-se tinha ele 4 anos, o pai casou segunda vez e pelos vistos a madrasta não era flor que se cheirasse. Isto marcou-o para sempre.

Foi expulso do liceu e na universidade, apaixonou-se (para toda a vida) por Mary Colby mas logo na primeira saidinha à noite chegaram tarde demais. Ela foi expulsa, ele suspenso.

Casam, abandonam a universidade e a cidade (Oregon) e correm os Estados Unidos à boleia, fazendo ao longo do caminho pequenos trabalhos temporários aqui e ali.

É nesta época que escreve os primeiros poemas e, com a ajuda de uma pequena herança, fundam uma editora que pouco tempo depois falia não sem antes publicar obras de William Carlos Williams e Ezra Pound.

Início da década de 1930 e da grande depressão. Em face dos problemas sociais e do crescimento do fascismo, tornam-se cada vez mais politicamente activos acabando por se filiarem no Partido Comunista e Oppen, não querendo correr o risco de escrever versos de propaganda, "deixa" a poesia.

Desiludido com a política em geral e o Partido Comunista em particular e querendo participar na luta contra o fascismo, alista-se como voluntário sendo mobilizado para a II Guerra Mundial onde serviu na Linha Maginot e nas Ardenas. É ferido com gravidade e regressa aos Estados Unidos momento em que lhe é atribuída a Purple Heart.

Depois da guerra, trabalha como carpinteiro e construtor de pequenos barcos e embora em termos políticos praticamente inactivos, o seu passado atrai as atenções do comite do Senado presidido por Joseph McCarthy e exilam-se no México onde criam uma pequena empresa de fabrico de mobiliário. Embora exilados, continuam sob vigilância das autoridades Mexicanas e do FBI.

Só em 1958 podem regressar aos Estados Unidos e é nesse momento, 25 anos depois, que volta a escrever poesia.

Em 1969 ganha o Prémio Pulitzer para poesia mas a partir de 1977 torna-se praticamente impossível escrever devido à doença de Alzheimer que se agravava.

Morre de pneumonia e complicações originadas pela Alzheimer no dia 7 de Julho de 1984.

É um homem cuja vida faz acreditar que o Homem é possível e um poeta absolutamente imperdível para quem acha que a poesia não é só "flores" e pode ser também Objectiva; e é pena que não existam traduções editadas em português.

Informações sobre as iniciativas do centenário que se multiplicam, sobre a sua vida e obra podem facilmente ser encontradas numa busca rápida ali no Google sabe-tudo.

sexta-feira, março 28, 2008

Os lados

Primeiras linha da crónica de Gonçalo M. Tavares na última VISÃO:

"Não te leves demasiado a sério, mas leva a sério o mundo.

1. Cobarde:
a) aquele que tem medo
b) aquele que tem medo de mostrar que tem medo.

2. Corajoso:
a) aquele que tem coragem
b) aquele que tem medo de mostrar que tem medo."

A crónica continua e vale a pena ser lida, mas se acabasse por aqui quase tudo estava dito.

quarta-feira, março 05, 2008

Não, não é isto



This is not America
(Letra e música: David Bowie and Pat Metheny)

A little piece of you
The little peace in me
Will die
For this is not America

Blossom fails to bloom
This season
Promise not to stare
Too long
For this is not the miracle

There was a time
A storm that blew so pure
For this could be the biggest sky
And I could have
The faintest idea

For this is not America

Snowman melting
From the inside
Falcon spirals
To the ground
So bloody red
Tomorrow's clouds

A little piece of you
The little piece in me
Will die
For this is not America

There was a time
A wind that blew so young
For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea

For this is not America
This is not america, no, this is not

segunda-feira, março 03, 2008

Do engenho


lisboa . lisbon. portugal. Rua do Alecrim.
Rua do Alecrim - Lisboa; fotografia de Tereza Del Pilar


Do engenho

na esquadria dos edifícios em ruas
como a sua própria sombra nas estremas do dia
ou as manchas de urina nas paredes;

na forma da vizinhança,
nos soalhos parados como a água das vasilhas
que não são homotetias do rio;

na luta surda que por ali não há...

David Augusto Fernandes

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Ah comunicação, comunicação


"(...) Dou umas aulas de guionismo na Escola Superior de Comunicação Social. Os miúdos são porreiros, mas se uso uma pequena ironia não a entendem, se utilizo um provérbio não sabem o que é, se passo uma rasteira todos caem. E o vocabulário é reduzidíssimo."

Mário de Carvalho, em entrevista a um jornal com e de letras.

O entrevistador, na pergunta anterior diria, premonitoriamente, a propósito de palavras de Umberto Eco, o seguinte:

"Por isso, com certa ironia, ele conclui que a televisão é o media mais democrático porque nivela e formatiza tudo e todos... por baixo.".

domingo, fevereiro 17, 2008

Os tops dos super-pops

Não tenho muitas certezas sobre este assunto. Parece-me contudo que a poesia nunca terá o mercado da prosa (oh grande novidade - esta cabeça....).

E, a meu ver, o problema não está na educação; aliás a educação não incentiva nenhum tipo de leitura, e nisso a prosa é tão mal amada quanto a poesia.

Há mitos que nunca se hão-de eliminar como por exemplo, acreditar que se chama um miúdo para a poesia através dos Lusíadas. Não pode ser.

Mercado é retorno (valorizado) de investimento. Mercado é falsidade, engodo, engano.

O mercado chegou à prosa há muito tempo: veja-se a quantidade lamentável de sucedâneos do lamentável "Código"!!!

Expliquem-me porque se vendem aos milhares coisas como "Os pilares da terra" do Ken Follett (que eu também li sim senhor e que diverte muito, ok) mas não se vendam ao menos umas centenas de, por exemplo, "A casa do pó" e demais notáveis romances do Fernando Campos. Dou este exemplo apenas porque, podemos dizer que são "do mesmo tipo", acrescendo a que no caso do Fernando Campos, o assunto é Portugal, as nossas coisas, a nossa história, os nossos lugares?? Já para nem falar na qualidade da escrita; incomparável a favor do nosso romancista histórico.

Expliquem-me por favor.

Expliquem-me porque vende como tremoços um lamentável (para dizer pouco) José Rodrigues dos Santos (já tive oportunidade de escrever algo sobre isto
aqui) e, (apenas para manter a semelhança jornalistica), porque não vende o mesmo um ADMIRÁVEL Rodrigo Guedes de Carvalho??? Porque é que, apenas por serem ambos jornalistas, se coloca tudo no mesmo saco?

Porque raio ninguém sabe quem é um valter hugo mãe, nem o da poesia nem o da prosa, ambas de um nível elevadíssimo?

Como comecei por dizer, não tenho certezas, e nem tenho nada contra quem pretenda fazer vida da escrita, seja da prosa seja da poesia, mas é que absolutamente nada. Mas, nas coisas das artes, desconfio do mercado, sempre.

Além de que o mercado não resolve tudo muito menos afina qualidade.

Sabendo que os editores PAGAM às grandes superfícies (malfadadas que já chegaram aos livros) para que estas coloquem os SEUS livros nos escaparates principais, não é de prever grande coelho desta lura. E só pagam se tiverem um risco mínimo de não retorno.

Esta exagerada visibilidade de produtos fracos tem um outro resultado perverso: quantos livros se oferecem? Se pensarmos no fraco nível de leitura deste país de miséria (a maioria dos livros que se oferecem não foram lidos - como é óbvio) quais são os livros com probabilidades de serem comprados para serem oferecidos; é a bosta visível à frente.

Depois os números e as estatísticas com que nos querem enganar. Pergunto por exemplo: quantos dos 150000 exemplares vendidos de um Codex (do JR dos Santos), foram de facto lidos? E desses, quantos foram lidos até ao fim? (Falo apenas de um livro MAU com uma saída incrível).

É o circo mediático como está muito na moda dizer-se.

Há uns tempos, havia pouco tempo do anúncio do Nobel deste ano (Doris Lessing), passeava eu pela FNAC e qual não é o meu espanto quando vejo os escaparates cheios de livros da senhora. O meu espanto não foi a quantidade de livros, foi o preço. A Livros do Brasil na colecção Dois Mundos, tinha há muito editado Doris Lessing; pois vão à FNAC ver o preço a que estão esses livros e vão ao site da editora ver a quanto são vendidos?

Acredito que a poesia estará sempre fora disto; acredito e desejo.

Vou repetir: não tenho nada contra quem queira fazer vida da escrita.

Vou repetir: não tenho certezas nenhumas; é provável que mude de opinião à medida que for reflectindo nisto; quem for burro que puxe carroça, eu não sou.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Acompanhante: pai

José Luís Peixoto escreve agora uma crónica na VISÃO. Começou esta semana.

Alguém que escreve assim, fica automaticamente [era aqui o gato] perdoado de qualquer pequena ou grande falta; faz-me sentir indigno de apontar um cabelo fora do lugar.

Dois extractos:

"Assistirmos ao sofrimento do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro. E cada som do nosso filho a sofrer é silêncio em brasa, é a cabeça cheia de silêncio em brasa, o peito cheio, incandescente, o mundo inteiroem brasa."

(...)

"É então que a mãe e eu sentimos que nascemos em dias específicos,em lugares específicos e avançamos por caminhos, fizemos escolhas,tivemos vocações e segredos apenas para nos encontrarmos neste menino que dorme diante de nós, e que é o rosto da nossa alma."

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os prémios, os prémios

Os prémios de literatura voltam a estar na ordem do dia.

José Luís Peixoto venceu o Prémio Daniel Faria e nada se pode questionar que logo atiram a etiqueta da inveja, essa coisa feia. O facto de ser um Prémio que visa incentivar o aparecimento de novos poetas, nada diz a ninguém, a não ser "invejoso".

As palavras do jurado Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, que publicará a obra vencedora, dizem bem da falta de senso de que enfermam algumas cabeças:

“Foi mesmo uma grande surpresa, mas uma surpresa boa, porque vem dar força e credibilidade ao prémio."

Eu pensava que surpresa, surpresa, surpresa mesmo boa, seria encontrar um novo valor, não?? Não daria, isso sim, mais força e credibilidade ao prémio? Parece que não.

"Durante a leitura dos originais, já tinha suspeitado que se tratava de um autor experiente, com grande domínio da linguagem e das técnicas de escrita, e não alguém que envia o seu primeiro livro."

Pergunto: é isto um incentivo a quem "envia o seu primeiro livro"? Desgraçadinhos.

“Gostava de salientar a extraordinária humildade do Zé Luís, que ao querer ficar associado a este prémio, e ao nome do Daniel Faria, correu o risco de perder para um autor desconhecido ou, pior ainda, de receber uma mera menção honrosa.”

Pergunto: precisará o JLP de provar alguma coisa a alguém?
Pergunto: uma menção honrosa, como dizem as palavras, não é uma menção ... HONROSA?? Ou será apenas uma honra de derrotado?

A coisa não é nova: veja-se o recente Prémio Nuno Júdice atribuido pela CM de Aveiro, vencido por esse consagrado papa-prémios da literatura portuguesa que é José Jorge Letria. O facto de, também este, ser um prémio que pretendia incentivar novos poetas, nada diz a ninguém.

Enfim, como eu, ingénuo, crente, diria ridículo, concorri a esse, podem chamar-me invejoso à vontade.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Descubra as diferenças

Enquanto Portugal vende o seu património cultural para tremoços, condomínios de luxo e outras coisas muito Ocidentais e evoluídas; enquanto em Portugal (uma república) se discute, coisa espantosa, a monarquia.

Enquanto Portugal se mostra ao mundo com futebóis, AllGarves e WestCoasts, Espanha faz assim (deve ser do conservadorismo patriótico, retrógrado e monárquico).

Merda; estou um bocadinho triste

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Phonix!!!!

O youtube é uma daquelas coisas como as cerejas. Está bem feito; é como dizem os espanhóis, adictivo.




Só aquela capacidade de associação me fez saltar disto para um Paul Simon (que não chupo nem à lei da bala) nas suas "50 maneiras de deixares o teu amor".

Ponto em comum, lei mais forte que a da bala: um improvável Steve Gadd, senhor que, diz-se, criou o disco beat

... e não é como as cerejas, é mais como o Vinho do Porto.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Antes de nós



A rotação do pulso no virar do tempo
para uma aferição aproximada
do longe
antes do metódico aconchego dos óculos
a aclarar a voz;

o passo diferente
sobre a sombra pastel
ao abrigo da aresta
entre o passeio e a soleira:
cimento e mármore,
linha real
de uma mudança de estado
depois imaginado.

David Augusto Fernandes

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Apontamentos desconexos

Há pessoas sobre as quais se pode dizer tudo: têm uma vida recta, pode-se contá-la com facilidade. Tudo é correcto e sem dias estranhos, sem gostos inoportunos, sem indecisões.

Há contudo outras que pela inconstância, paixão, impulso, fazem das suas vidas (voluntária ou involuntáriamente) histórias impossíveis de contar com razoabilidade. Mas têm momentos de puro brilho explosivo: 2 minutos apenas que nunca mais se esquecem.






Diz-se que são livros difíceis; diz-se muito isso. Talvez como livros de poesia, digo eu.

“A ordem natural das coisas” de António Lobo Antunes (Dom Quixote, 1992) é como uma daquelas pessoas; é como uma filigrana tridimensional, um cubo de bilros; maciço mas como diria quem o visse impresso em papel transparente.

Ao pé dele, um “Todo-o-mundo” de Phillip Roth, autor de quem Lobo Antunes é confesso admirador, é uma brincadeira.


No entanto ...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Os Lusíadas em números



Os substantivos mais utilizados n'Os Lusíadas são:

  1. gente (220)
  2. terra (216)
  3. rei (194)
  4. mar (187)
  5. mundo (103)
  6. céu (81)
  7. reino (77)
1750 inícios de verso distintos e os mais frequentes são:
  1. Que (779)
  2. E (439)
  3. A (347)
  4. De (334)
  5. O (292)
  6. Mas (221)
  7. Por (181)
  8. Com (177)
  9. Os (155)
  10. Não (149)

Gente, é o substantivo mais frequentemente usado como início de verso. Há 9 versos começados com Gente.

Camões utiliza um vocabulário de 8786 palavras sendo que a obra é composta por um total de 52917 palavras.

A palavra não aparece 556 vezes enquanto a palavra sim não aparece nenhuma.

Quem quiser saber mais coisas, pergunte.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Dúvidas

Porque vemos as livrarias pejadas com:






e não com:




sábado, janeiro 19, 2008

Louise Gluck sobre George Oppen

Adenda: Parece que não dá. "Prontos", quem quiser pode vê-lo aqui, por enquanto.