sexta-feira, novembro 27, 2009

quinta-feira, outubro 01, 2009

Leituras - O Chão que Ela Pisa by Salman Rushdie

O Chão que Ela Pisa O Chão que Ela Pisa by Salman Rushdie


My rating: 5 of 5 stars
Quinhentas e tal páginas de letrinha miúda onde não há uma frase mal medida, uma palavra desnecessária. Muito cansativo, confesso.

Numa breve "Nota biobibliográfica", Eduardo Prado Coelho, organizador da colecção que inclui este livro, diz:

"Entre Oriente e Ocidente, da cosmopolita Bombaim dos anos 50, à vibrante Londres de cultura pop dos anos 60, até à vibrante Nova Iorque dos anos 90, O Chão que ela pisa (...) é um fresco da segunda metade do século XX e, simultaneamente, uma viagem pela permanência do mito nas sociedades contemporâneas".

Exactamente; ressalto a ideia do "mito".

O casal protagonista deste romance "épico" são duas estrelas da maior banda de rock do mundo: Ormus Cama e Vina Apsara.

A criação, a inspiração, o comércio; a distância entre o artista e os seus seguidores; a loucura: tantos mundos.

Inesquecível.

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segunda-feira, setembro 28, 2009

Lá vivemos o nosso "diazinho da democracia"


Lá fomos nós exercer o nosso dever cívico e político, direito humano de alimentar o mito de que contamos para alguma coisa.

No final de um dia de furacão: de gente e de papelada, chegam os resultados e as declarações generalizadas de vitória.

O PS, o único partido a perder representação (só perde 20% dos votantes e deputados que teve em 2005 - um dos dedos de uma mão) é o grande vencedor do dia: "Uma vitória extraordinária", considera o seu líder.

É só o princípio de mais 4 anos de pantomima.

sábado, setembro 19, 2009

E depois, tu


Por uma força qualquer no arco das ramadas,
aprendi a iludir a insónia
com voltas muito certas de massa folhada ou bilros
e a não deixar a fruta sucumbir.

Por uma força qualquer no rigor da sombra,
habituei-me ao desenho das rotundas
e ao papel do vento nos relógios.

Aceitei por fim uma certa forma de medir o sal,
de pesar o medo, de não desconfiar do silêncio das portas
ou da firmeza dos cabides.

Havia uma regra, uma força qualquer no arco das ramadas
e no rigor da sombra.

E depois, tu.

David Fernandes

sexta-feira, setembro 18, 2009

Os livros da "Temas Originais" no Porto

No Porto, livrarias onde se poderão encontrar os livros desta editora


Almedina Arrábida Shopping
Praceta Henrique Moreira, 244 - Afurada
4400-475 V.N. Gaia

Fnac Santa Catarina
Edifício Palladium
Rua Santa Catarina, 73
4000-449 Porto

Index Livraria
Rua D. Manuel II, 320 r/c
4050-344 Porto
Telef.: 226 094 805

Livraria Nunes
Avenida da Boavista, 887
4100-128 Porto
Telef.: 226 002 469

UNICEPE
Praça de Carlos Alberto, 128 - A
4050-159 Porto
Telef.: 222 056 660

* mais informação aqui

Convite - Henrique Pedro


O autor, Henrique Pedro, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Angústia, Razão e Nada” a ter lugar no Ateneu Comercial do Porto, sito na Rua Passos Manuel, 44, Porto, no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16:00.


Obra e autor serão apresentados pelo poeta Xavier Zarco. Saiba mais em: http://www.temas-originais.pt/

terça-feira, setembro 08, 2009

Convite

É já na próxima sexta-feira, dia 11 de Setembro, pelas 22:00 na Tertúlia Castelense.

terça-feira, agosto 25, 2009

Anibal Beça (1946-2009)


Anibal Beça, nascido a 13 de Setembro de 1946, faleceu hoje, 25 de Agosto de 2009

ANIBAL BEÇA é o nome literário de ANIBAL AUGUSTO FERRO DE MADUREIRA BEÇA NETO, poeta, tradutor, compositor, teatrólogo e jornalista, nasceu em Manaus, na Amazônia brasileira, em 13 de setembro de 1946. Trabalhou como repórter, redator e editor, em todos os jornais de Manaus. Foi diretor de produção da TV Cultura do Amazonas, Conselheiro de Cultura, consultor da Secretaria de Cultura do Amazonas. Vice-presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, presidente da ONG “Gens da Selva”, onde atualmente exerce o cargo de vice-presidente, bem como de presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Amazonas e presidente do Conselho Municipal de Cultura;.é membro da Academia Amazonense de Letras. Neste ano de 2009, completa 43 anos de atividade literária e 45 de atuação na música popular, tendo vencido inúmeros festivais de MPB por todo o Brasil. Em 1994 recebeu o Prêmio Nacional Nestlé, em sua sexta versão, com o livro "Suíte para os Habitantes da Noite", concorrendo com 7.038 livros de todo o Brasil. Ao lado de seus afazeres literários e musicais, tem se destacado em prol da causa da integração cultural latino-americana, seja traduzindo escritores de países vizinhos, ou participando e organizando festivais e encontros de poesia. Representou o Brasil no IX Festival Internacional de Poesia de Medellín, no III Encontro Ulrika de escritores em Bogotá e no VI Encuentro Internacional de Escritores de Monterrey. Sua produção poética tem sido contemplada em importantes revistas: “Poesia Sempre” (Brasil), “Casa de las Américas” (Cuba), “Prometeo” (Colômbia), “Ulrika” (Colômbia), “Revista Armas & Letras” da Universidade de Nuevo León ( México), “Tinta Seca”( México), “Lectura” (Argentina), “Frogpond Haiku”( Estados Unidos), “Amazonian Literary Review” (Estados Unidos), “Mississippi review” (Estados Unidos).


LIVROS PUBLICADOS: Convite Frugal, Edições Governo do Amazonas (1966), Filhos da Várzea, Editora Madrugada (1984), Hora Nua, Editora Madrugada (1984), Noite Desmedida, Editora Madrugada (1987), Mínima Fratura, Editora Madrugada (1987), Quem foi ao vento, perdeu o assento, Edições Muraquitã (teatro, 1988), Marupiara – Antologia de novos poetas do Amazonas, Edições Governo do Amazonas (organizador, 1989), Suíte para os habitantes da noite, Paz e Terra (1995), Ter/na Colheita, Sette Letras (1999), Banda da Asa – poemas reunidos, Sette Letras, (1999), Ter/na Colheita, Editora Valer (2006, segunda edição), Noite Desmedida, Editora Valer (2006, segunda edição), e Folhas da Selva, Editora Valer (2006). Chá das quatro, Editora Valer (2006) Águas de Belém, Editora Muhraida(2006); Águas de Manaus, Editora Muhraida( 2006). PALAVRA PARELHA reunindo os livros Cinza dos Minutos, Chuva de Fogo, Lâmina aguda, Cantata de cabeceira e Palavra parelha, Edições Galo Branco, Rio, 2008.


CD – MÚSICA: ANIBAL BEÇA – O Poeta solta a voz (2001) e DUAS ÁGUAS – 2006

quarta-feira, agosto 12, 2009

25 - Massarelos

Está uma chuvinha tão miúda que não cai; rodopia ao sabor de um vento ainda inútil, incapaz de incomodar uma folha por mais minúscula ou desacertar nem que seja um pouco mais o já desacertado voo de uma borboleta se as houvesse por aqui.

Um velho ao meu lado tosse com um esforço arrastado e escarra sem parar num lenço que nem me atrevo a olhar; o motorista enfadado tem ambas as mãos cerradas a apoiar o queixo, cotovelos nas coxas.

- Nem imagina o que vão fazer no terreno da antiga fábrica da sardinha!

O Canário no livro à minha espera e o motorista a fingir

- Pois é; a Bininha já falou nisso.

- Já viu?? Então ...

O Canário a desistir e deixar-me ouvir

... como é que se autoriza uma coisa assim? Doze andares? Doze?!? Diz que lá para o Natal do ano que vem estará pronto, cheio de gente nova, e velha, gente com dinheiro pois claro. E os que cá estavam cá estarão caladinhos como ratos, que são piores que ratos, cá mais p'ra trás a ver o rio por um canudo. Vota a gente p'ra isto. Aposto que estão dois ou três ou mais dos bem gordos a mangar com nós todos e a comer lagostas na Foz; é limpinho.

- Esse ricaço do Rodrigues bem me cheirava a queimado. Lembra-se quando o cabrão fechou a fábrica? Que em Marrocos não sei quê, que os espanhóis não sei o que mais, que estava mau, que a CEE não sei que mentiras. E o meu Zé e mais 150 a ver navios. O filho da puta gordo como um chibo estava era a fazer render ainda mais o peixe, digamos, o terreno, e nós agora nem navios nem rabelos nem o caralho.

- E a partir do meio-dia já vai ser quase noite.

O motorista a fazer horas

- Diz que o cheiro da fábrica era muito mau.

- O cheiro, o cheiro. A gente aqui nasceu com ele, era coisa nossa; pergunte a quem quiser. O raio da pouca sorte é que os nossos problemas aparecem-nos aqui vindos na cabeça de outras pessoas de lá dos sítios deles. Ninguém me venha dizer que os doze andares ou lá quantos são são para o nosso bem; os andares, mais os portões sempre fechados que só se entra com um aparelho tipo das televisões, uma arrecadação só para pôr o lixo maior que o buraco onde eu vivo há 50 anos, já viu;

- Um palacete!!

- Só para pôr o lixo fechado longe de onde passa gente para não lhes incomodar os narizes muito finos.

- O cheiro, o cheiro, o caralho.

O Canário adormeceu e o velho não tossiu mais; se calhar morreu.

Nestes primeiros dias de humidade esta gente vê-se e deseja-se para fazer a vida do costume. As velhas que mal se podem há que tempos, com as saquitas da mercearia, da farmácia, têm de arranjar maneira de lidar com mais o guarda-chuva que realmente não serve para nada com esta chuva quem nem é nem deixa de ser; os degraus do autocarro que são feitos para atletas e, claro, primeiro que consigam subir é o diabo, fechado já o guarda-chuva, as sacas a atrapalhar, o bilhete para mostrar, o porta moedas quando não o têm comprado antes, na paragem, as moedas a tilintar pelo chão fora quando se atrapalham nos trocos e o motorista, infinito, como se resolvesse alguma coisa

- Deixe estar. Paga amanhã.

a apreciar o desembrulho daquela tralha toda e elas um suspiro de chegar ao céu, árvore casa rua casa casa depois, ao se verem sentadas, coração a tamborilar no pescoço

- Ai meu Deus

a contar e recontar o dinheiro apanhado do chão, que falta sempre uma moedita; que seja das pretas.

Um feliz encontro de improbabilidades: semáforos, ligeiro atraso no arranque de um carro qualquer, um táxi a deixar sair uma mulher, um outro a esperar por alguém a entrar; uma conjugação de pequenas merdas, uma borboleta a voar como se por cinco segundos fosse pássaro, faz com que o autocarro avance um pouco mais que o motorista, embora todos já sentados, mas já tão calhado naquilo

- Segurem-se.

O velho afinal não morreu

- Já viu Miquinhas? Doze andares; um prédio. Já viu?? Um prédio.

a olhar para trás e nenhuma resposta.

- Aqui é que faziam um; está pr'aqui isto a criar bicheza e mato. Mas o que eles queriam era acabar com o cheiro. Tratantões.

O trânsito em sentido contrário a abrandar de repente, o nosso motorista a encostar o mais possível à berma, a sirene atrás de nós a esbracejar, a abrir caminho, e o velho ao meu lado como se não estivesse também a caminho

- Ui. Pela pressa é mais um que já nem pia.

Muito certo a sacar de novo o lenço do bolso

- Já foste!

A Miquinhas a lembrar-se do seu Jerónimo, que descanse em paz

- Valha-nos Deus.

- Ai p'ra mim este já vai direitinho; não vê a pressa?!?

A sirene a aumentar, a ficar mais perto, mais perto, a começar a ultrapassar-nos mas a parar mesmo ali ao nosso lado, em contra-mão, sem poder avançar mais.

- Olha-me aquele grande camelo que não se arruma. Filho da puta ainda um dia há-de estar dentro de uma a morrer de falta de ar ou dor no peito e a sentir o hospital a parar de se mexer e a não ficar mais perto; pode ser que se aflija mais e se vá ainda mais depressa.

- Boa viagem.

- Andamento.

- Não diga isso.

O Canário a acordar no livro e a chamar-me: "aproxima-te, não tenhas medo, olha as grades"; a sirene a avançar finalmente e a desviar de destino para levar o morto, se dependesse do meu companheiro.

David Fernandes

quinta-feira, agosto 06, 2009

Páginas inesquecíveis


Extracto de “O chão que ela pisa” de Salman Rushdie



«A honestidade na vida não é a melhor política. Só, talvez, na arte.


A morte não é a única partida e, no meu novo papel de fotógrafo de partidas, desejava documentar algumas partidas mais quotidianas. No aeroporto, espiando o desgosto das despedidas, eu buscava o único rosto sério no meio da chorosa multidão. À saída dos cinemas estudava os rostos daqueles que saíam dos seus sonhos para a dura realidade, com os olhos ainda cheios de ilusões. Procurei encontrar histórias e mistérios nas idas e vindas nos átrios dos grandes hotéis. A partir de certa altura deixei de perceber porque é que fazia tais coisas e foi a partir daí, creio eu, que as fotografias começaram a ser melhores, porque deixaram de ser a meu respeito. Tinha aprendido o segredo de me tornar invisível e de desaparecer no meu trabalho.»

quarta-feira, julho 08, 2009

Páginas inesquecíveis


Extracto de “Mulher em branco” de Rodrigo Guedes de Carvalho


«A mãe há-de desculpar-me, se é que estas coisas se desculpam, eu não ter estado presente na sua morte.
Mas se quer saber há uma outra coisa pior que quero que me desculpe. Que gostaria que me desculpasse.
Quando a mãe morreu, eu fiquei na mesma.
É certo que não estive presente porque o pai não me chamou, o pai não me avisou, nem a mim nem ao Paulo, como tanto lhe pediu, certamente estará recordada. O pai afinal não nos telefonou coisa nenhuma, como lhe garantia a sussurrar-lhe ao ouvido, para as enfermeiras não escutarem, o pai queria sossego quando visitava o hospital.
Andava já encantado lá com a rapariga, que visitava a tia dela mesmo ao seu lado.
É até estranho pensar que a mãe morreu quase ao mesmo tempo que a tia dela, libertando as duas, sem o saberem, o casal de pombinhos da prisão dos comas, das macas, dos cheiros, das esperas.
E quando a mãe morreu eu fiquei na mesma.
Acho que estava no emprego, ou já nem sei se estava no emprego. Estaria no supermercado às compras, a ver se descobria uns produtos dietéticos de que a Dóris gosta muito. A mãe não chegou nunca a conhecer a Dóris. Morreu sem a conhecer, sem conhecer a Dóris em mim, e quero acreditar que foi melhor para todos.
Não sei se estaria simplesmente no trânsito, a suspirar diante do vermelho que não muda, do nabo da frente que deixa o carro ir abaixo quando finalmente cai o verde. Ou por casa, a arrumar coisas que ando há que tempos para arrumar, a Dóris pressiona-me um pouco, ela tem um bocadinho a mania das limpezas, olhe, nisto até me faz lembrar a mãe. Embora a mãe limpasse o dia inteiro para se esquecer que não tinha mais nada para fazer, para não ouvir nada, para com sorte não ter de dizer nada.
Eu nesse dia estaria por aí, na minha vida por assim dizer. A vida já sem vocês, há tanto tempo sem vocês. A vida que escolhi simplesmente em fuga, o que diria o pai se soubesse da Dóris em mim, já imaginou, que diria o pai. A mãe sei que não diria nada, mas ainda assim foi melhor nunca saber.
Estaria por aí, quando sei finalmente que a mãe morreu. E fiquei na mesma, mãe. Ali, fosse onde fosse, naqueles segundos, na mesmíssima.
Se estava no supermercado, continuei a empurrar o carrinho para a zona dos produtos de higiene. Se estava no trânsito, meti a primeira, virei o volante, chamei um nome qualquer ao palerma que não conseguia arrancar o carro
(atrás dele outros carros, mais insultos, punhos fechados em ameaça, ai dele se volta a deixar cair o vernelho)
se porventura estava em casa, acendi um cigarro, olhei pela janela e debrucei-me outra vez sobre a confusão de papéis que nunca arrumo, contas pagas fora dos dossiês, recortes que já não me lembro porque guardei, dar um jeito às coisas para fazer uma surpresa à Dóris, foi isso que certamente me ocorreu, perante a informação de que a mãe morreu.


Até porque um dia eu avisei-a. Se me fizer essa justiça, lembra-se. Eu avisei-a que a mãe ia morrer, mãe.
Não que a mãe estivesse já doente, a não ser que digamos que padecia de uma solidão sem igual. Ocorre-me que a mãe não sabia mais. Não sabia que se poderia viver de outra forma, não alcançaria que, de alguma maneira, não merecia. E a mãe, apesar de não merecer, apesar de algum dia ter pensado que não merecia, arrastava-se apenas, como uma sombra, solícita e vergada.
E quando a mãe morreu fiquei na mesma.
Nem um grito, nem um ai. Não me pareceu ver o mundo desabar, não me quedei, desorientada, sentada num passeio, com as lágrimas a correrem-me e as pessoas a perguntarem-me se eu me sentia bem. Fiquei na mesma porque sou assim nos alívios. Talvez que descanse, agora. Perguntei-me tanto tempo como iria reagir, antevi cenários. Fiquei na mesma, a mãe que descanse.


Um dia avisei-a. Não era já miúda, não era ainda mulher, vejo hoje que não sabia bem o que era, como continuo sem saber o que sou. A mãe passava a ferro, ou chegava da mercearia, curvada e a arfar, os dedos roxos a equilibrar sacos de plástico, ou punha o avental e abria o frigorífico, a medir os minutos até que ele chegasse, os exactos minutos para ele chegar a casa e a comida não estar nem muito quente nem muito fria.
Ou então a mãe fazia por não me ouvir, protegida do mundo por um aspirador que ruminava as carpetes a soluços de britadeira, limpava o pó mil vezes antes de limpar outras mil, os frasquinhos, os santos de cerâmica, os cinzeiros dele, as cómodas, os candeeiros de pé dourado, a mesa da cozinha, as molduras das fotografias, onde nos assemelhávamos a uma família.
E eu um dia disse-lhe. A mãe vai morrer, mãe.
A mãe tinha arregaçado as mangas para passar a loiça por água antes de a meter na máquina, eu disse-lhe, a mãe fez por não escutar, as mangas para cima descobriam-lhe o corpo até ao antebraço e viam-se bem os pulsos pisados, arranhões que com o anos se iam sobrepondo, riscos de sangue antigo, eu a perceber, nesse tempo em que já não se é miúda nem ainda mulher, quando não se sabe o que somos mas não queremos ficar, a perceber porque é que afinal a mãe nem se despia na praia, porque andava sempre coberta pela casa, porque maldizia o Verão e suspirava pelo Inverno.
Porque antes de lhe dizer
A mãe vai morrer, mãe
ouvia-a por vezes a chorar na varanda se julgava que já estávamos a dormir, acompanhava-lhe em silêncio as insónias, o que cuidava serem insónias e era afinal só a mãe não se querer deitar, não querer adormecer ao lado dele, a mãe a conter soluços a rondar a casa, encostada à banca da cozinha, sozinha no escuro, se julgava já ninguém a poder ouvir. E eu escutava, posso hoje dizer-lhe.
Como escutava o resfolegar dele, o vosso quarto era mesmo ao lado do meu, podia ouvir os bichos da madeira mas nunca ouvia a mãe, a mãe era um silêncio impossível de quebrar, a mãe era um nada absoluto, a cabeceira da cama batia um compasso de segundos na parede, mesmo junto à minha cabeça, a respiração pesada dele, uns grunhidos, uma investida de fera raivosa mas nada mais, nada mais, da mãe nem um suspiro, nem um ai, nada que me garantisse estar de facto debaixo dele, esmagada pelo tronco dele, aprisionada pelas pernas dele. A mãe era um nada absoluto.
Como escutava, imagine, quando ele não resfolegava ou gemia ou se precipitava sobre si, mas lhe falava ao ouvido, cuidando também ele que não percebíamos, quando lhe falava ao ouvido se tinha bebido outra vez, se tinha bebido mais uma vez, se tinha bebido como sempre, murmurava-lhe ao ouvido como quem lhe cospe, rilhava os dentes a dizer-lhe coisas que nunca entendi, palavras soltas, palavras rápidas e fundas, a cuspir-lhe, um língua de bicho mesmo junto à sua cara, uma raiva de vinho, e a mãe nem um ai, nem um grito, um tremor, que às vezes até me parecia ele estar sozinho, às voltas na cama, a estrangular um boneco, uma mãe imaginária, uma mãe que já não existia, o bagaço a dar-lhe tonturas, a tossir os três maços por dia para cima do seu nariz, da sua boca, a apertar-lhe as orelhas, a beliscar-lhe os peitos, a torcer-lhe o braço por baixo dos lençóis, e às vezes, mãe
(quantas vezes, mãe?)
uma estalada, sei hoje que eram estaladas, penso que lhe daria com a mão aberta para não se notar muito quando a mãe nos preparasse o pequeno-almoço, estalos na noite, noite fora, as noites quase todas, os anos todos, toda a sua vida, e a nossa vida, a mão dele puxada atrás, bem acima da cabeça, uma culatra de chicote, a desabar na sua nuca, nos maxilares, nos seus seios, na barriga, a mãe sem um ai, só a tentar virar-se para proteger a cara, marcas roxas uma por cima das outras, nódoas vermelho-vivo, manchas azuladas junto aos mamilos, ou a desenharem de azul as costelas, ou nas omoplatas, todas as noites, os anos todos, riscos de sangue pisado uma e outra e outra vez, o seu corpo um mapa dorido, resignado, silencioso, a arrastar-se a custo, quando ele finalmente adormecesse de cansaço, braços abertos, boca aberta, três maços e mais de um garrafão a subirem as paredes do quarto, o seu corpo silencioso, sangrado, mordido, espezinhado por socos metódicos, a arrastar-se para a banca da cozinha, a chorar abafado, para dentro do pano do pó, a fim de que não a escutássemos.


E não me serviu de nada avisá-la, assim a mãe vai morrer, mãe.
Como não teve qualquer resultado dizer ao meu irmão, assim a mãe vai morrer, Paulo.
Porque ele lá na vida dele, a desvalorizar, a dizer-me que também não era bem assim, a sossegar-me, garantindo que a mãe e o pai lá tinham a sua maneira de se entenderem, ele só com olhos e ouvidos para a namorada, ele a anunciar-me que ia ter um filho e assim já podia casar com ela, ele todo na vida dele, prioridades do coração, que não é afinal tão grande como nos ensinam, não afinal tão grande que lá caibam muitas coisas ao mesmo tempo.


E jurei que não haveria de morrer como a mãe, mãe.
E que nunca nenhum homem me levantaria a mão, nem me espetaria um hálito grosso de cerveja, nem me haveria de invadir, tocar, irromper em mim como um carroceiro sujo desembestado.
E não haveria de ir às compras, fazer almoços, aspirar porcaria, despejar cinzeiros, a fungar lágrimas escondidas.
E não me abriria nunca como as conchas, pela força enferrujada de uma faca romba, a forçar-me a carne desistida. E não quereria ver, alguma vez, o que nunca vi mas adivinhei anos a fio, as noites todas em que pensava que a mãe estaria ainda viva ou já defunta, um boneco de pano nas mãos dele, pernas abertas e rosto para o lado, para a parede branca, um trapo a ferrar os lábios para não lhe ouvirmos nem um ai, não me hão-de romper com nenhum chicote de cavalo cego.
Queria ter ido ainda a tempo de lhe apresentar a Dóris, e algumas outras antes dela. Ia lá a mãe imaginar.
Queria dizer-lhe que nas minhas noites não há animais que me esporeiam, que não me fico em silêncio para não me ouvirem suspirar. Queria ter-lhe dito que me avisei a tempo e não hei-de morrer como a mãe, mãe.
Não fecho os olhos com força de cada vez que me deito, não tenho de esconder um corpo lancinante, adormeço em paz, aquecida, confortada, e os braços são para abraçar, mãe, fique sabendo, as pernas são para enroscar, os peitos para encostar, ao de leve, e pele toda para arrepiar, os lábios para sorrir, os olhos para ver de frente, ver de perto, sem medo, mãe, porque é possível embora seja tarde para si, é possível não morrer as noites todas, sem medo de monstros de caverna, de pêlo grosso que nos fere a alma todas as noites, riscos de sangue novo por cima de riscos de sangue velho, todas as noites de uma vida, todas as noites dentes e saliva e um punho de garras, abertas fechadas abertas, que desaba sobre nós.»

sexta-feira, julho 03, 2009

Leituras - A Consciência e o Romance by David Lodge

My review


rating: 5 of 5 stars


David Lodge debruça-se neste livro sobre a forma como a consciência humana é representada nos romances.

Para isso recorre a obras de alguns escritores: Charles Dickens, E. M. Forster, Evelyn Waugh, Amis Martin e Kingsley Amis, Henry James, John Updike, Philip Roth e Kierkegaard. Acrescenta ainda uma entrevista que concedeu a propósito do seu Romance Pensamentos Secretos.

Lodge deslinda com simplicidade e clareza as várias técnicas que cada um daqueles escritores (e ele próprio) usou para representar a consciência humana.

Sendo um romancista consagrado mas também um crítico literário e um académico respeitado, não deixa pois de ser surpreendente a humildade com que confessa a sua admiração por cada um daqueles autores bem como a abertura com que fala na entrevista sobre a "oficina" onde (como) escreveu o seu Pensamentos Secretos, confessando até um ou outro erro, e desmistificando com toda a honestidade a ideia que normalmente se tem da perfeição de tudo o que um escritor consagrado (como ele é) escreve.

É notável que diga: "Os leitores de romances partem frequentemente do princípio de que o conhecimento de determinado assunto revelado nas suas páginas deve ser a ponta visível de um icebergue de informação submerso, quando na realidade a maior parte das vezes não há icebergue nenhum - a ponta é tudo o que existe".

Na capa do livro pode ler-se o "aviso": Enquanto leitor, prepare-se: a sua percepção de um romance, um escritor - e até da própria leitura - nunca mais será a mesma.

Eu acrescentaria que como escritor ou promitente escritor, a sua percepção daquilo que escreve e da forma como irá ou poderá ser lido sofrerá certamente um abalo.


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terça-feira, junho 09, 2009

Leituras

História Universal da Destruição dos Livros História Universal da Destruição dos Livros by Fernando Báez



rating: 5 of 5 stars

Quatrocentas e tal páginas que nos levam constantemente de uma grande estupefacção a uma estupefacção ainda maior.



Desde as tabuinhas sumérias à guerra do Iraque, uma imensa enumeração de catástrofes irremediáveis: ir-re-me-di-á-veis.



12 anos de trabalho, 30 páginas de notas, 40 páginas de referências bibliográficas; um monumento.



Estou abismado com a quantidade de vezes que, ao longo da história, o Homem teve de começar tudo de novo e de como poderia "isto", hoje, ser se não tivesse de se desperdiçar essa quantidade imensa de energia.



E interrogo-me: quantas pessoas se sentirão deprimidas com esta leitura?


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terça-feira, maio 05, 2009

Leituras

O Apocalipse dos Trabalhadores O Apocalipse dos Trabalhadores by Valter Hugo Mãe


My review


rating: 5 of 5 stars

Outra maravilha de valter hugo mãe.

Outra vez a gente normal que não tem lugar nos livros: o seu falar, o seu sentir, o seu ser tão especial.

Todas as pessoas que saibam o que significa "assurriar" vão adorar este livro. É garantido.

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segunda-feira, abril 13, 2009

Leituras

Órix e Crex - o Último Homem Órix e Crex - o Último Homem by Margaret Atwood


My review


rating: 4 of 5 stars

Que o Homem não é digno de confiança está mais do que visto. Sobre ao que essa falta de competência (aliada a uma inabalável consciência do contrário) pode levar o mundo, Margaret Atwood apresenta neste livro uma hipótese mais do que plausível; aterradoramente mais do que plausível.


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quarta-feira, abril 08, 2009

Leituras

O Arquipélago da Insónia O Arquipélago da Insónia by António Lobo Antunes



My review


rating: 5 of 5 stars

Inesquecível. O melhor (o que será isso!?!?!) livro que li em toda a minha vida.

Espanta-me que não seja capaz de "contar a história" ainda que pequena fosse; um pequeno episódio; uma coisinha qualquer. Nada; acho que não se pode.

É um "cubo" maciço de vida. Não em fatias ou pedaços mais ou menos lineares mas a vida como ela é: milhares de palavras enredadas, simultâneas; frases paralelas, entrecruzadas (literalmente - chega a colocar frases, parágrafos, no meio de uma palavra, mesmo no meio), ideias que se atropelam constantemente; o que as nossas cabeças são por dentro.

Diz-se que cada cabeça é um universo; Lobo Antunes mostra como.

Não queria nada terminá-lo. Estou meio abalelado ainda.

Nota: começar pela 3ª parte (a última) pode facilitar a leitura. Não me responsabilizo por eventuais "perdas" ou desilusões; é favor usar esta nota com cuidado.


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Leituras

O Labirinto das Azeitonas O Labirinto das Azeitonas de Eduardo Mendoza

My review

Delirante.


A personagem principal é uma espécie de Dom Quixote do nosso tempo: o discurso artificialmente (e despropositadamente) palavroso, as alucinações.

A trama é de alguma forma vulgar: alguém incumbido de uma tarefa que não pára de meter os pés pelas mãos.

Um livro divertidíssimo que arranca gargalhadas inusitadas, posso garantir. Cuidado onde se lê: num transporte público ou à espera da consulta no dentista, pode ser mesmo embaraçante.

Embora o elevado grau de delírio e até inverosimilhança, não se pense que é um livro "de brincar"; diz coisas muito sérias. A aparência caricatural que o autor imprime às pessoas e às situações, pode levar o leitor a menorizar a obra.

Não é uma obra menor. Mas pode ser lida como tal, sem grande prejuízo: pelo menos, divertimento é garantido.

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sexta-feira, março 27, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Um desejo assíncrono

New Year's Wish
Perry Blake

Streets are full of people
Laughter echoes through the halls
Christmas makes me dizzy
I have many friends to call

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

Sparkles like the diamond
That you've hidden in your room
I look into this night sky
And I wonder, where are you?

And winter's full of memories
That summer leaves behind
A new year's wish, an offering
To give another try

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"Inteiramente dentro"



(é segredo)

procurar como fome
e sempre ser amanhanoitecer

luminárias de tempestade guiam
fátuas
os ventos de fim

toda a cor uma intuição
e matiz nada
ou desperdício

detritos
rumo ao vazio
da expansão do sentir
contracção da espera

novos usos e dicionários

zarpar não ser abandono
ou regresso
e cataclismo
apenas uma teoria cinemática

sabê-lo exactamente
falência iminente

e no entanto surgires
solidão
anjo

e no entanto surgires
gugol "inteiramente dentro"

DAVID AUGUSTO FERNANDES

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Leituras - Manuel Alegre

De Momentos

"(Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa e o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.)"

MANUEL ALEGRE, A Terceira Rosa
Publicações Dom Quixote, 1998

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Johan Adonis - nome de parasita

Johan Adonis tem um blog e é um falsário, um parasita.

Nesse blog, este "senhor" publicou um post no dia 10 de Setembro de 2008 (post esse já retirado) em que nos dava conta de ...

"(...) um dos versos meus que recitei no Folctech 2008 realizado pelo Colégio São José, onde fui agraciado juntos com outras pessoas da nossa terra que contribuem de alguma forma com a cultura e o desenvolvimento do nosso município, com uma placa de reconhecimento cultural."

Esses "versos" intitulados "Agasalho de poeta" são afinal um poema de Nathan de Castro intitulado "Soneto com nó" e foi editado em 2005 no livro “1001 NOITES DE SONETOS E RABISCOS” e publicado no seu blog pessoal em 5 de junho de 2006.

O que leva alguém a expôr-se ao ridículo de uma situação destas, é coisa que me escapa completamente.

O referido “parasita” de seu nome Johan Adonis retirou o post onde publicava o poema (o que, só por si, é uma assunção de qualquer coisa) mas o google ajuda-nos.

O lamentável post continua no cache do google e pode ser visto aqui. Não dá trabalho nenhum a procurar as semelhanças: é um cópia integral.

Tal como às carraças, não se pode dar tréguas a estes parasitas.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ai!

Katarina Vavrová - Naked King"Não existe obsessão maior do que a do «universal» na verborreia dos incapazes. Toda essa verborreia é, no entanto, duma consagrada sonoridade.

Ninguém discute a razão do epíteto sublime, ninguém ousa gritar que o rei vai nu.

Ninguém - numa casa de fado - discute a lágrima nem a saudade. E tanto o fado como a crítica «humanista» são, todavia, a expressão acabada da violência, a apologia descarada do massacre.

Com a agravante de massacrarem sem remissão os direitos fundamentais da inteligência."

JOSÉ MARTINS GARCIA, Linguagem e criação, 1973
Assírio & Alvim

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Leituras IV


Uma maravilha.

O simples facto de uma mente brilhante, de alguma maneira, assumir a sua inabilidade para tratar convenientemente determinados assuntos é, no mínimo, desafiante para quem lê.

Percebe-se a imensidão que é a "cabeça" deste homem. Sendo um livro constituido por 7 "pequenos" ensaios sobre outros tantos temas, o desfile de interrogações é maciço e sufocante.

Os temas são tão diversos quanto surpreendentes: a experiência do sexo em línguas diferentes, as reivindicações do sionismo, um amor mais intenso pelos animais do que pelos seres humanos, o privilégio dispendioso do exílio, a teologia do vazio, o ensino, a China e Joseph Needham.

É um livro que, mais do que solucionar, interroga. Natural num professor. É o que na minha opinião deve fazer um professor: interrogar e, com a mesma força, motivar a procura autónoma de respostas.

George Steiner fá-lo de forma magistral. É um livro que eu recomendaria a toda a gente; quem sabe fazê-lo leitura obrigatória nas escolas?!?!

sexta-feira, janeiro 09, 2009

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo

Tive a felicidade de ouvir "este" poema, por voz própria, numa sessão de poesia memorável no Café Progresso.

Já não sei quando foi, já não o encontro - o momento (e agora lembrei-me do filme "A casa da Lagoa" porque ou se sabe exactamente o momento ou não se pode lá voltar).

Trouxe-o emmigo (já suspeitava da impossibilidade de regresso) e consegui até obter uma cópia devidamente autorizada do dito que, por elementar justiça, há muito tempo queria dar a conhecer.

Por pudor, aquele pudor que nos obriga a esconder o que de nós há de mais íntimo (sim: há poemas que tomamos para nós; sim: há poemas que ficam a ser nós) nunca o fiz; uma injustiça.

Mas eis que hoje, por um mero acaso, o descobri algures por aí já à vista. Alguém colocou a justiça acima do pudor e eu agradeço muito a quem me tirou um peso enorme dos ombros, do peito e da consciência.

Ei-lo ali à vista (e aqui inesquecível).

Obrigado e obrigado

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo