quinta-feira, setembro 27, 2007

Isto sim, é um espectáculo


Enquanto o Ricardo Costa, acometido de um inusitado ataque de autismo, perdia o sono a pensar na maneira mais eficiente de aumentar a velocidade da sua fuga em frente, o Destak fazia umas contas.

Nem era preciso, toda a gente sabe: as prestações do crédito à habitação cresceram 20% nos últimos dois anos. Se pensarmos em quanto cresceram os salários .... pois é.

Por isso, políticos, jornalistas da especialidade e demais mentirosos, peguem nas vossas continhas sobre a inflação e o poder de compra e metam-nas num sítio que eu cá sei.


Imagem de uma cratera, acredito que, no planeta Marte.

Isto não é espectáculo



Pedro Santana Lopes abandonou, em directo na SIC-Notícias, entrevista interrompida por (também) directo da chegada de José Mourinho ao aeroporto de Lisboa.

A jornalista da SIC Notícias que entrevistou Santana Lopes justificou que a interrupção da entrevista se baseou em critérios editoriais. «Não houve intenção de desrespeitá-lo, tratou-se de uma decisão editorial», afirmou Ana Lourenço à Agência Lusa, sublinhando que a SIC Notícias «é uma estação que trabalha 24 horas» e que a chegada do ex-treinador do Chelsea ao aeroporto de Lisboa era «um assunto da actualidade que fazia parte do alinhamento».

Lá que a chegada de José Mourinho era “um assunto da actualidade” não há dúvida, tanto que aconteceu!!! Agora, que fazia parte do alinhamento!?!?!?. Uau. Porquê?

Algumas hipóteses:

1) Precisar a hora exacta da chegada?
2) Perguntar-lhe de onde vinha e/ou para onde ia?
3) Como tinha decorrido a viagem?
4) Verificar se viajava sozinho ou se, pelo contrário, era acompanhado pela mulher e/ou os filhos?
5) Perguntar-lhe pela 1000ª vez para que clube iria trabalhar?

Mas ainda que houvesse qualquer coisa de interessante a ver ou a perguntar-lhe tinha que ser transmitido em directo?

Pois parece-me que não; e se não, a decisão editorial foi errada. Acontece aos melhores.

A decisão editorial acertada (fala um burro) era o óbvio: deslocar os profissionais da SIC necessários ao aeroporto (e nem era preciso carro de exteriores), gravar a chegada e eventuais reacções do “chegado” e, já que "é uma estação que trabalha 24 horas", transmitir isso mais tarde, por exemplo, no final da entrevista ao Santana Lopes.

Assim não decidiram e deu no que deu.

O Ricardo Costa veio defender a sua dama lá da melhor maneira que pôde dizendo que Santana Lopes escolheu praticar uma “acção espectacular, muito ao seu jeito”.

Mas oh Ricardo Costa, então não é espectáculo que você procura?

Não foi espectáculo que pretenderam mostrar ao cobrir em directo a chegada do José Mourinho?

Pois se era espectáculo que queriam foi espectáculo que tiveram; embrulhem.

Ou será que, para o senhor, tudo é espectáculo legítimo desde que não seja você o bobo?

É que se é assim, este tipo de comportamento (e as pessoas que o praticam) tem nome (estou até a lembrar-me de vários): mas direi que é apenas incoerente.

Adenda às 22:00

A Direcção de Informação da SIC emitiu, pelos vistos, uma "nota".

Reza assim:

"A SIC entende que não faltou ao respeito a Pedro Santana Lopes e que a chegada de José Mourinho não era um elemento perturbador de uma entrevista para a qual tínhamos previsto cerca de 30 minutos.
A SIC Notícias é, seguramente, a televisão portuguesa que mais importância dá à política nacional. A atitude desproporcionada de Pedro Santana Lopes não altera a nossa linha editorial."

Só a SIC entende que não faltou ao respeito a Pedro Santana Lopes. Só a SIC entende que uma interrupção não é um elemento perturbador.

A SIC Notícias, sendo o único canal que emite 24 horas de informação, não só é o que mais importância dá à política nacional como também, suspeito, é o que mais importância dá à política internacional, ao desporto, à cultura, etc, etc, etc.

Só a SIC não vê que desproporcionado (e despropositado) foi o destaque dado à "aterragem" de José Mourinho na Portela.

Só a SIC não percebe a urgência que tem em mudar a sua linha editorial.

Como dizia o outro: cada cavadela, cada minhoca. Apre!

Diz o povo, e com razão, que não há pior cego do que aquele que não quer ver.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Palavras impossíveis de aturar



Confesso: há palavras que me irritam e inalienável é uma delas.

Inalienável soa-me a dogma, a sim porque sim, não porque não, em suma: a argumento dos sem argumento.

Hoje na TSF:

"Os trabalhadores desta empresa (Valorsul) responsável pelo tratamento do lixo nos concelhos de Lisboa, Loures, Vila Franca de Xira, Amadora e Odivelas não estão a cumprir os serviços mínimos exigidos num protesto contra a discrepância de aumentos dados à administração (30 por cento) e aos funcionários (1,5 por cento)."

"Em declarações à TSF, o sindicalista Delfim Mendes confirmou que a paralisação está a ter uma adesão de 80 por cento entre os cerca de 260 trabalhadores da Valorsul e que está terá consequências visíveis na acumulação de lixo nas próximas horas."

Sabe-se:

1. O direito à greve é um daqueles inalienáveis.

2. A obrigação de serviços mínimos é alienável.

3. A vergonha de políticos e sindicalistas há muito foi alienada: aqueles a troco de votos, estes a troco de números (que é a única coisa que lhes interessa: níveis de adesão); ambos a troco de tacho.

4. O direito dos cidadãos, completamente alheios ao circo, a não viverem suterrados em imundíce é alienável.

À nossa moda, a greve, por muitas voltas que se lhe dê, é uma chantagem criminosa; não teria a irrisória utilidade que tem se não fosse.

E para final conversa ...



Ele há mil e uma maneiras de manter uma conversa sem sentido, m
as muito menos de a terminar de forma inequívoca.

A propósito dos malfadados livros que não mudaram vidas, Abel Barros Batista (que eu infelizmente não conheço) citado pela Carla Quevedo (que eu também infelizmente não conheço) no bomba-inteligente diz:

"A única maneira de tornar a conversa aceitável, digamos assim, seria propor a quem nos dissesse que certo livro não lhe mudou a vida: «Bom, vamos lá então saber que vida tem sido a sua…»"

Genial.

terça-feira, setembro 18, 2007

terça-feira, setembro 11, 2007


Anda por aí uma corrente sobre “10 livros que não mudaram a minha vida” a gerar grande debate.

Tendo em conta o estatuto da maior parte dos “aderentes”, muitas das suas respostas são, no mínimo, surpreendentes; há quem as ache chocantes.

Coloquei-me na posição de convidado da corrente e pus-me a olhar para as estantes aqui ao lado e não encontro um único que me tenha mudado a vida. Não são muitos; serão talvez uns 500 livros. Comparada com a biblioteca de qualquer um deles é ... miserável.

É pois da esfera da lógica o problema que me assalta os miolos: como escolher (sim, trata-se de escolha) 10.

Só vejo uma possibilidade: são os 10 livros que melhor não-mudaram a minha vida (os que possuem algo que os diferencia dos outros que também não-mudaram, só que menos, em menor grau portanto. Pergunto: não deverão ser estes os escolhidos?!?!

Concordo com alguém (esqueci onde, peço desculpa) que disse que a pergunta era irrespondível.

É, também me parece.

Assim como me parece, estranhamente, tratar-se de um gesto de vaidade inconsequente e completamente desnecessário, tendo em conta (repito) o estatuto dos respondedores.

Lanço daqui um repto a quem interessar: “10 livros que não sabes de que forma não mudaram a tua vida”.

Links: há muitos, o bomba-inteligente tem quase todos.

sexta-feira, setembro 07, 2007




Américo de Sousa, no “retórica”, fala sobre a “prioridade das impressões sobre as ideias”.

É um assunto que me interessa bastante, na verdade, desde que li o Edgar Morin no “As grandes questões do nosso tempo” onde, muito no início, fala de “a componente alucinatória da percepção”.

Morin ilustra a ideia com um episódio vivido por ele próprio ao presenciar um acidente de viação em que um “2 cavalos”, passando indevidamente um sinal vermelho, chocou contra um motociclista.

Morin confessa que juraria por tudo que o “2 cavalos” tinha passado o sinal vermelho. Acontece que pouco depois pôde comprovar com outras pessoas que presenciaram o mesmo acidente que, de facto, tal não tinha acontecido: de facto, quem havia passado no vermelho tinha sido o motociclista.

Morin explica depois qual pensa ser o motivo da sua alucinada percepção, nomeadamente, a tendência para ajudar os mais fracos perante os mais fortes, etc.

Não se pode dizer que o caso da jovem entrevistada, de que Américo de Sousa fala, seja um caso de alucinação, mas assemelha-se bastante.

O caso da jovem que gostou muito da obra a satirizar Bush mas não sabe explicar porquê, parece-me ser mais exactamente, por um lado, um caso de impossibilidade de abarcar a complexidade do mundo que nos rodeia e, por outro lado, a necessidade que todos os que se julgam particularmente inteligentes e cultos (e nestes óbviamente se incluem os frequentadores de exposições, e bienais, e etc) sentem de ter algo a dizer sobre tudo; o Manel das Vacas não precisa de ter opinião sobre o aquecimento global ou sobre a guerra no Iraque, mas “eu” preciso.

É, no fundo, uma questão de ignorância: ela não sabe que não sabe; ela não sabe que não precisa de saber; ela não sabe o que teria de saber para ... saber.

Acontece que, a limitação do Manel das Vacas é a mesma da jovem intelectual: é impossível abarcar, em poucas palavras, a complexidade de um assunto como: defina George Bush.

Sublinho aqui a questão “intelectual” vs. “não intelectual” porque um não intelectual como o Manel das Vacas não tem dificuldade nenhuma em dizer que não sabe, que não tem opinião, que nunca pensou no assunto.

Seria aliás muito interessante ouvir o que tinha a dizer o artista sobre a sua obra. Embora saibamos todos do irrefutável alibi dos artistas: isto é o que é.

Mas concordo com o Américo; é um problema de interpretação: de que forma interpretou a jovem, e todos os que (acham que) têm opinião sobre o assunto, a monumental quantidade de informação (factos e factos-opinião) que foram produzidos sobre o assunto.

Depois há uma outra questão relacionada com a comunicação social: o repórter pergunta, ponto. E na minha opinião, falta-lhes a sensibilidade para detectar perguntas imperguntáveis. E aquela pergunta de que fala o Américo de Sousa é uma delas. É que a jovem, tendo opinião fundada, estaria ali a falar umas quantas horas para não dizer dias.

Complexidade por complexidade, continuo: o que responderia o repórter se a jovem respondesse com uma pergunta: “e porque pergunta isso?”

quinta-feira, setembro 06, 2007


um mundo possível

de todos os lugares longe como ontem
tu és talvez o mais próximo;
sei-o porque estendo
e sinto-te o contorno
fronteira inviolada.

mas um corpo é um país
sem língua conhecida
a viver em desgoverno
por isso os gestos
e os equívocos
são muito necessários.

recuaremos ao tempo
da formação das ilhas,
da medição dos espaços
com aparelhos imprecisos,
do fogo a forjar objectos
nunca vistos;

recuemos até antes das florestas
quando paisagem não se dizia assim.


David Augusto Fernandes

terça-feira, setembro 04, 2007


Larry Craig é (era) senador republicano há 16 anos consecutivos.

Era, porque se demitiu; parece que foi apanhado em comportamento impróprio com um polícia à paisana no urinol do aeroporto de Minneapolis.

A historieta, enfim, tem contornos de delírio.

Então um senador de 62 anos, conhecido pela sua luta contra os casamentos gay, oposição à presença de homosexuais nas forças armadas, é apanhado num urinol de um aeroporto (não é na casa de banho; é no urinol) em comportamentos impróprios com outro homem? Não teria o homem forma mais discreta de saciar o seu gosto por "maçaroca" - na expressão de Eduardo Pitta?

Parece que o senador foi conduzido à polícia, se declarou culpado de “conduta lasciva” e pagou uma multa de 500 dolares.

Eh pá; eu até nem sou nada de teorias conspirativas, mas que a história me soa estranha, lá isso soa.

Enfim, o tipo demitiu-se e portanto, raciocínio consequente, assume a sua condição.

Eduardo Pitta
não só dá eco à estória, como contextualiza o episódio no tempo recente da vida americana. Parece que há mais casos: o de um congressista obrigado a demitir-se quando se soube que assediava rapazes que trabalhavam no Congresso e um outro detido quando aliciava um polícia negro a o acompanhar até “debaixo de uma ponte, onde era mais sossegado” a troco de 20 dolares.

Um minuto; estou a visualizar o quadro.

A verdade é que não consigo perceber o que realmente pensa Eduardo Pitta sobre o assunto:

Será que concorda com as demissões?

E porquê?

Porque um senador faz figuras tristes com um homem (por acaso polícia à paisana) num urinol? Ou porque um senador “anti gay” e “homofóbico” se coloca nessa posição?

Porque um congressista assedia rapazes que trabalham no congresso ou porque assedia pessoas sobre as quais tem qualquer tipo de poder?

A mim parece-me perseguição homofóbica.

Também não entendo como se pode concluir que "gostar de maçaroca" implica ser-se a favor da presença de homosexuais nas forças armadas ou defensor do "casamento homosexual".

Enfim, não percebo, pronto.

Diz Eduardo Pitta que infelizmente para o senador, a história não morreu na esquadra da polícia. Digo eu: infelizmente para nós que estas histórias chegam alguma vez a ter vida.

Confesso-me seguidor assíduo do daliteratura mas este post, caro Eduardo permita-me, saiu completamente ao lado.

De qualquer forma, realmente, a etiqueta “homofobia” não podia ser melhor aplicada.

segunda-feira, setembro 03, 2007



O Vento

Posso ouvir o vento passar
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver...
Eu pensei
que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
Um século, um mês,
três vidas e mais
um passo pra trás?
Por que será?
...vou pensar.

- Como pode alguém sonhar
o que é impossível saber?
- Não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi,
o vento leva!
- Não sei mas
sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer...
e isso por que?
Diz mais!
Uh, se a gente já não sabe mais
rir um do outro meu bem então
o que resta é chorar e talvez,
se tem que durar,
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
Um século, três,
se as vidas atrás
são parte de nós.
E como será?
O vento vai dizer
lento o que virá
e se chover demais
a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois
sorrir em paz.
Só de encontrar... ah!...

Rodrigo Amarante
Los Hermanos