quarta-feira, junho 22, 2005

CRIAÇÃO

Enquanto não for possível dizer: aí, aqui;
com as mãos em palmas, bem abertas,
continuamos a afastar a água
minuciosamente.

Talvez saibamos distinguir azul de amarelo
sem a lâmina que desconcerta o verde,
que não cessa de se lhes insinuar
- como um céu em queda abrupta
e fina de tão leve
ameaça travessia.

A horas determinadas por uma luz inimiga
hão de ver-se formas como formas
de corpos unidos,
invejáveis.

Ainda assim,
talvez saibamos distinguir azul de amarelo:

búzios,
latas de refrigerante,
algas seres secos,
cacos de telha impossível
de um lado;

e alguém a enganar-se:
tudo morto,
do outro.

terça-feira, junho 14, 2005

minutos depois o horizonte

aos poucos vou sabendo mais:
menos
e menos
e pouco antes de saber tudo:
nada,
ainda então será viver:
última ciência.

por isso,
quando minutos-depois-o-horizonte
de onde se avistam muitos mais barcos vivos
e se vence ou esquece o horror a gaivotas,
não me faltes;
dar medida ao inconcebido
é como cortar a mão que resta
sem auxílio.

depois, sim,
não mais um-dia,
ainda que promessa,
pois que em um-dia o tempo inteiro.

david fernandes