quarta-feira, setembro 10, 2008

A delicada arte de soltar (*)

«Atingir o alvo é algo secundário para os kyudokas, pelo menos inicialmente. Na arte tradicional japonesa de tiro ao arco, o período formativo de um arqueiro é passado a conciliar a técnica, o físico e o espírito. Os entusiastas do "arco e flecha" necessitam, acima de tudo, de duas qualidades: perseverança e paciência.»

«Com o seu dedo indicador, Akira Sato desenha uma linha no tampo da mesa. Segue até uma extremidade que designa o alvo, o qual Sato determina por si próprio, apesar de saber que talvez nunca o atinja, pelo menos, a longo prazo. Porque o kyudo, uma arte tradicional de arco do Japão, é uma disciplina exigente, até mesmo para um professor altamente respeitado como é o seu caso.» (*)



Parece tudo muito estranho e incompatível com aquilo a que se chama "sucesso", mas nem sequer foi esta estranheza que me chamou a atenção; foi coisa de linguagem, coisa de palavras.

Aparentemente, há uma gralha no texto: "apesar de saber que talvez nunca o atinja [o alvo], pelo menos, a longo prazo". E pode muito bem ser: é muito provável que o autor do texto pretendera dizer "pelo menos a curto prazo".

O que eu acho curioso é que, propositado ou não, por linha tortas ou direitas, o autor usou as palavras certas para definir uma actividade sem fim, que pretende atingir algo para lá do seu objectivo.

Sabe que não se conseguirá, pelo menos, a longo prazo, ilumina belissimamente o, só aparente, paradoxo.

É uma frase que pode ter contornos filosóficos?!? Pode pois, mas isso não importa; o que importa é a poesia.

David Augusto Fernandes


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(*) Título e extractos assinalados retirados de um texto de Felix Zimmermann para a revista Mercedes Magazine nº 03/2008

Mais informação em http://www.kyudo.com

terça-feira, setembro 09, 2008

A imortalidade

Artes, engenho, mera força
e no entanto a luz
emudecente
como fragmentos de livro
para um léxico incompleto.

Logo a apneia involuntária
assustadora como se aparecesses
mas efémera porque não.

Deste alívio se pressente então possível
uma validade insubmissa
como se o tempo não trespassasse tudo
a ver-se
mas tu nunca chegares.

Caminha-se com ele
mas não há desarranjo nos relógios
ou nas sirenes das fábricas
nem desânimo nas aves que migram.

E no entanto a sombra de tudo
perfeitamente como é de ser:
alfabetos vivos e mortos,
até dicionários sem serventia,
bibliotecas imensas de saber:
um universo de sombras
de perfeitas engrenagens.

David Augusto Fernandes