terça-feira, agosto 25, 2009

Anibal Beça (1946-2009)


Anibal Beça, nascido a 13 de Setembro de 1946, faleceu hoje, 25 de Agosto de 2009

ANIBAL BEÇA é o nome literário de ANIBAL AUGUSTO FERRO DE MADUREIRA BEÇA NETO, poeta, tradutor, compositor, teatrólogo e jornalista, nasceu em Manaus, na Amazônia brasileira, em 13 de setembro de 1946. Trabalhou como repórter, redator e editor, em todos os jornais de Manaus. Foi diretor de produção da TV Cultura do Amazonas, Conselheiro de Cultura, consultor da Secretaria de Cultura do Amazonas. Vice-presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, presidente da ONG “Gens da Selva”, onde atualmente exerce o cargo de vice-presidente, bem como de presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Amazonas e presidente do Conselho Municipal de Cultura;.é membro da Academia Amazonense de Letras. Neste ano de 2009, completa 43 anos de atividade literária e 45 de atuação na música popular, tendo vencido inúmeros festivais de MPB por todo o Brasil. Em 1994 recebeu o Prêmio Nacional Nestlé, em sua sexta versão, com o livro "Suíte para os Habitantes da Noite", concorrendo com 7.038 livros de todo o Brasil. Ao lado de seus afazeres literários e musicais, tem se destacado em prol da causa da integração cultural latino-americana, seja traduzindo escritores de países vizinhos, ou participando e organizando festivais e encontros de poesia. Representou o Brasil no IX Festival Internacional de Poesia de Medellín, no III Encontro Ulrika de escritores em Bogotá e no VI Encuentro Internacional de Escritores de Monterrey. Sua produção poética tem sido contemplada em importantes revistas: “Poesia Sempre” (Brasil), “Casa de las Américas” (Cuba), “Prometeo” (Colômbia), “Ulrika” (Colômbia), “Revista Armas & Letras” da Universidade de Nuevo León ( México), “Tinta Seca”( México), “Lectura” (Argentina), “Frogpond Haiku”( Estados Unidos), “Amazonian Literary Review” (Estados Unidos), “Mississippi review” (Estados Unidos).


LIVROS PUBLICADOS: Convite Frugal, Edições Governo do Amazonas (1966), Filhos da Várzea, Editora Madrugada (1984), Hora Nua, Editora Madrugada (1984), Noite Desmedida, Editora Madrugada (1987), Mínima Fratura, Editora Madrugada (1987), Quem foi ao vento, perdeu o assento, Edições Muraquitã (teatro, 1988), Marupiara – Antologia de novos poetas do Amazonas, Edições Governo do Amazonas (organizador, 1989), Suíte para os habitantes da noite, Paz e Terra (1995), Ter/na Colheita, Sette Letras (1999), Banda da Asa – poemas reunidos, Sette Letras, (1999), Ter/na Colheita, Editora Valer (2006, segunda edição), Noite Desmedida, Editora Valer (2006, segunda edição), e Folhas da Selva, Editora Valer (2006). Chá das quatro, Editora Valer (2006) Águas de Belém, Editora Muhraida(2006); Águas de Manaus, Editora Muhraida( 2006). PALAVRA PARELHA reunindo os livros Cinza dos Minutos, Chuva de Fogo, Lâmina aguda, Cantata de cabeceira e Palavra parelha, Edições Galo Branco, Rio, 2008.


CD – MÚSICA: ANIBAL BEÇA – O Poeta solta a voz (2001) e DUAS ÁGUAS – 2006

quarta-feira, agosto 12, 2009

25 - Massarelos

Está uma chuvinha tão miúda que não cai; rodopia ao sabor de um vento ainda inútil, incapaz de incomodar uma folha por mais minúscula ou desacertar nem que seja um pouco mais o já desacertado voo de uma borboleta se as houvesse por aqui.

Um velho ao meu lado tosse com um esforço arrastado e escarra sem parar num lenço que nem me atrevo a olhar; o motorista enfadado tem ambas as mãos cerradas a apoiar o queixo, cotovelos nas coxas.

- Nem imagina o que vão fazer no terreno da antiga fábrica da sardinha!

O Canário no livro à minha espera e o motorista a fingir

- Pois é; a Bininha já falou nisso.

- Já viu?? Então ...

O Canário a desistir e deixar-me ouvir

... como é que se autoriza uma coisa assim? Doze andares? Doze?!? Diz que lá para o Natal do ano que vem estará pronto, cheio de gente nova, e velha, gente com dinheiro pois claro. E os que cá estavam cá estarão caladinhos como ratos, que são piores que ratos, cá mais p'ra trás a ver o rio por um canudo. Vota a gente p'ra isto. Aposto que estão dois ou três ou mais dos bem gordos a mangar com nós todos e a comer lagostas na Foz; é limpinho.

- Esse ricaço do Rodrigues bem me cheirava a queimado. Lembra-se quando o cabrão fechou a fábrica? Que em Marrocos não sei quê, que os espanhóis não sei o que mais, que estava mau, que a CEE não sei que mentiras. E o meu Zé e mais 150 a ver navios. O filho da puta gordo como um chibo estava era a fazer render ainda mais o peixe, digamos, o terreno, e nós agora nem navios nem rabelos nem o caralho.

- E a partir do meio-dia já vai ser quase noite.

O motorista a fazer horas

- Diz que o cheiro da fábrica era muito mau.

- O cheiro, o cheiro. A gente aqui nasceu com ele, era coisa nossa; pergunte a quem quiser. O raio da pouca sorte é que os nossos problemas aparecem-nos aqui vindos na cabeça de outras pessoas de lá dos sítios deles. Ninguém me venha dizer que os doze andares ou lá quantos são são para o nosso bem; os andares, mais os portões sempre fechados que só se entra com um aparelho tipo das televisões, uma arrecadação só para pôr o lixo maior que o buraco onde eu vivo há 50 anos, já viu;

- Um palacete!!

- Só para pôr o lixo fechado longe de onde passa gente para não lhes incomodar os narizes muito finos.

- O cheiro, o cheiro, o caralho.

O Canário adormeceu e o velho não tossiu mais; se calhar morreu.

Nestes primeiros dias de humidade esta gente vê-se e deseja-se para fazer a vida do costume. As velhas que mal se podem há que tempos, com as saquitas da mercearia, da farmácia, têm de arranjar maneira de lidar com mais o guarda-chuva que realmente não serve para nada com esta chuva quem nem é nem deixa de ser; os degraus do autocarro que são feitos para atletas e, claro, primeiro que consigam subir é o diabo, fechado já o guarda-chuva, as sacas a atrapalhar, o bilhete para mostrar, o porta moedas quando não o têm comprado antes, na paragem, as moedas a tilintar pelo chão fora quando se atrapalham nos trocos e o motorista, infinito, como se resolvesse alguma coisa

- Deixe estar. Paga amanhã.

a apreciar o desembrulho daquela tralha toda e elas um suspiro de chegar ao céu, árvore casa rua casa casa depois, ao se verem sentadas, coração a tamborilar no pescoço

- Ai meu Deus

a contar e recontar o dinheiro apanhado do chão, que falta sempre uma moedita; que seja das pretas.

Um feliz encontro de improbabilidades: semáforos, ligeiro atraso no arranque de um carro qualquer, um táxi a deixar sair uma mulher, um outro a esperar por alguém a entrar; uma conjugação de pequenas merdas, uma borboleta a voar como se por cinco segundos fosse pássaro, faz com que o autocarro avance um pouco mais que o motorista, embora todos já sentados, mas já tão calhado naquilo

- Segurem-se.

O velho afinal não morreu

- Já viu Miquinhas? Doze andares; um prédio. Já viu?? Um prédio.

a olhar para trás e nenhuma resposta.

- Aqui é que faziam um; está pr'aqui isto a criar bicheza e mato. Mas o que eles queriam era acabar com o cheiro. Tratantões.

O trânsito em sentido contrário a abrandar de repente, o nosso motorista a encostar o mais possível à berma, a sirene atrás de nós a esbracejar, a abrir caminho, e o velho ao meu lado como se não estivesse também a caminho

- Ui. Pela pressa é mais um que já nem pia.

Muito certo a sacar de novo o lenço do bolso

- Já foste!

A Miquinhas a lembrar-se do seu Jerónimo, que descanse em paz

- Valha-nos Deus.

- Ai p'ra mim este já vai direitinho; não vê a pressa?!?

A sirene a aumentar, a ficar mais perto, mais perto, a começar a ultrapassar-nos mas a parar mesmo ali ao nosso lado, em contra-mão, sem poder avançar mais.

- Olha-me aquele grande camelo que não se arruma. Filho da puta ainda um dia há-de estar dentro de uma a morrer de falta de ar ou dor no peito e a sentir o hospital a parar de se mexer e a não ficar mais perto; pode ser que se aflija mais e se vá ainda mais depressa.

- Boa viagem.

- Andamento.

- Não diga isso.

O Canário a acordar no livro e a chamar-me: "aproxima-te, não tenhas medo, olha as grades"; a sirene a avançar finalmente e a desviar de destino para levar o morto, se dependesse do meu companheiro.

David Fernandes

quinta-feira, agosto 06, 2009

Páginas inesquecíveis


Extracto de “O chão que ela pisa” de Salman Rushdie



«A honestidade na vida não é a melhor política. Só, talvez, na arte.


A morte não é a única partida e, no meu novo papel de fotógrafo de partidas, desejava documentar algumas partidas mais quotidianas. No aeroporto, espiando o desgosto das despedidas, eu buscava o único rosto sério no meio da chorosa multidão. À saída dos cinemas estudava os rostos daqueles que saíam dos seus sonhos para a dura realidade, com os olhos ainda cheios de ilusões. Procurei encontrar histórias e mistérios nas idas e vindas nos átrios dos grandes hotéis. A partir de certa altura deixei de perceber porque é que fazia tais coisas e foi a partir daí, creio eu, que as fotografias começaram a ser melhores, porque deixaram de ser a meu respeito. Tinha aprendido o segredo de me tornar invisível e de desaparecer no meu trabalho.»