quinta-feira, dezembro 30, 2004

O mundo está em choque e os meios de comunicação social esfregam as mãos. Como diz o coveiro: ?Eu não quero que ninguém morra. Quero é que a vida corra.?
É a vida.

Recebi agorinha mesmo um email com umas declarações de uma tal Dulce Ferreira à SIC Notícias. Já agora, o assunto da mensagem é o seguinte: ?Dulce Ferreira ? A estúpida do ano!? e reza assim:

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A estupidez de alguns ao máximo!

Na SIC Notícias deu uma reportagem onde entrevistaram portugueses que partiram depois da tragédia para a Tailândia, mantendo as férias marcadas como antes de tudo acontecer. Dulce Ferreira respondeu que já tinha as férias marcadas, que não tinha ficado nada preocupada com o que tinha acontecido, porque os pais, que lá estavam, tinham enviado uma msg a dizer que tinha havido "uns tsunamis e umas coisas", mas estavam bem.

Quando a jornalista lhe pergunta se estava triste com toda a situação Dulce Ferreira respondeu "sim, claro, agora já não vou ter todas as condições de férias que iria ter se por acaso não tivesse acontecido nada disto. por outro lado, estou contente, porque vejo as coisas mais ao natural, como elas são."
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Sobre os critérios jornalísticos da SIC Notícias e da generalidade dos órgãos dessa tal comunicação que se diz social, nem me atrevo a piar.

Centro-me apenas nas declarações da senhora. Não no que possam ter de qualificador da estatura moral de quem as proferiu, tão pouco no que têm, ou a alguém pareceram ter, de quantificador da estupidez que algumas pessoas possuem.

Centro-me nas tais declarações para concluir apenas que a dona Dulce Ferreira decidiu não alterar o que tinha planeado fazer.

E depois de concluir isto, perguntar: E eu, e tu? Decidimos alterar algo do que tinhamos planeado fazer?

Decidimos fazer alguma coisa?

Pois. É a vida, não é?

quinta-feira, agosto 26, 2004

Acredito que todas as coisas tenham um nome, uma palavra que vale pela coisa e que no discurso a substitui com propriedade.

Ontem à noite ocorreu-me a ideia de que todas as coisas terão (como os gatos do T. S. Eliot) um outro nome. Um nome especial, invisível à maior parte de nós, mas claramente visível aos olhos de uns poucos felizardos. Talvez aos de alguns poetas, por exemplo.

Este outro nome deve ser capaz de representar a coisa, tal como o primeiro, mas de forma mais completa: indirecta, longa. De um modo tal que para chegarmos à coisa, nos seja obrigatório ?ver? algo mais do que a memória fotográfica dela que o nosso cérebro astutamente armazena mesmo por cima da legenda com o seu nome.

Explico.

Foi durante o jantar de ontem, dia 25 de Agosto.

Não sei precisar sobre do que se falava. Sei apenas que de repente, a Inês, que tem 5 anos e entra na escola primária este ano, se lembrou de uma visita de estudo que a sua turma fez ao, palavras dela:

- Jardim zoológico dos carros antigos.

Perante o nosso (pais) momentâneo espanto ela tenta explicar:

- Hum! Não. É o ... o ... importes ou qualquer coisa assim.

A mãe decifrou (as mães decifram):

- O Museu dos Transportes??

- Isso mesmo. - confirmou a Inês.

A Inês apenas se enganou (não tenho, quase, dúvidas) mas, assim ou não, o facto de na sua cabeça se ter formado aquela maneira de nomear um MUSEU DE TRANSPORTES deu-me que pensar.

Antes de mais porque ela conseguiu memorizar, não o nome correcto da coisa, mas a própria coisa em si, a ideia que fez da coisa.

E qual terá sido essa ideia?

CARROS ANTIGOS percebe-se que quase equivale a MUSEU DOS TRANSPORTES.

Mas JARDIM ZOOLÓGICO....

Ter-lhe-á parecido o Jardim Zoológico (o outro - o normal) uma espécie de museu de animais?

Ter-lhe-á parecido um sítio onde se guardam seres que não estando mortos muitas vezes como tal são tratados?

"Raisparta" a moça. Querem ver que vai ser mesmo poeta?