segunda-feira, março 14, 2005

Elogio da solidão

Pode demorar muito tempo a descobrir-se aquela parte do corpo - inteiro - que incumbe a distância de zelar pelo amor - na falta de palavra mais exacta -, mas cedo ou tarde - e a oportunidade do momento não depende de coisa alguma - vai dar, de si, notícia de existência.

É de um desses pedaços de ser que fala quem diz: conheço-te tão bem!

quarta-feira, março 09, 2005

COISAS QUE SE DIZEM

Chegar de automóvel a uma cidade estranha é para mim o momento de pânico culminante de, pelo menos, três dias de sofisticados cálculos relacionados com distâncias, conversões numéricas de decimais para sexagesimais e vice-versa, médias horárias e outras variáveis impossíveis de determinar, talvez por isso chamadas de variáveis.

Conduzir um automóvel numa cidade grande e estranha não é das minhas actividades preferidas. Ainda menos porque preciso de ler as placas toponímicas das ruas sem me distrair o suficiente para me deparar com a surpresa de um automóvel parado no meu caminho, tarde demais, demasiado perto.

Em primeiro lugar, é difícil ler os nomes das ruas gravados nas suas placas, à distância a que passo delas. E depois porque, conseguindo ler um deles, tenho que olhar o mapa que sempre me acompanha nestas aventuras de modo a conseguir localizar-me no todo mais geral da grande cidade.

Canso-me sempre muito depressa deste vaivém de olhares e então dou início à busca de um transeunte (acontece sempre isto e nem sei porque ainda transporto mapas).

Nada fácil. É que além de não poder tirar os olhos da estrada por mais de meio segundo, preciso de encontrar alguém com a característica pouco definida de parecer "um local" (um indígena, portanto). Deve ser alguém que conheça a cidade, ou pelo menos aquela parte da cidade, partindo do princípio idiota de que aquela parte da cidade onde me encontro será a mesma parte da cidade que contêm o local para onde pretendo dirigir-me. Ter este raciocínio em relação a uma grande cidade é o mesmo que sentir dores num joelho e achar que o problema se resolve com um xarope expectorante.

Mas enfim, sempre se pode ter a sorte de encontrar um especialista que conheça toda a cidade, ou pelo menos, o meu destino e ao contrário de mim não se encontre perdido, isto é: saiba onde está.

Uma vez identificado o indivíduo, outro problema surge: como chegar até ele? Normalmente, quando tal alma me aparece em linha de vista, o meu automóvel encontra-se na faixa de rodagem do lado oposto, pelo que uma ou outra manobra perigosa vão ser necessárias para chegar até ele. Umas quantas buzinadelas, palavrões e gestos estranhos em forma de pássaro depois, lá estou.

Abro a janela do lado direito e chamo, tendo o cuidado de não parecer muito brusco não vá aquele mapa ambulante assustar-se e ter pensamentos estranhos sobre os meus propósitos. Pergunto-lhe como se vai para tal sítio assim e assado, rezando para que o tipo não diga algo como "não sou daqui" mas também esperando não ter encontrado alguém que queira descrever com exagerado pormenor todo o caminho a percorrer.

- "Alameda da República... hum, deixa cá ver... já sei." - é um momento de felicidade plena.

- "O senhor segue em frente. A rua vai começar a subir ligeiramente, esteja atento a um edifício azul que lhe aparecerá do lado direito, porque depois começará a descer de novo. Cerca de 350 metros depois tem à sua direita a Alameda da República".

- "Muito obrigado e boa tarde."

- "Não por isto, homem!"

- " !!! "

- "Não há como falhar; naquela zona é a única rua arborizada."

- "Arborizada."

- "Sim, plátanos. Os maiores e mais antigos do país, talvez até da Europa."

- " !!! "

- "Não me diga que nunca ouviu falar nos Plátanos da Alameda!!!!"

sábado, março 05, 2005

Está outra vez a recuar!

Irrita-me muito o céu tão claro
neste chão sem sombra de nuvem.


¿Pode a mão tocar a mão
e não ser linha de domínio
esse mais longe que alcança
se só um rio que eu
    - que tu -
conheço faz
    - mas ele antigo
    e grande,
    e muito forte,
    e insciente -
das pontes que não podemos alimentar
pontes?

E se pudéssemos unir as margens a vau,
quantas pontes tem um rio seria cardinal irrisório,
não?

Vê como procuro saídas
deste, apenas parte de, tudo o que não se vislumbra.

Irrita-me muito o céu claro:
que chova muito,
que chova muito,
e que o rio não sofra com este meu desejo espiralado,
minha falta;
ele e com ele quantos vivem na procura da corrente contrária,
vidas inteiras tão felizes com tão só:
- Está outra vez a recuar!

David Fernandes

sexta-feira, março 04, 2005

Está por estes dias a passar na rádio um anúncio comercial da TMN em que o lema é: "você vai querer tudo a dobrar".

Parece que a TMN está a vender DOIS telemóveis pelo preço de UM.

No anúncio uma mulher diz mais ou menos o seguinte:

- Pedro! Pedro!

- Que foi? - responde o Pedro com voz de quem estava, ou ainda está, a dormir.

- Chega pra lá um bocadinho. Estou quase a cair.

- Sempre eu, sempre eu, sempre eu ... - responde o Pedro.

- Oh! Já pedi ao João mas ele está ferrado.

Com o lema do anúncio na cabeça, a gente percebe a boa intenção da ideia.
Só que não bate certo.

Ora se antes de pedir ao Pedro "pra chegar pra lá", a moça já tinha tentado o mesmo com o João quer isto dizer que está no meio dos dois.

Ora estando no meio dos dois como pode estar a cair??

A razão é uma chatice, mas quem não é muito racional dá safanões na vida.