sexta-feira, dezembro 29, 2006

O nosso reino, valter hugo mãe, temas e debates

Ando a ler este livro com um atraso de dois anos e suspeito que não vou conseguir acabá-lo. Não porque seja difícil, ou terrível, ou triste, ou alegre, ou isto, ou aquilo; apenas porque não quero deixá-lo.

Estou no bom caminho: ainda não comecei o segundo capítulo, página 27. Mas já acabei o primeiro, várias vezes.

Não sei descrever o que me parece este livro. Deixo apenas uns recortes do pouco que já li, várias vezes: o primeiro capítulo.

se estivemos juntos, foi pelo funeral da minha avó. acabado que estava o dia voltávamos para cada casa sozinhos e separados novamente, impedidos de julgar asneiras por coisas certas os dois ao mesmo tempo. haveria de ser à vez, cada um na sua vez, a decidir pelas asneiras. o que facilitava a vida dos adultos.

fechei os olhos no caminho, mão dada à minha mãe a puxar por mim aos esticões.

e o manuel estava à porta da sua casa, comprometido, a silenciar algo. pela primeira vez vi-o como um estranho, outra pessoa, não outra pessoa que não ele, mas simplesmente uma outra pessoa, não eu

eu não posso ir, tu sabes que a minha mãe está muito doente, agora piorou, e o meu pai resolveu que vamos à missa mais tarde. iam à missa dos pecadores, dos que se atrasam, dos que não querem ir.

jurei que o manuel me abandonou naquele dia, não fui eu, não foi coisa da minha cabeça. deixou de me fitar, agarrou no portão como se se protegesse contra mim, e silenciou-se de vez, como quem não me falaria mais, fechado sobre si mesmo para me deixar fora da sua vida. e eu fui, passei em corrida pela minha mãe, caí, abri os joelhos de feridas, e magoado corri de novo

a chuva (...). mal a vi, começara naquele exacto instante em que avistei o rochedo, e a ele assomei na minha corrida sem hesitações, como um cavalo, e voei até à água que bateu no meu corpo adormecendo-o.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Les choristes




"Duas pessoas ficaram feridas, uma delas um adolescente de 13 anos, esta terça-feira à noite, em Israel, quando militantes palestinos dispararam um rockete que caiu na cidade israelita de Sdérot, na Faixa de Gaza. Uma das crianças está em estado crítico."

"Governo israelita promete resposta."

Segundo a Wikipedia, os primeiros indícios da Lei de talião foram encontrados no Código de Hamurabi, em 1730 a.C., no reino da Babilônia. Essa lei permite evitar que as pessoas façam justiça elas mesmas, introduzindo, assim, um início de ordem na sociedade com relação ao tratamento de crimes e delitos.

Por outro lado, ainda segundo a mesma fonte, está também no Direito hebraico (Êxodo, cap. 21, vers. 23/5): o criminoso é punido taliter, ou seja, talmente, de maneira igual ao dano causado a outrem.

Dar a outra face é coisa mais recente e não se trata disso.

É de comum senso que violência gera violência. Mas, como todos os lugares comuns, perdeu sentido e valor porque a sua razoabilidade se baseia apenas no porque sim.

Não é óbvio que toda a violência tenha que gerar violência (ou então a paz é algo impossível de atingir) mas interromper esta cadeia implica não responder à violência com violência e isso é sinal de fraqueza. Por isso se procura impôr ao outro esse passo.

Isto é: procura-se através da utilização de actos violentos obrigar o outro a abdicar da violência. Ou muito me engano ou isto só pode ser conseguido através do extermínio de uma das partes, ou até de ambas.

Nenhum feliz desfecho à vista, portanto, e ainda bem para todos os "interessados" nestas confusões; o povo é outra coisa.

Quem sabe a que propósito, revi ontem na 2 o filme "Os coristas"

PS: talião escreve-se com t e não com T porque não é um nome.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

De uma lista bem maior publicada no último Expresso, fiz uma selecção. O quê e o porquê (ou não).

NOTA: Os preços são os indicados pelo Expresso, suspeito que alguns deles estejam um pouco inflacionados não sei por que artes. A Leitura, a Bertrand e a FNAC diferem um pouco em alguns deles.

Eis então a wishlist (que não é bem uma lista de desejos) para este Natal (ou natal; não, não sou o único...). Feliz isso e boas compras. Para me enviarem os livros, contactem-me para o email ao lado que eu enviarei a morada postal. Obrigado.


Tipografia - Origens, Formas e Uso das Letras
Paulo Heitlinger
Dinalivro
36.75?


Porque me fascina o gráfico, a capacidade de sintetizar, e ao contrário dos cães, o sentido da visão relativamente mais apurado que o do olfacto.



Até onde se pode ir?
David Lodge
ASA

13.00?

Porque sim.


Cidade de Vidro
Paul Auster, Paul Karasik, David Mazzucchelli
ASA

15.00?

Porque é do Paul Auster, alguém que não faço a mínima ideia quem seja (aliás como todos os ouros acima e abaixo)


O animal moribundo
Philip Roth
Dom Quixote

15.00?

Porque gosto do António Lobo Antunes e não acredito em toda a gente.


Correspondência 1959-1978
Sophia & Sena
Guerra & Paz

22.00?

Mironisses!


Kafka à Beira-Mar
Haruki Murakami
Casa das Letras

20.00?

Murakami era um mestre de karate já falecido; não deve ser relacionado com este.

Porque não?


Borges e a Matemática
Guillermo Martínez
Ambar

16.00?

Pela matemática


Os dias loucos do PREC
Adelino Gomes, José Pedro Castanheira
Expresso/Público

19.90?

Porque nunca consegui compreender o que pode haver de extraordinário num verão ... quente?!?!

sexta-feira, novembro 03, 2006

60! Sessenta.

Numericamente 60, como qualquer outro numero inteiro, pode ser representado pela multiplicação de vários números primos. E, segundo um famoso teorema, não há duas formas de o conseguir fazer.

No caso presente, os tais números primos são: 2 x 2 x 3 x 5 e não há outros que, multiplicados, perfaçam 60.

Extraordinárias coisas.

Primeiro, o facto de ser sempre possível enumerar um conjunto de números primos cujo produto representa um qualquer número inteiro.

Segundo, o facto de não haver dois conjuntos (diferentes) de primos cujo produto seja idêntico.

Assim é a vida!

Não há duas formas de se atingir 60 anos, parece-me: com muita ou pouca vontade, com felicidade ou infelicidade, atingir 60 anos é ter vivido todos e cada um desses 720 meses. Não há alternativa.

Quem os viveu, viveu. Quem não os viveu não sabe. Ponto.

Fosse a vida uma função matemática e tudo estaria dito. Mas não é.

Não é, porque não há matemática que explique a forma como se vivem 60 anos.

E neste particular aspecto do assunto, muitíssimas alternativas se apresentam aos candidatos e nem o próprio pode lembrar, quanto mais explicar, todas as escolhas que foi fazendo ou que se foram, mesmo à revelia da sua vontade, impondo.

Todas as dúvidas que foi, ou não, esclarecendo; os passos que foi dando: uns, seguro da segurança (!!!!!) que o caminho lhes dava, outros completamente alheados da razão.

Enfim, é difícil, para não dizer impossível, enumerar todas as variáveis de uma hipotética função que pudesse representar a vida de um homem.

Aliás, tenho a leve suspeita que a maior parte das justificações para uma vida se poderão encontrar do ?lado de fora? do sujeito dessa vida.

E se for certo que para nos explicarmos temos que olhar em volta e procurar quem somos nos olhos de cada um desses que vemos, deve ser reconfortante saber que, além de muito, pouco ou nada apreciados, além de nos vermos simpáticos ou antipáticos, somos alguém que não deixa alguém indiferente.

Melhor talvez não procurar explicar quem somos; melhor, então, não querer justificar o que fazemos. Melhor, talvez, começar a procurar a sempre curiosa enumeração de números primos cujo produto representa ?mais um?.

Curioso: 61 é número primo, logo não pode ser expresso através do produto de outros primos que não ele. Ao contrário, pode ele próprio ser factor de muitos outros números.

É este o meu desejo pai João. Que sejas ainda factor de muitas coisas, que sejas ainda princípio de outras tantas apesar de coisa nenhuma! Certo?

Isso e que à tua volta tenhas sempre olhos que te ajudem a ver quem és e porque o és! Certo?

quinta-feira, julho 27, 2006

Da inutilidade da saudade


"Eye", M.C. Escher 1946


Partem à aventura,
acreditam e
podem querer.

Na semelhança de
quase a caminho
com já muito perto
ideias fervilham sucessivas
telhas de uma descobertura.

Entre o suficiente
e o necessário
diz-se que se alonga o tempo
se um pouco de ontem puder
ainda ser,
mas estão todos a morrer.

Quantas águas
ou que cor
poria Escher num telhado?

David Fernandes


sábado, fevereiro 25, 2006

Fui aprendendo que só algo de extraordinário me faz escrever.
Hoje assim é: vi o António Lobo Antunes. Vi, e falei com ele; se falar for dizer algo.
Ele a olhar para mim, à espera e eu: David e ele: David nome bíblico e eu: nada.
Ele sorriu e escreveu: Para David.
Extraordinário mas não foi tudo.
Desculpe António, mas não foi tudo.