quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Um desejo assíncrono

New Year's Wish
Perry Blake

Streets are full of people
Laughter echoes through the halls
Christmas makes me dizzy
I have many friends to call

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

Sparkles like the diamond
That you've hidden in your room
I look into this night sky
And I wonder, where are you?

And winter's full of memories
That summer leaves behind
A new year's wish, an offering
To give another try

And pockets full of promises
I tried to keep them all
Calling out for someone
To replace the one that's gone

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"Inteiramente dentro"



(é segredo)

procurar como fome
e sempre ser amanhanoitecer

luminárias de tempestade guiam
fátuas
os ventos de fim

toda a cor uma intuição
e matiz nada
ou desperdício

detritos
rumo ao vazio
da expansão do sentir
contracção da espera

novos usos e dicionários

zarpar não ser abandono
ou regresso
e cataclismo
apenas uma teoria cinemática

sabê-lo exactamente
falência iminente

e no entanto surgires
solidão
anjo

e no entanto surgires
gugol "inteiramente dentro"

DAVID AUGUSTO FERNANDES

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Leituras - Manuel Alegre

De Momentos

"(Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa e o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.)"

MANUEL ALEGRE, A Terceira Rosa
Publicações Dom Quixote, 1998

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Johan Adonis - nome de parasita

Johan Adonis tem um blog e é um falsário, um parasita.

Nesse blog, este "senhor" publicou um post no dia 10 de Setembro de 2008 (post esse já retirado) em que nos dava conta de ...

"(...) um dos versos meus que recitei no Folctech 2008 realizado pelo Colégio São José, onde fui agraciado juntos com outras pessoas da nossa terra que contribuem de alguma forma com a cultura e o desenvolvimento do nosso município, com uma placa de reconhecimento cultural."

Esses "versos" intitulados "Agasalho de poeta" são afinal um poema de Nathan de Castro intitulado "Soneto com nó" e foi editado em 2005 no livro “1001 NOITES DE SONETOS E RABISCOS” e publicado no seu blog pessoal em 5 de junho de 2006.

O que leva alguém a expôr-se ao ridículo de uma situação destas, é coisa que me escapa completamente.

O referido “parasita” de seu nome Johan Adonis retirou o post onde publicava o poema (o que, só por si, é uma assunção de qualquer coisa) mas o google ajuda-nos.

O lamentável post continua no cache do google e pode ser visto aqui. Não dá trabalho nenhum a procurar as semelhanças: é um cópia integral.

Tal como às carraças, não se pode dar tréguas a estes parasitas.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ai!

Katarina Vavrová - Naked King"Não existe obsessão maior do que a do «universal» na verborreia dos incapazes. Toda essa verborreia é, no entanto, duma consagrada sonoridade.

Ninguém discute a razão do epíteto sublime, ninguém ousa gritar que o rei vai nu.

Ninguém - numa casa de fado - discute a lágrima nem a saudade. E tanto o fado como a crítica «humanista» são, todavia, a expressão acabada da violência, a apologia descarada do massacre.

Com a agravante de massacrarem sem remissão os direitos fundamentais da inteligência."

JOSÉ MARTINS GARCIA, Linguagem e criação, 1973
Assírio & Alvim

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Leituras IV


Uma maravilha.

O simples facto de uma mente brilhante, de alguma maneira, assumir a sua inabilidade para tratar convenientemente determinados assuntos é, no mínimo, desafiante para quem lê.

Percebe-se a imensidão que é a "cabeça" deste homem. Sendo um livro constituido por 7 "pequenos" ensaios sobre outros tantos temas, o desfile de interrogações é maciço e sufocante.

Os temas são tão diversos quanto surpreendentes: a experiência do sexo em línguas diferentes, as reivindicações do sionismo, um amor mais intenso pelos animais do que pelos seres humanos, o privilégio dispendioso do exílio, a teologia do vazio, o ensino, a China e Joseph Needham.

É um livro que, mais do que solucionar, interroga. Natural num professor. É o que na minha opinião deve fazer um professor: interrogar e, com a mesma força, motivar a procura autónoma de respostas.

George Steiner fá-lo de forma magistral. É um livro que eu recomendaria a toda a gente; quem sabe fazê-lo leitura obrigatória nas escolas?!?!

sexta-feira, janeiro 09, 2009

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo

Tive a felicidade de ouvir "este" poema, por voz própria, numa sessão de poesia memorável no Café Progresso.

Já não sei quando foi, já não o encontro - o momento (e agora lembrei-me do filme "A casa da Lagoa" porque ou se sabe exactamente o momento ou não se pode lá voltar).

Trouxe-o emmigo (já suspeitava da impossibilidade de regresso) e consegui até obter uma cópia devidamente autorizada do dito que, por elementar justiça, há muito tempo queria dar a conhecer.

Por pudor, aquele pudor que nos obriga a esconder o que de nós há de mais íntimo (sim: há poemas que tomamos para nós; sim: há poemas que ficam a ser nós) nunca o fiz; uma injustiça.

Mas eis que hoje, por um mero acaso, o descobri algures por aí já à vista. Alguém colocou a justiça acima do pudor e eu agradeço muito a quem me tirou um peso enorme dos ombros, do peito e da consciência.

Ei-lo ali à vista (e aqui inesquecível).

Obrigado e obrigado

incomunidade: A este Porto Ígneo e Radioactivo

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Leituras III


“Alguns dias mais tarde, Banaka fez a sua aparição no café. Completamente bêbado, sentou-se sobre um tamborete do bar, caiu duas vezes, voltou a subir, pediu uma aguardente de cidra e pousou a cabeça no balcão. Tamina percebeu que ele chorava.


«O que é que se passa, sr. Banaka?» perguntou ela.


Banaka ergueu um olhar lacrimejante e mostrou o peito com o dedo: «Não sou nada, está a perceber! Não sou nada! Não existo!»


Depois foi à casa de banho e da casa de banho directamente para a rua, sem pagar.


Tamina contou o incidente a Hugo que à laia de explicação, lhe mostrou uma página de jornal em que estavam várias recensões de livros e uma nota de quatro linhas sarcásticas sobre a produção de Banaka.


O episódio de Banaka, a apontar o peito com o indicador e a chorar por não existir, lembra-me um verso do Divan ocidental-oriental de Goethe: Estaremos vivos quando vivem outros homens? Na pergunta de Goethe dissimula-se todo o mistério da condição do escritor: o homem , pelo facto de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala em universo de Balzac, em universo de Tchekov, em universo de Kafka?) e o que é próprio de um universo é precisamente ser único. A existência de outro universo ameaça-o na sua própria essência.


Dois sapateiros, desde que não tenham os estabelecimentos na mesma rua, podem viver em perfeita harmonia. Mas assim que se põem a escrever um livro sobre o destino dos sapateiros, começam logo a ser mutuamente incómodos, e a colocar-se a questão: Um sapateiro estará vivo quando existem outros sapateiros?


Tamina tem a impressão de que basta um olhar estranho para retirar todo o valor aos seus cadernos íntimos, e Goethe está persuadido de que um só olhar de um só ser humano que não venha pousar-se sobre as linhas da sua obra, põe em causa a própria existência de Goethe. A diferença entre Tamina e Goethe é a diferença entre o homem e o escritor.


Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si próprio e para todos os outros) ou nada. E como nunca ninguém conseguirá ser tudo, todos nós, que escrevemos livros, somos nada. Somos descontentes, invejosos, azedos, e desejamos a morte do outro. Nisso somos todos iguais: Banaka, Bibi, eu e Goethe.


A irresistível proliferação da grafomania entre os homens políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes demonstra-me que qualquer homem, sem excepção, traz em si um escritor virtual, de modo que toda a espécie humana poderia, com razão, descer à rua e gritar: somos todos escritores!


Porque cada um sofre com a ideia de desaparecer num universo indiferente, sem ser ouvido nem visto, e por essa razão quer, enquanto pode, transformar-se no seu próprio universo de palavras.
Quando um dia (muito em breve) todos os homens acordarem escritores, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.”



“O livro do riso e do esquecimento”, Milan Kundera

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Leituras I + 1/2


Servidão Humana é um livro sobre a condição servil do Homem; é um livro sobre escravidão.

O Homem como escravo incondicional: do seu corpo - Philip e o seu pé boto e as dificuldade de ser diferente; escravo do amor, do desejo, da atracção irracional e inexplicável; escravo da tradição e da moral - a promessa de sentido no sentido irracional da vida eterna; escravo do futuro, escravo do presente, escravo do passado.

Escravo da busca da imortalidade pela arte: a pintura, a literatura.

Escravo dessa busca, incessante e jamais satisfeita, do "sentido da vida". Escravo de, apesar de todas as evidências no sentido da incapacidade de o conseguir, querer saber que sentido tem "isto".

Escravo de si próprio, sempre, porque escravo do livre arbítrio: "Que preço se pagava para se ser diferente dos animais!"

Philip personifica tudo isto de uma forma admirável.

600 páginas de muito mais; um conjunto de novelas e contos, válidos em si mesmos (se separados), mas belissimamente imbricados.

Uma enorme riqueza descritiva da Inglaterra, Londres e Paris de finais do séc. XIX e princípio do XX e a perturbação causada pelo grotesco e miserável da vida nesses tempos.

Belo, perturbador.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Caramba



Even if I am in love with you
All this to say, what's it to you?
Observe the blood, the rose tattoo
Of the fingerprints on me from you

Other evidence has shown
That you and I are still alone
We skirt around the danger zone
And don't talk about it later

Marlene watches from the wall
Her mocking smile says it all
As she records the rise and fall
Of every soldier passing

But the only soldier now is me
I'm fighting things I cannot see
I think it's called my destiny
That I am changing

Marlene on the wall

I walk to your house in the afternoon
By the butcher's shop with the sawdust strewn
"Don't give away the goods too soon"
Is what she might have told me

And I tried so hard to resist
When you held me in your handsome fist
And reminded me of the night we kissed
And of why I should be leaving

Marlene watches from the wall
Her mocking smile says it all
As she records the rise and fall
Of every man who's been here

But the only one here now is me
I'm fighting things I cannot see
I think it's called my destiny
That I am changing

Marlene on the wall

Suzanne Vega

quarta-feira, novembro 12, 2008

Leituras II


Interrompi a leitura do Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago. Aconteceu-me o que já me tinha acontecido com a leitura do Ensaio sobre a Lucidez: irritação.

A maneira como se retrata o estado, o governo, o sistema de saúde - o poder enfim; a facilidade com que tudo aquilo se revela ser uma, até então insuspeitada, chusma de energúmenos é demais para o meu gosto.

Quanto àquilo em que o Homem é capaz de se tornar perante uma situação dramática e fora do seu controle já Júlio Cortázar em 1966 o tinha dito muito bem, em muito menos páginas e sem tiques políticos no pequeno conto La autopista del sur.

Qualquer dia recomeço se não tiver nada melhor para ler e entretanto vou ver o filme.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Leituras I


“O recém-nascido não concebe que o seu corpo é mais parte de si próprio do que os objectos que o rodeiam, e brinca com os dedos dos pés sem a mínima noção de que lhe pertencem mais do que a sua roca; e é só pouco a pouco, através da dor, que compreende a realidade do corpo. São necessárias experiências idênticas para que o indivíduo se torne consciente de si próprio; contudo há uma diferença: enquanto todos igualmente adquirem consciência do corpo como um organismo completo e separado, nem todos adquirem igualmente a consciência de si próprios como uma personalidade completa e separada. O sentimento de diferenciação dos outros surge para a maioria com a puberdade mas não se desenvolve sempre a um grau tal que torne perceptível ao indivíduo a diferença entre o indivíduo e o seu próximo. São estes, os tão pouco conscientes de si próprios como as abelhas numa colmeia, os afortunados na vida, pois têm os melhores ensejos de felicidade: as suas actividades são partilhadas por todos e os seus prazeres só são prazeres porque fruídos em comum; vêmo-los dançar na segunda-feira de Pentecostes em Hampstead Heath, aplaudir numa partida de futebol ou assistir a um desfile real das janelas de um clube de Pall Mall. Por sua causa tem o homem sido considerado um animal sociável.”


“Servidão Humana”, W. Somerset Maugham

Ed. “Livros do Brasil”, 13ª edição, pág 42

quarta-feira, setembro 10, 2008

A delicada arte de soltar (*)

«Atingir o alvo é algo secundário para os kyudokas, pelo menos inicialmente. Na arte tradicional japonesa de tiro ao arco, o período formativo de um arqueiro é passado a conciliar a técnica, o físico e o espírito. Os entusiastas do "arco e flecha" necessitam, acima de tudo, de duas qualidades: perseverança e paciência.»

«Com o seu dedo indicador, Akira Sato desenha uma linha no tampo da mesa. Segue até uma extremidade que designa o alvo, o qual Sato determina por si próprio, apesar de saber que talvez nunca o atinja, pelo menos, a longo prazo. Porque o kyudo, uma arte tradicional de arco do Japão, é uma disciplina exigente, até mesmo para um professor altamente respeitado como é o seu caso.» (*)



Parece tudo muito estranho e incompatível com aquilo a que se chama "sucesso", mas nem sequer foi esta estranheza que me chamou a atenção; foi coisa de linguagem, coisa de palavras.

Aparentemente, há uma gralha no texto: "apesar de saber que talvez nunca o atinja [o alvo], pelo menos, a longo prazo". E pode muito bem ser: é muito provável que o autor do texto pretendera dizer "pelo menos a curto prazo".

O que eu acho curioso é que, propositado ou não, por linha tortas ou direitas, o autor usou as palavras certas para definir uma actividade sem fim, que pretende atingir algo para lá do seu objectivo.

Sabe que não se conseguirá, pelo menos, a longo prazo, ilumina belissimamente o, só aparente, paradoxo.

É uma frase que pode ter contornos filosóficos?!? Pode pois, mas isso não importa; o que importa é a poesia.

David Augusto Fernandes


--------------------------------------
(*) Título e extractos assinalados retirados de um texto de Felix Zimmermann para a revista Mercedes Magazine nº 03/2008

Mais informação em http://www.kyudo.com

terça-feira, setembro 09, 2008

A imortalidade

Artes, engenho, mera força
e no entanto a luz
emudecente
como fragmentos de livro
para um léxico incompleto.

Logo a apneia involuntária
assustadora como se aparecesses
mas efémera porque não.

Deste alívio se pressente então possível
uma validade insubmissa
como se o tempo não trespassasse tudo
a ver-se
mas tu nunca chegares.

Caminha-se com ele
mas não há desarranjo nos relógios
ou nas sirenes das fábricas
nem desânimo nas aves que migram.

E no entanto a sombra de tudo
perfeitamente como é de ser:
alfabetos vivos e mortos,
até dicionários sem serventia,
bibliotecas imensas de saber:
um universo de sombras
de perfeitas engrenagens.

David Augusto Fernandes

terça-feira, agosto 26, 2008

Terraplanagem do sentido

"Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo ─ o que se fala e escreve em Portugal ─ e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com a peneira"
Eugénio Lisboa in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 13 a 26 de Agosto de 2008 (nº 988)

Olhem-me só o desplante do homem; isto é uma heresia: não se pode dizer que há mais do que um "português" como já não se pode dizer:
preto, homem, mulher, cigano, casamento, brasileiro (que me lembre assim de repente).

A lista de palavras proibidas vai aumentando todos os dias. Não tarda, já só as poderemos trocar em sub-caves nas traseiras de edifícios de subúrbio.

Lamentavelmente, as palavras estão na mão de uma horda crescente de "fascistas da palavra politicamente correcta" devidamente amplificados pela "comunicação social" (bem sei, bem sei: lugar comum).

Contra este "fascismo da palavra"
vão-nos valendo (mas pouco) os poucos Eugénios Lisboas que não receiam usar as palavras certas (únicas?!?!?).

Mas o resultado não será de vulto. A terraplanagem está em curso e em força. E o pior é que quando isto for tudo plano, não haverá rios.

E o que eu gosto de penhascos.....

quinta-feira, agosto 21, 2008