terça-feira, maio 20, 2003

20 de Maio - Primeiro aniversário da Independência de Timor-Leste

Timor-Leste independente completa, hoje, um ano de existência.

Ouvi, na rádio, o presidente Xanana Gusmão chorar.

Parece que o povo timorense está a passar um mau bocado. País jovem, problemas de organização, de segurança, problemas económicos, etc.

Os timorenses começam a dizer que se vivia melhor no “outro tempo” e o presidente Xanana chora de, digo eu, quase desilusão.

Lembro-me, agora, das imagens dos saques ao Museu de Bagdad, já para não falar nos outros. Sabe-se que no “outro tempo” tais acontecimentos eram impensáveis.

Ouço dos meus pais, gente simples, palavras de saudade dos tempos pré 25 de Abril de 74 ao testemunharem tantas e tantas injustiças e iniquidades da democracia que agora temos.

(Dois menores que há um mês alvejaram, a tiro, uma menina que brincava no recreio da sua escola e foram capturados para logo serem entregues aos pais, voltaram a fazer asneiras. Apoderaram-se da chave da casa da namorada de um deles e toca de a assaltar. Foram capturados para logo serem entregues aos pais. São menores e pelos vistos não podem ser presos. A “justiça” entrega-os aos pais porque supõe que os pais servem para educar os filhos – a “justiça” não vive neste mundo.)

Sei da imensa esperança que Lula trouxe aos meus amigos do lado de lá do Atlântico. Até que ponto será possível colocar na pratica todos os desejos desse novo cristo? Não se sabe.

Acredita-se apenas.

Caramba! Será que o sonho que põe em prática revoluções não tem nenhuma aderência à realidade? Será apenas ... sonho?

Será que as ditaduras são más, mas só para os poetas?

Neste quase desalento, entrego à minha filha mais nova (a Inês com 4 anos), o seu primeiro caderno. Vai começar a fazer os ‘grafismos’ que iniciarão a sua pequenina mão às intrincadas subtilezas do desenho de letras.

Que feliz que ela está!!

Tomara não queira ser poeta. Para quê lutar? Para quê sofrer?

segunda-feira, maio 19, 2003

30 de Abril

Portugal no mundo!

Inaugura-se hoje, numa remota cidade do Japão, um museu dedicado a um português que, no século XVI, ali arribou e por lá ficou.

O museu, pretendem os promotores, serve para homenagear o homem e dar corpo à estima que não só a cidade mas todo o Japão lhe têm.

Luiz Fróiz, jesuíta.

Não sabia.

Entre muitas coisas, o homem é o autor da única “História” do Japão sobre aqueles tempos.

Admirável.

Das muitas iniciativas a realizar nessa cidadezinha, conta-se uma particular: foi convidada uma fadista portuguesa, com discos editados no Japão (!!!!) a realizar um concerto ao vivo.

Admirável.

Entrevistada na rádio e questionada sobre a razão da admiração japonesa pelo fado, a dita fadista responde: “Ah! Isto começou há muitos anos quando o fado chegou ao Japão pelas mãos da Amália.”

Fiquei a saber também que o dia de ontem se prolonga hoje e nos próximos tempos com um curso de Tango. Convites à participação, entrevistas rápidas a professores e dançarinos convidados.

A palavras tantas, um deles diz: “A postura do tango não é a de quem vai dançar.”

Fé que se consubstancia em obras, fado que sai pelas mãos e tango que não é só dança são tudo manifestações de uma mesma coisa.

E quem a vive será lembrado como alguém admirável e único.
29 de Abril

Hoje é um daqueles dias, cada vez mais frequentes com o crescente efeito do oxigénio no meu corpo (dizem os especialistas em envelhecimento), em que não me levantei da cama de bom grado.

Ao que parece, envelhecemos porque oxidamos.

Lembrei-me das janelas de casa dos meus avós maternos, todas em madeira, e da recusa do meu avô em as envernizar; dizia que cada dia estavam mais bonitas; e estavam. A minha avó dizia: desmazelo. Pontos de vista.

Lembrei-me do banco de jardim que o meu pai havia comprado num leilão de velharias e servia agora quem quisesse descansar no minúsculo pátio lá de casa. Lembrei-me da ferrugem que alastrava sob camadas de esmalte verde que o meu pai ia renovando e da forma enrugada que dava às rosetas, travessões e curvas de que a estrutura metálica do banco era composta. A minha mãe dizia: preguiça. Pontos de vista.

Belas janelas, belo banco.

Não me animei muito com a ideia.

Concluo que a tal oxidação dos seres afecta também a capacidade de apreciar o mundo e as coisas.

Já no automóvel e a caminho do trabalho a rádio; sempre.

Notícia do dia: “Hoje, dia 29 de Abril, é o dia Mundial da Dança e, na Faculdade de Motricidade Humana, múltiplas iniciativas terão lugar para comemorar este dia”.

Dança? Faculdade? Motricidade Humana?

Imaginei uma quantidade de fórmulas, um sem-número de desenhos anatómicos, infindáveis cálculos sobre consumos energéticos, etc, de dois corpos envolvidos numa dança e .....

mortos, já se vê!
24 Abril

Dia Mundial do Livro, Dia Mundial Disto e Dia Mundial Daquilo.

Um “Dia Mundial de ...” é como uma missa, em que se fazem coisas que poderiam fazer-se noutro dia qualquer, mas não: assinala-se o dia específico e, sendo mundial, todo o mundo faz coisas relacionadas com o assunto pretendido.

Tenho pavor a dias mundiais, quase tanto quanto tenho pavor a missas.

É que sou levado a esperar pelo tal dia para fazer algo que poderia já ter feito antes, noutro dia qualquer mais a meu jeito.

Gosto muito mais dos outros dias que, tanto quanto eu saiba, não são dias mundiais de coisa alguma.

Embrenhado nestes pensamentos, ainda aromatizado com o dia de ontem, dou comigo a pensar num senhor, prémio nobel da literatura logo autor de alguns livros, inglês, filósofo e matemático; Bertrand Russell.

Este senhor não devia preocupar-se muito com “Dias Mundiais” e coisas que tais, senão não tinha arranjado, pelos seus próprios meios, uma forma de quase acabar com a matemática; afinal, o seu ganha pão.

Pois foi assim que num belo dia este homem se depara com um paradoxo lógico, (que ficou conhecido como o Paradoxo de Russell), obra mental tal que quase arruinou séculos de pensamento matemático.

É um problema de uma área da matemática denominada: Teoria dos Conjuntos.

Algo do tipo: conjunto dos conjuntos que não são membros deles próprios.

Rio-me, porque penso nisto a propósito de uma ideia maluca de implantar o Dia Mundial dos Dias Que não são Dias Mundiais, afinal, os meus preferidos; e se, o dia que eu viesse a escolher, seria ou não um dia a comemorar na festança que eu, diligente, trataria de organizar.

A resposta é óbvia.

Seria se não fosse.
Deixaria de o ser se o fosse.
23 Abril - Dia Mundial do Livro

Hoje terminei, enquanto almoçava, um livro.

A vida faz da hora do almoço, a minha hora de leitura, enfim.

Procuro escolher, sempre, pratos que não me ocupem ambas as mãos. Hoje: macarrão com bacon e natas.

Livrinho na mão esquerda, com a direita, encho a boca tanto quanto possa para poder numa mastigadela ler uma ou duas páginas.

Almoçando no centro comercial, sentou-se ao meu lado esquerdo uma senhora que, como não trazia leitura, pode escolher comer uma bela de uma dourada grelhada.

Nos fugazes momentos em que os meus olhos passavam do papel para o macarrão e vice-versa, pude apreciar a dona a usar ambas as suas cuidadas mãos no manuseio da sua pobre dourada de olhos arregalados, coitada.

Não invejei: nem a dourada nem a senhora.

Bom! Numa dessas rápidas viagens de olhos pude ver a senhora olhar para os meus lados e voltar a mirar o seu prato com uma expressão, se me é permitido dizer, de nojo.

Imaginei que fosse motivada pelo deplorável espectáculo proporcionado por duas bochechas inchadas numa boca repleta de macarrão com bacon e natas mas não. E digo não, ou pelo menos não só, porque pude confirmar.

Quando acabei a leitura, ainda restava algum macarrão no prato pelo que pousei o livro na mesa mesmo entre nós os dois e reparei que ela fazia a mesma cara de horror sempre que olhava a capa do livro; “O beijo ao leproso”, François Mauriac.

Imaginei, meio divertido, a cara que faria, sabendo que eu enquanto comia macarrão, tinha estado a ler um livro que trouxe da biblioteca, se eu lhe mostrasse a “Advertência ao Leitor” que o livro trás consigo logo na primeira página e que é:

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ADVERTÊNCIA AO LEITOR

No seu próprio interesse, pre-
zado Leitor, verifique se
este livro mantém o lacre branco
que sela algumas das suas pági-
nas; neste caso, abra-o, por favor,
como abriria um livro não gui-
lhotinado, isto é, com uma faca,
até com um simples cartão, e
assim não rasgará as folhas.
Se o livro estiver todo aberto,
rejeite-o, pois é indício de que
já foi lido. Defenda a sua saúde
não manuseando livros usados.
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Tive vontade de lhe dizer que hoje era o Dia Mundial do Livro e tal, mas temi que a dona se saísse com alguma do tipo: “Até podia ser o dia mundial do macarrão!”
7 Abril

“Papá! A professora disse, hoje, que quem tiver a ‘cópia mais perfeitinha’, pode começar a utilizar esferográfica” disse a pequena quando me viu, chegado a casa tarde como sempre, interrompendo a tal cópia, que tudo significava, que tinha como trabalho de casa.

Disse-me isto com um tal brilho no olhar que não pude deixar de me sentir comovido; “como o tempo passa!” pensei.

Sei a razão da alegria da miúda: afinal, dava-se conta de mais um passo a caminho da idade adulta (os adultos escrevem com esferográfica).

Voltei a pensar: “como o tempo passa!”.

A cópia foi das mais perfeitinhas e hoje, a Beatriz, tem cuidados redobrados na utilização da sua nova ferramenta.

Não pode, ainda, dar-se conta do significado profundo do “definitivo” que a esferográfica tem ligado a si, nem pode dar; mas já sabe que os erros feitos a esferográfica não podem apagar-se.

Não posso deixar de admirar a coragem com que a miúda se lança, desde aquele dia, nesta nova tarefa de grande responsabilidade.

Não posso deixar de me espantar com a forma como, por esse mundo fora, tanta gente utiliza esferográfica nos seus afazeres sem se dar conta do quão definitivo é o resultado da sua acção.

E se em muitos casos é impossível “escrever a lápis”, seria de esperar dessa gente, pelo menos, o cuidado que a Beatriz põe nas suas cópias.