sexta-feira, julho 03, 2009

Leituras - A Consciência e o Romance by David Lodge

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rating: 5 of 5 stars


David Lodge debruça-se neste livro sobre a forma como a consciência humana é representada nos romances.

Para isso recorre a obras de alguns escritores: Charles Dickens, E. M. Forster, Evelyn Waugh, Amis Martin e Kingsley Amis, Henry James, John Updike, Philip Roth e Kierkegaard. Acrescenta ainda uma entrevista que concedeu a propósito do seu Romance Pensamentos Secretos.

Lodge deslinda com simplicidade e clareza as várias técnicas que cada um daqueles escritores (e ele próprio) usou para representar a consciência humana.

Sendo um romancista consagrado mas também um crítico literário e um académico respeitado, não deixa pois de ser surpreendente a humildade com que confessa a sua admiração por cada um daqueles autores bem como a abertura com que fala na entrevista sobre a "oficina" onde (como) escreveu o seu Pensamentos Secretos, confessando até um ou outro erro, e desmistificando com toda a honestidade a ideia que normalmente se tem da perfeição de tudo o que um escritor consagrado (como ele é) escreve.

É notável que diga: "Os leitores de romances partem frequentemente do princípio de que o conhecimento de determinado assunto revelado nas suas páginas deve ser a ponta visível de um icebergue de informação submerso, quando na realidade a maior parte das vezes não há icebergue nenhum - a ponta é tudo o que existe".

Na capa do livro pode ler-se o "aviso": Enquanto leitor, prepare-se: a sua percepção de um romance, um escritor - e até da própria leitura - nunca mais será a mesma.

Eu acrescentaria que como escritor ou promitente escritor, a sua percepção daquilo que escreve e da forma como irá ou poderá ser lido sofrerá certamente um abalo.


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terça-feira, junho 09, 2009

Leituras

História Universal da Destruição dos Livros História Universal da Destruição dos Livros by Fernando Báez



rating: 5 of 5 stars

Quatrocentas e tal páginas que nos levam constantemente de uma grande estupefacção a uma estupefacção ainda maior.



Desde as tabuinhas sumérias à guerra do Iraque, uma imensa enumeração de catástrofes irremediáveis: ir-re-me-di-á-veis.



12 anos de trabalho, 30 páginas de notas, 40 páginas de referências bibliográficas; um monumento.



Estou abismado com a quantidade de vezes que, ao longo da história, o Homem teve de começar tudo de novo e de como poderia "isto", hoje, ser se não tivesse de se desperdiçar essa quantidade imensa de energia.



E interrogo-me: quantas pessoas se sentirão deprimidas com esta leitura?


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terça-feira, maio 05, 2009

Leituras

O Apocalipse dos Trabalhadores O Apocalipse dos Trabalhadores by Valter Hugo Mãe


My review


rating: 5 of 5 stars

Outra maravilha de valter hugo mãe.

Outra vez a gente normal que não tem lugar nos livros: o seu falar, o seu sentir, o seu ser tão especial.

Todas as pessoas que saibam o que significa "assurriar" vão adorar este livro. É garantido.

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segunda-feira, abril 13, 2009

Leituras

Órix e Crex - o Último Homem Órix e Crex - o Último Homem by Margaret Atwood


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rating: 4 of 5 stars

Que o Homem não é digno de confiança está mais do que visto. Sobre ao que essa falta de competência (aliada a uma inabalável consciência do contrário) pode levar o mundo, Margaret Atwood apresenta neste livro uma hipótese mais do que plausível; aterradoramente mais do que plausível.


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quarta-feira, abril 08, 2009

Leituras

O Arquipélago da Insónia O Arquipélago da Insónia by António Lobo Antunes



My review


rating: 5 of 5 stars

Inesquecível. O melhor (o que será isso!?!?!) livro que li em toda a minha vida.

Espanta-me que não seja capaz de "contar a história" ainda que pequena fosse; um pequeno episódio; uma coisinha qualquer. Nada; acho que não se pode.

É um "cubo" maciço de vida. Não em fatias ou pedaços mais ou menos lineares mas a vida como ela é: milhares de palavras enredadas, simultâneas; frases paralelas, entrecruzadas (literalmente - chega a colocar frases, parágrafos, no meio de uma palavra, mesmo no meio), ideias que se atropelam constantemente; o que as nossas cabeças são por dentro.

Diz-se que cada cabeça é um universo; Lobo Antunes mostra como.

Não queria nada terminá-lo. Estou meio abalelado ainda.

Nota: começar pela 3ª parte (a última) pode facilitar a leitura. Não me responsabilizo por eventuais "perdas" ou desilusões; é favor usar esta nota com cuidado.


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Leituras

O Labirinto das Azeitonas O Labirinto das Azeitonas de Eduardo Mendoza

My review

Delirante.


A personagem principal é uma espécie de Dom Quixote do nosso tempo: o discurso artificialmente (e despropositadamente) palavroso, as alucinações.

A trama é de alguma forma vulgar: alguém incumbido de uma tarefa que não pára de meter os pés pelas mãos.

Um livro divertidíssimo que arranca gargalhadas inusitadas, posso garantir. Cuidado onde se lê: num transporte público ou à espera da consulta no dentista, pode ser mesmo embaraçante.

Embora o elevado grau de delírio e até inverosimilhança, não se pense que é um livro "de brincar"; diz coisas muito sérias. A aparência caricatural que o autor imprime às pessoas e às situações, pode levar o leitor a menorizar a obra.

Não é uma obra menor. Mas pode ser lida como tal, sem grande prejuízo: pelo menos, divertimento é garantido.

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sexta-feira, março 27, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Um desejo assíncrono

New Year's Wish
Perry Blake

Streets are full of people
Laughter echoes through the halls
Christmas makes me dizzy
I have many friends to call

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

Sparkles like the diamond
That you've hidden in your room
I look into this night sky
And I wonder, where are you?

And winter's full of memories
That summer leaves behind
A new year's wish, an offering
To give another try

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"Inteiramente dentro"



(é segredo)

procurar como fome
e sempre ser amanhanoitecer

luminárias de tempestade guiam
fátuas
os ventos de fim

toda a cor uma intuição
e matiz nada
ou desperdício

detritos
rumo ao vazio
da expansão do sentir
contracção da espera

novos usos e dicionários

zarpar não ser abandono
ou regresso
e cataclismo
apenas uma teoria cinemática

sabê-lo exactamente
falência iminente

e no entanto surgires
solidão
anjo

e no entanto surgires
gugol "inteiramente dentro"

DAVID AUGUSTO FERNANDES

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Leituras - Manuel Alegre

De Momentos

"(Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa e o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.)"

MANUEL ALEGRE, A Terceira Rosa
Publicações Dom Quixote, 1998

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Johan Adonis - nome de parasita

Johan Adonis tem um blog e é um falsário, um parasita.

Nesse blog, este "senhor" publicou um post no dia 10 de Setembro de 2008 (post esse já retirado) em que nos dava conta de ...

"(...) um dos versos meus que recitei no Folctech 2008 realizado pelo Colégio São José, onde fui agraciado juntos com outras pessoas da nossa terra que contribuem de alguma forma com a cultura e o desenvolvimento do nosso município, com uma placa de reconhecimento cultural."

Esses "versos" intitulados "Agasalho de poeta" são afinal um poema de Nathan de Castro intitulado "Soneto com nó" e foi editado em 2005 no livro “1001 NOITES DE SONETOS E RABISCOS” e publicado no seu blog pessoal em 5 de junho de 2006.

O que leva alguém a expôr-se ao ridículo de uma situação destas, é coisa que me escapa completamente.

O referido “parasita” de seu nome Johan Adonis retirou o post onde publicava o poema (o que, só por si, é uma assunção de qualquer coisa) mas o google ajuda-nos.

O lamentável post continua no cache do google e pode ser visto aqui. Não dá trabalho nenhum a procurar as semelhanças: é um cópia integral.

Tal como às carraças, não se pode dar tréguas a estes parasitas.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ai!

Katarina Vavrová - Naked King"Não existe obsessão maior do que a do «universal» na verborreia dos incapazes. Toda essa verborreia é, no entanto, duma consagrada sonoridade.

Ninguém discute a razão do epíteto sublime, ninguém ousa gritar que o rei vai nu.

Ninguém - numa casa de fado - discute a lágrima nem a saudade. E tanto o fado como a crítica «humanista» são, todavia, a expressão acabada da violência, a apologia descarada do massacre.

Com a agravante de massacrarem sem remissão os direitos fundamentais da inteligência."

JOSÉ MARTINS GARCIA, Linguagem e criação, 1973
Assírio & Alvim

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Leituras IV


Uma maravilha.

O simples facto de uma mente brilhante, de alguma maneira, assumir a sua inabilidade para tratar convenientemente determinados assuntos é, no mínimo, desafiante para quem lê.

Percebe-se a imensidão que é a "cabeça" deste homem. Sendo um livro constituido por 7 "pequenos" ensaios sobre outros tantos temas, o desfile de interrogações é maciço e sufocante.

Os temas são tão diversos quanto surpreendentes: a experiência do sexo em línguas diferentes, as reivindicações do sionismo, um amor mais intenso pelos animais do que pelos seres humanos, o privilégio dispendioso do exílio, a teologia do vazio, o ensino, a China e Joseph Needham.

É um livro que, mais do que solucionar, interroga. Natural num professor. É o que na minha opinião deve fazer um professor: interrogar e, com a mesma força, motivar a procura autónoma de respostas.

George Steiner fá-lo de forma magistral. É um livro que eu recomendaria a toda a gente; quem sabe fazê-lo leitura obrigatória nas escolas?!?!

sexta-feira, janeiro 09, 2009

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo

Tive a felicidade de ouvir "este" poema, por voz própria, numa sessão de poesia memorável no Café Progresso.

Já não sei quando foi, já não o encontro - o momento (e agora lembrei-me do filme "A casa da Lagoa" porque ou se sabe exactamente o momento ou não se pode lá voltar).

Trouxe-o emmigo (já suspeitava da impossibilidade de regresso) e consegui até obter uma cópia devidamente autorizada do dito que, por elementar justiça, há muito tempo queria dar a conhecer.

Por pudor, aquele pudor que nos obriga a esconder o que de nós há de mais íntimo (sim: há poemas que tomamos para nós; sim: há poemas que ficam a ser nós) nunca o fiz; uma injustiça.

Mas eis que hoje, por um mero acaso, o descobri algures por aí já à vista. Alguém colocou a justiça acima do pudor e eu agradeço muito a quem me tirou um peso enorme dos ombros, do peito e da consciência.

Ei-lo ali à vista (e aqui inesquecível).

Obrigado e obrigado

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Leituras III


“Alguns dias mais tarde, Banaka fez a sua aparição no café. Completamente bêbado, sentou-se sobre um tamborete do bar, caiu duas vezes, voltou a subir, pediu uma aguardente de cidra e pousou a cabeça no balcão. Tamina percebeu que ele chorava.


«O que é que se passa, sr. Banaka?» perguntou ela.


Banaka ergueu um olhar lacrimejante e mostrou o peito com o dedo: «Não sou nada, está a perceber! Não sou nada! Não existo!»


Depois foi à casa de banho e da casa de banho directamente para a rua, sem pagar.


Tamina contou o incidente a Hugo que à laia de explicação, lhe mostrou uma página de jornal em que estavam várias recensões de livros e uma nota de quatro linhas sarcásticas sobre a produção de Banaka.


O episódio de Banaka, a apontar o peito com o indicador e a chorar por não existir, lembra-me um verso do Divan ocidental-oriental de Goethe: Estaremos vivos quando vivem outros homens? Na pergunta de Goethe dissimula-se todo o mistério da condição do escritor: o homem , pelo facto de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala em universo de Balzac, em universo de Tchekov, em universo de Kafka?) e o que é próprio de um universo é precisamente ser único. A existência de outro universo ameaça-o na sua própria essência.


Dois sapateiros, desde que não tenham os estabelecimentos na mesma rua, podem viver em perfeita harmonia. Mas assim que se põem a escrever um livro sobre o destino dos sapateiros, começam logo a ser mutuamente incómodos, e a colocar-se a questão: Um sapateiro estará vivo quando existem outros sapateiros?


Tamina tem a impressão de que basta um olhar estranho para retirar todo o valor aos seus cadernos íntimos, e Goethe está persuadido de que um só olhar de um só ser humano que não venha pousar-se sobre as linhas da sua obra, põe em causa a própria existência de Goethe. A diferença entre Tamina e Goethe é a diferença entre o homem e o escritor.


Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si próprio e para todos os outros) ou nada. E como nunca ninguém conseguirá ser tudo, todos nós, que escrevemos livros, somos nada. Somos descontentes, invejosos, azedos, e desejamos a morte do outro. Nisso somos todos iguais: Banaka, Bibi, eu e Goethe.


A irresistível proliferação da grafomania entre os homens políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes demonstra-me que qualquer homem, sem excepção, traz em si um escritor virtual, de modo que toda a espécie humana poderia, com razão, descer à rua e gritar: somos todos escritores!


Porque cada um sofre com a ideia de desaparecer num universo indiferente, sem ser ouvido nem visto, e por essa razão quer, enquanto pode, transformar-se no seu próprio universo de palavras.
Quando um dia (muito em breve) todos os homens acordarem escritores, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.”



“O livro do riso e do esquecimento”, Milan Kundera

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Leituras I + 1/2


Servidão Humana é um livro sobre a condição servil do Homem; é um livro sobre escravidão.

O Homem como escravo incondicional: do seu corpo - Philip e o seu pé boto e as dificuldade de ser diferente; escravo do amor, do desejo, da atracção irracional e inexplicável; escravo da tradição e da moral - a promessa de sentido no sentido irracional da vida eterna; escravo do futuro, escravo do presente, escravo do passado.

Escravo da busca da imortalidade pela arte: a pintura, a literatura.

Escravo dessa busca, incessante e jamais satisfeita, do "sentido da vida". Escravo de, apesar de todas as evidências no sentido da incapacidade de o conseguir, querer saber que sentido tem "isto".

Escravo de si próprio, sempre, porque escravo do livre arbítrio: "Que preço se pagava para se ser diferente dos animais!"

Philip personifica tudo isto de uma forma admirável.

600 páginas de muito mais; um conjunto de novelas e contos, válidos em si mesmos (se separados), mas belissimamente imbricados.

Uma enorme riqueza descritiva da Inglaterra, Londres e Paris de finais do séc. XIX e princípio do XX e a perturbação causada pelo grotesco e miserável da vida nesses tempos.

Belo, perturbador.