quarta-feira, agosto 27, 2003

Está sempre a meio caminho entre o longe e o perto, tão longe do aqui quanto perto do agora, a vida que passa ao largo, à vista, ali: um pouco à mão.

Só um pouco de desequilíbrio seria suficiente; um pouco menos de rigidez seria suficiente.

É o medo da queda, ou talvez melhor: o medo do resultado da queda e uma certeza não demonstrada de que uma queda é sempre para baixo. É a gravidade da decisão que somos criados a assimilar.

Sou levado (levo-me) a suspeitar que as grandes coisas foram, apenas, quedas para cima, de quem não se deixou acostumar à gravidade da regra.

domingo, agosto 17, 2003

CONTANDO CORVOS

O bosque que esconde os edifícios da universidade lembra contos de fadas e guerreiros que empunhavam espadas montados em éguas.

Caminhos de terra batida, por pés que ninguém lembra, serpenteiam evitando os plátanos, e rasgam o relvado que cobre toda a área.

Acho que nunca temos tempo suficiente para podermos considerar uma cidade estranha, num país estranho, familiar.

Gente igual que vemos diferente; ruas iguais a tantas diferentes das minhas.

A língua! A língua que nos emprestam mas sabemos ser só deles.

O "eles" que significa tudo o que não é "nós" e jamais será.

Tantas maravilhas difíceis de fotografar e, claro, impossíveis de descrever.

Tanto e tanto que guardamos. Tanto e tanto que esqueceremos.

E eu, perdendo a conta a cada minuto, sigo contando corvos.

sábado, agosto 09, 2003

Sobe o rio uma leve ondulação tocada pela brisa, de feição.
O regresso distraído seria, ainda mais, afastamento – o mundo ao
contrário.

Sob esta ilusão, tão vívida visão do apocalipse, a massa de água
segue o seu curso de sempre: concreta, doce, paciente com os diques,
implacável com o mar.

Bastaria segui-la.

Casa, é para onde nos levam forças invisíveis e só parcialmente
explicáveis.