quarta-feira, janeiro 24, 2007

Da amizade

Os “voos da CIA” ainda são notícia.

Desde sempre me pareceu razoável e até plausível que tal coisa tenha de facto acontecido. Afinal, os EUA são um estado amigo de Portugal e não me espanta que tais cumplicidades se estabeleçam entre “amigos”.

A insistência na questão advém de lutas políticas caseiras (especialmente de tipo fratricida) mais do que outra coisa qualquer; a “ilegalidade” é apenas máscara. Atrocidades muito mais graves são diáriamente cometidas contra inocentes (não alegadamente inocentes) e ninguém lhes passa cartão. Adiante.

Ora, se é plausízel que aquelas cumplicidades acontecem, a minha dúvida é a seguinte e de fácil resposta: Quem é mais amigo de Portugal: eu ou os EUA?

Correrei riscos ao, por exemplo, criticar abertamente o Senhor Bush? Estarei a salvo daquele tipo de amizade entre estados? Poderei contar com Portugal?

Não adianta ter medo se só posso contar comigo e com os meus, que como eu são menos amigos de Portugal do que os EUA.

terça-feira, janeiro 23, 2007


Conjectura número tal

A verdade é que, de tudo o que não tem utilidade, talvez apenas de ti me seja difícil prescindir; ainda que saiba perfeitamente que te bastas, ou assim me parece e desejo.

E esse facto preocupa-me; digo, ter contacto apenas com o que utilitário, me permite viver com conforto.
Se a felicidade existe é coisa de grande inutilidade e desconforto; já uma conjectura ainda terá algum uso

... e explicação.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Sim, porque não, ou ... não, porque sim.

No canhoto já o haviam dito, eu concordo e verifica-se: a campanha do SIM é uma lástima.

Veja-se este cartaz.



Mas, mas: sim?!?!?
Ahh! Não.
Isto é: NÃO à abstenção para manter o aborto clandestino ... e para isso deve votar-se SIM.
... clarinho como água.
Ou ainda mais claro:
Não se abster é ir votar, certo?? Independentemente do "lado". Ou não?
... pffiiiiiiu que assim a coisa tá preta.

Eu cá não percebo puto de marketing e/ou publicidade mas parece-me, no mínimo, hilariante.

Mas a "coisa" tá armada à partida, digo, na própria formulação da pergunta sobre a qual vamos votar; basicamente o que nos vão perguntar é:

"Acha que não é crime interromper a gravidez .....?"
Como é que se deve responder?
Não, acho que não é.
Sim, acho que não é.

Confesso; estou baralhado.


Assertivo (Lat. assertivu), adj. Que encerra acerto; afirmativo.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Multidão 2


Eu, tu, ele, nós, vós, eles

Li há pouco dois argumentos de um defensor do NÃO que ainda não conhecia (os argumentos, que o adepto continuo a não conhecer).

São eles:

“Coloquemo-nos na pele do outro; coloquemo-nos na pele do embrião que já sente e tentemos imaginar o que será sermos cortados em pedaços a sangue frio ou envenenados. E não é um embrião qualquer, é o nosso futuro filho.”

“Acho que se trata verdadeiramente de um crime horrendo (matar o próprio projecto de filho!)e não compreendo como é possivel que se faça.”


Ora não “compreende como é possível que se faça” mas, ao usar isso como argumento, mostra que crê que compreende tudo o que há para compreender.

Aqui está o cerne de uma questão infelizmente presente neste como em todos os referendos e eleições: o EU quando o que faz falta é pensar o NÓS, principalmente no que isso tem de não-EU.

Apetece devolver o conselho: “coloquemo-nos na pele do outro”; não do embrião que isso parece ser muito difícil; é bem mais fácil: “coloque-se cada um na pele de um semelhante a si”. E não só neste referendo mas em todos os referendos e eleições que venham a acontecer.

Com o tempo aprenderemos a fazer isso durante o resto do tempo também.

domingo, janeiro 07, 2007


ESPIRAL

quantos como eu
um agente secreto
muito incompetente
- espião ao contrário
de um país
que é
e
nada.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

"Quem muda seus males estuda"

Mudei o aspecto da coisa e os comentários foram-se. Não eram muitos mas eram bons e queridos. Enfim. Eram tantos que, não só mas também por isso, me lembro de cada um deles. Obrigado.
Pelo SIM à despenalização da IVG ou pelo SIM ao aborto, resumindo: pelo SIM, seja lá por que motivo for.

O referendo à despenalização da IVG está a dar que falar e está a custar-me perceber porquê; sinceramente.
  • Não é óbvio que não se pode julgar uma mulher que recorre à IVG?
  • Não é óbvio que um dentista sem habilitações é um criminoso?
  • Não é óbvio que despenalizar pode significar tudo menos combater a clandestinidade?
  • Não é óbvio que o recurso a “clínicas” de vão-de-escada não tem nada a ver com penas, tão pouco com dinheiro?
  • Não é óbvio que despenalizar não significa incentivar?
  • Não é óbvio que os números apresentados por gregos e troianos não têm a mais pequena hipótese de confirmação?
  • Não é óbvio que uma IVG não poderá estar sujeita a lista de espera?
  • Não é óbvio que há problemas de saúde pública de resolução muito mais urgente?
  • Não é óbvio que uma gravidez é evitável e até (já) interrompível?
  • Não é óbvio que o assunto diz respeito à mulher como ao homem?
  • Não é óbvio que as questões de ordem moral (psicológica) se sobrepõe às de ordem física?
  • Não é óbvio o significado da palavra “des-pe-na-li-za-ção”?
  • Não é óbvio que “despenalizar” não significa automaticamente “criar condições para que o sistema de saúde público trate do assunto”?
  • Não é óbvio que (felizmente) a maioria das pessoas (de ambos os lados) que argumenta sobre o assunto não faz a mais pequena ideia do que é passar por isso?
  • Não é óbvio que ser a favor da despenalização (do “sim”, para ser claro) implica ser militantemente contra o aborto?
  • Não é óbvio que ser contra a despenalização (do “não”, para ser outra vez claro) implica ser militantemente contra a ignorância?
  • Não é óbvio que a religião professada tem tanto a ver com o assunto como o concelho de naturalidade?
  • Não é óbvio que a competência de legislar cabe à Assembleia da República?
  • Não é óbvio que ninguém melhor que o governo tem (ou deveria ter) a informação relevante para decidir sobre o assunto?
  • Não é óbvio que isto do referendo é apenas uma questão política, no que de pior tem a dita?
  • Não é óbvio que depois do referendo, qualquer que seja o resultado, tudo o que importa estará ainda por fazer?
  • Não é óbvio que esse tudo, então como agora, cabe à tal Assembleia da República fazê-lo?
  • Não é tão escancaradamente óbvio que isto é um não-problema?

Não, nada disto parece ser óbvio e por isso se vai fazer um referendo.

Por isso, embora correndo o risco de contribuir para um resultado certo por motivos maioritariamente errados, eu vou votar sim e esperar que se acabe de vez com esta discusão idiota de país de idiotas sem mais o que fazer.