sexta-feira, dezembro 23, 2005

Suponho que todos os anos tenham qualquer coisa ... própria, sua, e quando acontece, faz sentido cantar isto.
Além de o que diz, é a música sete do disco, apropriada portanto para um ano sete.

-


I Remember That

Nothing sounds as good as "I Remember That"
Like a bolt out from the blue, did you feel it too ?
- I remember that

Name me one little thing, you'll be wanting to keep
As you give up the ghost as you sink into sleep
Maybe her face in the morning, maybe his in the evening
Maybe words never spoken, aren't they the ones worth hearin' ?
Say I remember that

Nothing sounds as good as "I Remember That"
Like a bolt out from the blue, did you feel it too ?
- I remember that
Nothing sounds as good as "I Remember That"
Like a bolt out from the blue, did you feel it too ?
- I remember that

'Cos that's all we can have, yes it's all we can trust
It's a hell of a ride but a journey to dust
And there's nothing pathetic listing clothes she'd wear
If it proves that I had you, if it proves I was there
Say I remember that

Nothing sounds as good as "I Remember That"
Like a bolt out from the blue, did you feel it too ?
- I remember that
Nothing sounds as good as "I Remember That"
Like a bolt out from the blue, did you feel it too ?
- I remember that

Did you feel it too ?... I remember that
Did you feel it too ?... I remember that...

Prefab Sprout

terça-feira, novembro 29, 2005

Aproxima-se o final do ano, época dos votos incumpríveis.
E depois de um ano destes, nenhum bom augúrio de melhor.
Ainda assim, não há como escapar a prometer coisas impossíveis; é mais forte.

Eis então o primeiro, ou último, de alguns pequenos votos:




Ser de reflexões mais simples,
um reflexo quase genuíno.
Andar por aí à chuva
numa motoreta com nome
e de aparente tudo
a teus olhos.

terça-feira, novembro 01, 2005

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
eu era feliz e ninguém estava morto."

Alvaro de Campos

domingo, setembro 25, 2005

Os hipermercados vendem livros; já se sabe. Cada vez com mais "cuidado".

No Jumbo, podemos agora mais facilmente encontrar o que procuramos. Os gajos separaram a oferta em estantes, digamos, temáticas; ajuda.

Por exemplo, podemos ver uma estante "Literatura portuguesa", outra "Literatura estrangeira"; é muito cómodo.

Estranhei o facto de Augusto Abelaira e o seu "Bolor" aparecer na estante "Literatura estrangeira".

Mas percebe-se assim que se lê o texto na contracapa do referido livro:
"Augusto Abelaira escapará sempre a qualquer classificação que lhe queiramos atribuir, já que a sua invulgar criatividade o projecta para além de géneros, correntes, geração ou outro contexto em que tentemos perscrutá-lo". Acrescento eu: ou nacionalidade.

Mas entende-se! Claro, então está bem.

Vá! Podiam tê-lo posto na zona alimentar mas o responsável deve ter achado o título do livro pouco apropriado para figurar ao lado dos yogurtes, ou do pão de forma, ou das chouriças.

Ainda bem, que o responsável é ... um profissional cuidadoso.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Muitas vezes dou por mim a imaginar o que se passará dentro da cabeça de certas pessoas em determinados momentos das suas vidas.


Como por estes dias.


Tenho andado a imaginar em que raio estaria a pensar o editor do Dailly Mirror quando decidiu publicar a notícia (acho que até a foto) da modelo Kate Moss a cheirar cocaína.


Tenho imaginado que esse editor talvez tenha dito de si para consigo, lá na língua dele, algo como:

- "Busted!"


Na nossa significa, mais arroba menos quintal:

- "Foste apanhada!" ou, mais apropriadamente:

- "tás fodida!"


Não lamento, mas não consigo parar de "ver" a cara de prazer que o tal editor terá feito; preconceito meu, não lamento.


Um turbilhão de consequências advieram da tal notícia.


Algumas das empresas (não todas) com as quais a referida modelo tinha contratos publicitários apressaram-se a cancela-los, ou pelo menos a manifestar essa intenção.



Fico sempre muito confundido com este tipo de notícias.



Pergunto-me ao abrigo de que lógica é que uma empresa, neste contexto, cancela o contrato que tinha com Kate Moss. ... e advogo-me o direito de descobrir o "pensamento" delas ou, o dos seus responsáveis sobre qual será o pensamento dos consumidores acerca do assunto:


Eis alguns deles, cada uma mais lógico que o outro:


1 - As roupas que a modelo veste e mostra um pouco por todo o mundo deixaram de possuir qualidade pelo simples facto de ela, a modelo, ter consumido drogas.

2 - A lingerie que a modelo publicita (e que bem que lhe assenta) deixará de merecer a confiança de muitas mulheres já que a modelo que lhas mostrou não é moralmente exemplar.

3 - O baton que a boca da Kate Moss tão bem vende, não mais se conseguirá libertar do estigma de ter sido visto nuns lábios onde já terá também pousado um charro.


Eu cá por mim digo: se fosse cliente de uma dessas empresas, não estaria muito contente com o atestado de imbecilidade mental que esses senhores-responsáveis-magos-do-marketing me estavam a passar. Ah não ficaria MESMO nada contente.


Tenho a certeza que esta gente não entende nada de poesia. Mas talvez entendam da vida.


E nem se dão conta de que estão a agir precisamente ao contrário do que seria normal, fossem aquelas cabeças providas de um mínimo de bom senso.


Estou deveras espantado como pode ser possível tanta gente acreditar que a Adriana Calcanhoto fala verdade quando diz (e canta): "só a bailarina é que não tem..."


...


Não paro de tentar imaginar o que terá pensado, de si para consigo, o tal editor responsável pela publicação.



Não me ocorre nada além de:

- "Busted!"



E a verdade é que, muito provavelmente, está mesmo.



Assim vai por este dias a vida da Kate Moss: modelo, mãe, estrela, bonita, escultural mesmo e, pasme-se, ser humano.

sábado, agosto 06, 2005

Devo andar carente porque me sinto à procura.


Falo de livros. E não vou atrás, não porque vá à frente; vou simplesmente à procura.


Acho que só se pode ir à procura assim sem ir atrás, tão pouco à frente, de livros de poesia. E o encontro é rápido, é prático, sem sedução: é brutal.

Não acredito que se consiga coisa assim num folheio de um romance.


"quién no ha buscado el placer nítido?
quién no ha intentado organizar un desenlace sin escombros?"


Inventário Dos
Mario Benedetti
Pág. 187


A poesia aborda-me como uma puta: sem rodeios.

terça-feira, julho 05, 2005

SEM FIANÇA.

O passadiço indica o mar.
Faremos ao contrário,
o improvável por garantia:
leva-me esquiço
a um desses cais de rio
como o lugar onde
muito sensível à luz
se guarda a colecção
menino.

quarta-feira, junho 22, 2005

CRIAÇÃO

Enquanto não for possível dizer: aí, aqui;
com as mãos em palmas, bem abertas,
continuamos a afastar a água
minuciosamente.

Talvez saibamos distinguir azul de amarelo
sem a lâmina que desconcerta o verde,
que não cessa de se lhes insinuar
- como um céu em queda abrupta
e fina de tão leve
ameaça travessia.

A horas determinadas por uma luz inimiga
hão de ver-se formas como formas
de corpos unidos,
invejáveis.

Ainda assim,
talvez saibamos distinguir azul de amarelo:

búzios,
latas de refrigerante,
algas seres secos,
cacos de telha impossível
de um lado;

e alguém a enganar-se:
tudo morto,
do outro.

terça-feira, junho 14, 2005

minutos depois o horizonte

aos poucos vou sabendo mais:
menos
e menos
e pouco antes de saber tudo:
nada,
ainda então será viver:
última ciência.

por isso,
quando minutos-depois-o-horizonte
de onde se avistam muitos mais barcos vivos
e se vence ou esquece o horror a gaivotas,
não me faltes;
dar medida ao inconcebido
é como cortar a mão que resta
sem auxílio.

depois, sim,
não mais um-dia,
ainda que promessa,
pois que em um-dia o tempo inteiro.

david fernandes

segunda-feira, abril 04, 2005

285 da tua mão

Supus ser hoje um dia sete - desses quase raros nem sempre de nove em nove. Quis que te fosse bom, e disse-to. Mas não é. Digo, sete.

Não é e não sei porque me pareceu ser, mas tenho as minhas fundadas suspeitas: será porque desejo que todos os dias sejam dias sete; ou porque quero sempre que saibas que existo; ou, e esta é a mais provável das alternativas (também posso ser falso de vez em vez), porque o verdadeiro dia sete, ontem, aparentemente não acabou porque não fechei os olhos no sono ... que nunca te trouxe.

Conjecturo que é o próprio sono, ou alguém durante ele, que muda as páginas do calendário. E se assim for, é possível "não-envelhecermos" juntos, já viste?

Vem isto a propósito de coisas que não esqueço e que, por sinal, aumentam em número de dia para dia.

Sabia bem de onde vinha aquele número que me acompanha há dias, sempre, um número que não é um sete, ou é, segundo disseste, por dentro: o 285.

Estive a menos que isto de ler o que está escrito naquela página. E peguei até no livro mas não o abri; tive medo de acertar, confesso. E, por vezes, acertar dói um bocadinho.
Por isso, espero o dia em que hei de lê-lo da tua mão, sem sono.

sábado, abril 02, 2005

Elogio da lembrança

talvez ao erguer o copo te perguntes:
de que lado está o rio?
talvez esteja a recuar, hoje.

não te preocupes,
eu digo-te:

caminho de costas para o mar
e o rio nestes hojes não recua.
está forte como nunca
mas eu mais
como quando os barcos são mais lentos.

segunda-feira, março 14, 2005

Elogio da solidão

Pode demorar muito tempo a descobrir-se aquela parte do corpo - inteiro - que incumbe a distância de zelar pelo amor - na falta de palavra mais exacta -, mas cedo ou tarde - e a oportunidade do momento não depende de coisa alguma - vai dar, de si, notícia de existência.

É de um desses pedaços de ser que fala quem diz: conheço-te tão bem!

quarta-feira, março 09, 2005

COISAS QUE SE DIZEM

Chegar de automóvel a uma cidade estranha é para mim o momento de pânico culminante de, pelo menos, três dias de sofisticados cálculos relacionados com distâncias, conversões numéricas de decimais para sexagesimais e vice-versa, médias horárias e outras variáveis impossíveis de determinar, talvez por isso chamadas de variáveis.

Conduzir um automóvel numa cidade grande e estranha não é das minhas actividades preferidas. Ainda menos porque preciso de ler as placas toponímicas das ruas sem me distrair o suficiente para me deparar com a surpresa de um automóvel parado no meu caminho, tarde demais, demasiado perto.

Em primeiro lugar, é difícil ler os nomes das ruas gravados nas suas placas, à distância a que passo delas. E depois porque, conseguindo ler um deles, tenho que olhar o mapa que sempre me acompanha nestas aventuras de modo a conseguir localizar-me no todo mais geral da grande cidade.

Canso-me sempre muito depressa deste vaivém de olhares e então dou início à busca de um transeunte (acontece sempre isto e nem sei porque ainda transporto mapas).

Nada fácil. É que além de não poder tirar os olhos da estrada por mais de meio segundo, preciso de encontrar alguém com a característica pouco definida de parecer "um local" (um indígena, portanto). Deve ser alguém que conheça a cidade, ou pelo menos aquela parte da cidade, partindo do princípio idiota de que aquela parte da cidade onde me encontro será a mesma parte da cidade que contêm o local para onde pretendo dirigir-me. Ter este raciocínio em relação a uma grande cidade é o mesmo que sentir dores num joelho e achar que o problema se resolve com um xarope expectorante.

Mas enfim, sempre se pode ter a sorte de encontrar um especialista que conheça toda a cidade, ou pelo menos, o meu destino e ao contrário de mim não se encontre perdido, isto é: saiba onde está.

Uma vez identificado o indivíduo, outro problema surge: como chegar até ele? Normalmente, quando tal alma me aparece em linha de vista, o meu automóvel encontra-se na faixa de rodagem do lado oposto, pelo que uma ou outra manobra perigosa vão ser necessárias para chegar até ele. Umas quantas buzinadelas, palavrões e gestos estranhos em forma de pássaro depois, lá estou.

Abro a janela do lado direito e chamo, tendo o cuidado de não parecer muito brusco não vá aquele mapa ambulante assustar-se e ter pensamentos estranhos sobre os meus propósitos. Pergunto-lhe como se vai para tal sítio assim e assado, rezando para que o tipo não diga algo como "não sou daqui" mas também esperando não ter encontrado alguém que queira descrever com exagerado pormenor todo o caminho a percorrer.

- "Alameda da República... hum, deixa cá ver... já sei." - é um momento de felicidade plena.

- "O senhor segue em frente. A rua vai começar a subir ligeiramente, esteja atento a um edifício azul que lhe aparecerá do lado direito, porque depois começará a descer de novo. Cerca de 350 metros depois tem à sua direita a Alameda da República".

- "Muito obrigado e boa tarde."

- "Não por isto, homem!"

- " !!! "

- "Não há como falhar; naquela zona é a única rua arborizada."

- "Arborizada."

- "Sim, plátanos. Os maiores e mais antigos do país, talvez até da Europa."

- " !!! "

- "Não me diga que nunca ouviu falar nos Plátanos da Alameda!!!!"

sábado, março 05, 2005

Está outra vez a recuar!

Irrita-me muito o céu tão claro
neste chão sem sombra de nuvem.


¿Pode a mão tocar a mão
e não ser linha de domínio
esse mais longe que alcança
se só um rio que eu
    - que tu -
conheço faz
    - mas ele antigo
    e grande,
    e muito forte,
    e insciente -
das pontes que não podemos alimentar
pontes?

E se pudéssemos unir as margens a vau,
quantas pontes tem um rio seria cardinal irrisório,
não?

Vê como procuro saídas
deste, apenas parte de, tudo o que não se vislumbra.

Irrita-me muito o céu claro:
que chova muito,
que chova muito,
e que o rio não sofra com este meu desejo espiralado,
minha falta;
ele e com ele quantos vivem na procura da corrente contrária,
vidas inteiras tão felizes com tão só:
- Está outra vez a recuar!

David Fernandes

sexta-feira, março 04, 2005

Está por estes dias a passar na rádio um anúncio comercial da TMN em que o lema é: "você vai querer tudo a dobrar".

Parece que a TMN está a vender DOIS telemóveis pelo preço de UM.

No anúncio uma mulher diz mais ou menos o seguinte:

- Pedro! Pedro!

- Que foi? - responde o Pedro com voz de quem estava, ou ainda está, a dormir.

- Chega pra lá um bocadinho. Estou quase a cair.

- Sempre eu, sempre eu, sempre eu ... - responde o Pedro.

- Oh! Já pedi ao João mas ele está ferrado.

Com o lema do anúncio na cabeça, a gente percebe a boa intenção da ideia.
Só que não bate certo.

Ora se antes de pedir ao Pedro "pra chegar pra lá", a moça já tinha tentado o mesmo com o João quer isto dizer que está no meio dos dois.

Ora estando no meio dos dois como pode estar a cair??

A razão é uma chatice, mas quem não é muito racional dá safanões na vida.

sábado, fevereiro 19, 2005

A Ana não me fala há muitos dias e atrás de mim um de dois rapazes fala sobre, como se fosse para, a rapariga que se cruzou connosco antes de entrarmos na escada tão rolante como um automóvel é (há coisas que não entendo).

- Ai se fosses minha irmã: tenho medo mana, deixa-me dormir na tua cama.

O outro a rir, a dizer qualquer coisa que eu não percebi e eu p'ra mim a corrigir: é mãe; ai se fosses minha mãe.

- Sabes lá que bom seria.

O outro parou de rir só para dizer outra coisa, ou a mesma, e eu p'ra mim a corrigir:

- Mãe.

Rolávamos com a escada andar abaixo, sete passos depois as portas de vidro rolariam também para quem quisesse sair dali, e penso na Ana que não me fala há muitos dias porque sei que não faria como eu, p'ra mim sempre a corrigir ou sempre p'ra mim a corrigir; a Ana chama as coisas pelos seus nomes e ninguém precisa de estar p'ra si a corrigir.

A Ana diria algo mas não está aqui, também por isso penso nela.

Um pouco mais tarde voltei a encontrar os dois rapazes dos quais um gostaria de ter irmã, enganou-se ele, ou a tendo fosse diferente do que é para que quando tivesse medo pudesse dizer: - tenho medo mamã (devia ter dito), deixa-me dormir na tua cama.

Pensei p'ra mim outra vez porque não me fala a Ana há muitos dias e à minha frente um dos dois rapazes fala para, como se fosse sobre, o outro:

- Eu sei do que gostam as mulheres, pá.

O outro quase a rir e eu p'ra mim a pensar: - estou a demorar demasiado tempo a perceber isso e estou a perder algo; ou alguém está.