terça-feira, junho 26, 2007

Valores para o nosso tempo
Ando sempre atrasado. Sempre.

Só por estes dias me tenho entretido com o livro “Impasses” - aquele ali - e confesso: estou rendido à sua clareza, ao seu “despreconceito”, à coragem dos autores. É uma daquelas obras brilhantes, de interrogação, de convite à abertura de espírito, de convite ao pensamento LIVRE.

Notável.

Deu-me para pesquisar reacções ao dito livro e claro – confesso aqui um cheirinho de preconceito - já sabia o que iria encontrar.

A maioria das críticas aparecem em blogs (quer sob a forma de posts quer sob a forma de comentários) e em meia dúzia de linhas (às quais terão dedicado alguns minutos - em duas penadas portanto) pretendem contrariar – com ou sem argumentos - o que os autores procuram dizer num livro ao qual terão dedicado, no mínimo, algumas semanas; enfim.

Não me parece que se possa categorizar estas críticas como má fé; são apenas fruto de “indigência intelectual”.

Já quanto a um artigo que encontrei no Esquerda (1), bom, má fé penso ser pouco para o definir.

O artigo dá notícia de uma conferência realizada pela Fundação Gulbenkian subordinada ao tema “Valores para o nosso tempo”.

Começa assim:

«Nos dias 25,26 e 27 de Outubro de 2006, a Fundação Gulbenkian realizou um importante Conferência subordinada ao tema "Que Valores para o Nosso Tempo".»

E a determinada altura informa (sublinhados meus):

“O responsável pela Conferência foi o filósofo Fernando Gil, recentemente falecido.
É dele o texto que segue, de apresentação da Conferência. Interessante lembrar que Fernando Gil defendeu, num livro escrito de parceria com Paulo Tunhas e Daniéle Cohn, "Impasses", a agressão brutal da coligação EUA/Reino Unido ao Iraque como necessidade absoluta para defesa do ocidente! Infelizmente já não pôde ver, em toda a sua plenitude, o êxito da missão em que Bush se empenhou.”

Segue-se o referido texto de apresentação da conferência e mais abaixo o texto da comunicação de Eduardo Lourenço.

Pergunto: porque é “importante lembrar ....” ??

Como é possível dizer que “Fernando Gil defendeu a agressão ...” ??

Que prazer existe no inominável cinismo de um: “Infelizmente já não pôde ver ...” ??

Será má fé ??

Será apenas indelicadeza para com a memória de um homem que já não pode defender o seu pensamento a não ser pelas obras que deixou, e essas, pelos vistos, não as compreende o autor do artigo?

Será “indigência intelectual” ??

Estupidez é com toda a certeza.

Serão a estupidez e o cinismo alguns dos “valores para o nosso tempo”, este nosso desgraçado tempo ?


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sábado, junho 09, 2007


O meu chapéu cinzento é um livrinho admirável de Olivier Rolin e compra-se por 1.50€

O texto da badana diz:

"O Meu Chapéu Cinzento, de Olivier Rolin, transporta-nos, numa extraordinária viagem, da Alexandria de Cavafy e Durrell à Lisboa de Fernando Pessoa, à Atenas de Melina Mercouri, à Goa de Tabucchi, aos Açores de Antero e dos pescadores de baleias...
Recusando embora a classificação de escritor de viagens, Rolin demonstra aqui, porém, a velha e frutuosa ligação que a viagem e a literatura estabeleceram desde que Homero fez Ulisses voltar a Ítaca..."

Para abrir o apetite:

"... as viagens não são mais do que veleidades de exílios, tal como há suicídios falhados."

"As línguas são monumentos tão interessantes como as Pirâmides ou o Parténon. Por que não havemos de visitá-las? Não traríamos delas recordações?"

"... Cavafy escreveu isto, que não tem nada de genial: é simplesmente bastante verdadeiro."

"Lemos um desses livros cujo objecto é uma cidade e depois, ao desembarcarmos um dia pela primeira vez, constatamos que nada mudou desde que nunca lá estivemos."

"... E não me venham dizer que as sombras são negras. Negras! Vão dizer isso a outros... Talvez em Mans, quando as há, ou então em Clermont-Ferrand, lugares de poucas frases, que os seus habitantes me perdoem."

Confesso a minha aversão a sentenças mas não há como contrariar a verdade.