segunda-feira, maio 26, 2008

Estilhaços

morrer de susto deve ser do coração desistir depois de muito tentar sair; e pode até ser de o conseguir.

a escola tinha começado há pouco tempo e a professora como todos os dias tinha acabado a correcção das nossas redacções.

ia chamar os piores, eu a sonhar e a acreditar que desta vez não era, mas

- joão.

se não fosse o meu pai no dia antes à noite a zanzar pela cozinha, a minha mãe

- despacha-te

eu a despachar-me e a letra a ficar mais torta para o final, talvez não fosse chamada.

lá fomos eu e mais seis ao quadro, ali muito alinhadinhos senão em vez de duas palmatoadas eram quatro.

o carlitos a chorar ainda antes de levar que depois parava, era sempre, e o raio do preto a fazer caretas.

lá passou como um temporal fora de época, o vermelho de uma mão qualquer, a princípio a trepar muito depressa pelo braço acima e depois na cara a demorar como o fumo dos aviões lá muito em cima, cada vez mais largo mas muito devagarinho e depois a desaparecer sem se dar por isso.

eu cuspia na mão a querer fazer o coração parar de bater nela, o avião andar mais depressa, que não andava.

eu cuspia na mão mas nunca dava pelo fim daquilo.

era ao contrário dum susto, dum sonho a acabar, lá acabava por acabar, apenas e ao invés de como daquela vez no telheiro atrás da escola o preto a chegar-se muito para mim, o cabelo dele muito loiro quase branco que fazia impressão, as sardas que parecia doente e os olhos como se nem tivesse

- dá-me um beijo.

não consigo dizer quanto tempo estive a tomar consciência de mim, das paredes, de respirar; não sei se haveria algum avião mas sei que nem medi quanto era suficiente para não deixar que se me escapasse o coração quando ele

- dá-me um beijo

e eu quase logo a correr dali para fora com quanto sangue em arrancos ainda me restava no peito, sem olhar para trás, sem trazer nada, a esquecer o avião se houvesse algum, a só ver um rasto branco a ficar largo tão depressa que se via, e eu sem trazer nada, a correr muito e só aquilo dentro da cabeça

- dá-me

alguém

- despacha-te

e outro alguém a despachar-se.

foram dias e dias, noites a fio a acordar muito devagar mas a nunca mais me apressar se à noite as minhas irmãs já a dormir, o meu pai a zanzar pela cozinha, a pensar na minha mãe e em

- dá-me

e ela, claro

- despacha-te.

nunca mais.

podem dizer-me que perdi algo porque sei que havia mais, mas hoje, décadas mais tarde, o preto ainda mais loiro adivinhou ao ver a minha mesma cara que daquela vez

- nunca mais te esqueceste

a achar que me acalmava, a não saber que não, a sorrir sem ser o riso das caretas que fazia e a recomeçar

- que é feito de ti

que nada de especial mas a mentir

- o normal, casei, tive filhos

a pensar, dei.

não tenho a certeza se perdi muito mas perdi algo, certamente, com o engano muito demorado de só tarde demais ver que

- dá-me um beijo

era afinal uma troca.

FIM

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