quarta-feira, março 09, 2005

COISAS QUE SE DIZEM

Chegar de automóvel a uma cidade estranha é para mim o momento de pânico culminante de, pelo menos, três dias de sofisticados cálculos relacionados com distâncias, conversões numéricas de decimais para sexagesimais e vice-versa, médias horárias e outras variáveis impossíveis de determinar, talvez por isso chamadas de variáveis.

Conduzir um automóvel numa cidade grande e estranha não é das minhas actividades preferidas. Ainda menos porque preciso de ler as placas toponímicas das ruas sem me distrair o suficiente para me deparar com a surpresa de um automóvel parado no meu caminho, tarde demais, demasiado perto.

Em primeiro lugar, é difícil ler os nomes das ruas gravados nas suas placas, à distância a que passo delas. E depois porque, conseguindo ler um deles, tenho que olhar o mapa que sempre me acompanha nestas aventuras de modo a conseguir localizar-me no todo mais geral da grande cidade.

Canso-me sempre muito depressa deste vaivém de olhares e então dou início à busca de um transeunte (acontece sempre isto e nem sei porque ainda transporto mapas).

Nada fácil. É que além de não poder tirar os olhos da estrada por mais de meio segundo, preciso de encontrar alguém com a característica pouco definida de parecer "um local" (um indígena, portanto). Deve ser alguém que conheça a cidade, ou pelo menos aquela parte da cidade, partindo do princípio idiota de que aquela parte da cidade onde me encontro será a mesma parte da cidade que contêm o local para onde pretendo dirigir-me. Ter este raciocínio em relação a uma grande cidade é o mesmo que sentir dores num joelho e achar que o problema se resolve com um xarope expectorante.

Mas enfim, sempre se pode ter a sorte de encontrar um especialista que conheça toda a cidade, ou pelo menos, o meu destino e ao contrário de mim não se encontre perdido, isto é: saiba onde está.

Uma vez identificado o indivíduo, outro problema surge: como chegar até ele? Normalmente, quando tal alma me aparece em linha de vista, o meu automóvel encontra-se na faixa de rodagem do lado oposto, pelo que uma ou outra manobra perigosa vão ser necessárias para chegar até ele. Umas quantas buzinadelas, palavrões e gestos estranhos em forma de pássaro depois, lá estou.

Abro a janela do lado direito e chamo, tendo o cuidado de não parecer muito brusco não vá aquele mapa ambulante assustar-se e ter pensamentos estranhos sobre os meus propósitos. Pergunto-lhe como se vai para tal sítio assim e assado, rezando para que o tipo não diga algo como "não sou daqui" mas também esperando não ter encontrado alguém que queira descrever com exagerado pormenor todo o caminho a percorrer.

- "Alameda da República... hum, deixa cá ver... já sei." - é um momento de felicidade plena.

- "O senhor segue em frente. A rua vai começar a subir ligeiramente, esteja atento a um edifício azul que lhe aparecerá do lado direito, porque depois começará a descer de novo. Cerca de 350 metros depois tem à sua direita a Alameda da República".

- "Muito obrigado e boa tarde."

- "Não por isto, homem!"

- " !!! "

- "Não há como falhar; naquela zona é a única rua arborizada."

- "Arborizada."

- "Sim, plátanos. Os maiores e mais antigos do país, talvez até da Europa."

- " !!! "

- "Não me diga que nunca ouviu falar nos Plátanos da Alameda!!!!"

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