segunda-feira, julho 16, 2007

George Oppen

Se um poema existe apenas na leitura, então, devo dizer que há poemas sem sentido. Nada. Não apontam nada, sítio nenhum. Uma coisa inútil. Uma lástima.

Claro que ao poeta (o autor, o criador) não se lhe podem assacar responsabilidades.

Não acho que seja questão de ter ou não ter respeito pelo poeta. Como em poucas actividades, não é fácil (pelo menos a mim) descobrir um falsário. Aí talvez fizesse sentido a questão do respeito ou desrespeito. Não é o caso.

Não é fácil, mas também não é impossível.

A poesia é liberdade, arrisco: do poeta e do leitor; estão muito bem assim cada um no seu fazer e se o acaso aparece de permeio, seja bem vindo.

Cito George Oppen que numa entrevista, falando de Ezra Pound (que dizia que a poesia devia ser tão boa como a prosa) disse mais ou menos o seguinte:

"a poesia deve ser tão boa como a prosa, etc."
Esta era a frase de Pound à qual Oppen acrescenta:

"deve aliás ser tão boa quanto o silêncio absoluto".

Acrescento que George Oppen faleceu vitimado pela Doença de Alzeimer.

Talvez tenha nesse último momento, imerso no silêncio mais absoluto, feito o seu mais belo poema: o tal tão bom como ...

Tenho uma tendência absurda para confundir o homem com o poeta e para me encontrar apaixonado (na falta de palavra mais exacta) pela poesia por via do homem.

Provavelmente, isto quer dizer que não creio na poesia feita com intuito que não o de .. fazer poesia.

Novamente Oppen: parou de escrever poesia durante 25 anos (25!!!) enquanto se dedicou de forma mais "séria" ao activismo político.
25!!!! Dizia ele que uma e outra actividades acabariam por se "contaminar" irremediavelmente.

Creio que somos o que dizemos, não tenho muitas dúvidas, por isso estou perfeitamente convencido de que se percebe o meu pouco apreço pela poesia de caracter panfletário (político, vá). E bem sei que Portugal é muito rico nesse particular. Bem sei o que me pode custar ter esta maneira de ver a coisa.

Só para explicar a admiração pelo George Oppen, um homem (e uma mulher - Mary Oppen) admirável(eis); uma vida admirável.
... aliás muito prejudicada por essa amizade com Ezra Pound de quem politicamente se encontravam tão longe quanto se possa imaginar.

Apesar disso ...

sábado, julho 14, 2007

A maravilha dos livros

Há livros que maravilham. Uns inteiros outros menos. Algumas vezes nem se sabe bem porquê. É assim.

"Hoje não" do José Luís Peixoto, editado pelas Quasi(1) e distribuido baratinho com a revista Sábado(2) reune seis contos, cinco deles anteriormente publicados no Jornal de Letras, apresentando este volume versões revistas dos mesmos.

Este livro, não é um daqueles que maravilha inteiro, tão pouco é daqueles que deixa marca nas células do corpo que nasceram durante a sua leitura.

Seja como for é um livro delirante, absolutamente delirante. Veja-se bem o que podemos ficar a saber ao lê-lo:

"O que fazer quando se recebe um avião comercial de passageiros"
"Como reagir à queda súbita de todos os dentes"
"Como comunicar com a melhor poetisa do Quirguistão"
"Quem inventou o :)"

O que me leva a escrever algo sobre este livro são duas frases (duas!!!) no conto ":-) e :-(", precisamente o único inédito.

"Inclinando-me pela janela, conseguia ver os carros que se sucediam na Avenida da Igreja. Compará-los a sangue nas artérias seria uma comparação evidente, de tom algo grosseiro, mas exacta."

O conto não seria diferente sem estas frases; é um facto. Mas estão lá e ainda bem. Podia parar a leitura; estou satisfeito.

Fico maravilhado com o óbvio; com o desnecessário. Um livro deve ter aquilo que é preciso que tenha; dê lá por onde der.

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sexta-feira, julho 13, 2007

Bate certo!!!
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The Persistence of Memory, c.1931 por Salvador Dali

- O que farias se te dissessem: tens 1 minuto de vida?
- Respirar como sempre faço. E decerto que não ia pensar nisso.

É uma resposta consequente: aparentemente, em 1 minuto não é possível fazer muita coisa; provavelmente, não seria sequer suficiente para pensar na situação.

E essa é a questão: não há forma de se saber se vale ou não a pena pensar.