terça-feira, junho 03, 2008

Amy Winehouse, o génio da lâmpada e o trabalho


Corre mundo a actuação de Amy Winehouse no Rock in Rio.

O Daniel Oliveira, fino como um alho, à cata de cliques, lá desencantou mais um post polémico com o sugestivo título: “Genialidade sem excesso? Não temos”.

Aparentemente, génio é sinónimo de excesso e é indissociável de excentricidade.

Os fãs, solícitos, correm na defesa da sua menina e arrasam as críticas à sua actuação, legítimas a meu ver, a quem pagou bilhete para assistir a um espectáculo musical e não pôde fazê-lo.

Se por um lado lançam inquestionáveis argumentos subjectivos de gosto, por outro atiram razões mais objectivas e menos questionáveis quanto à qualidade vocal da artista bem como da sua originalidade.

Qualidade vocal semelhante ou superior, que se conheça, há às dezenas, e escondida, aos milhares certamente; basta acompanhar um desses programas de “Ídolos” para o confirmar. E comportamentos excessivos, excêntricos e originais, há aos milhões.

Longe de mim querer assassinar artisticamente Amy Winehouse; nem que quisesse o poderia fazer, mas génio não é aquilo.

Génio é constância; ter uma ideia genial é uma coisa, fazer um disco genial é outra, SER genial é outra totalmente diferente.

Corre-se um risco enorme ao tentar branquear uma actuação daquelas com o bondoso, “pois, mas é genial” ou pior "pois, mas eu gosto muito".

Corre-se o risco de, como dizia alguém, para se ser reconhecido como artista ser necessário fazer constar que se dorme com a janela aberta, faça sol, chuva ou neve.

Corre-se o risco de associar genialidade a improviso efémero, a intuição, a desmazelo.

Mas, mais grave, corre-se o risco de associar mediocridade a trabalho, constância, brio e isso é que não pode ser.

segunda-feira, maio 26, 2008

Estilhaços

morrer de susto deve ser do coração desistir depois de muito tentar sair; e pode até ser de o conseguir.

a escola tinha começado há pouco tempo e a professora como todos os dias tinha acabado a correcção das nossas redacções.

ia chamar os piores, eu a sonhar e a acreditar que desta vez não era, mas

- joão.

se não fosse o meu pai no dia antes à noite a zanzar pela cozinha, a minha mãe

- despacha-te

eu a despachar-me e a letra a ficar mais torta para o final, talvez não fosse chamada.

lá fomos eu e mais seis ao quadro, ali muito alinhadinhos senão em vez de duas palmatoadas eram quatro.

o carlitos a chorar ainda antes de levar que depois parava, era sempre, e o raio do preto a fazer caretas.

lá passou como um temporal fora de época, o vermelho de uma mão qualquer, a princípio a trepar muito depressa pelo braço acima e depois na cara a demorar como o fumo dos aviões lá muito em cima, cada vez mais largo mas muito devagarinho e depois a desaparecer sem se dar por isso.

eu cuspia na mão a querer fazer o coração parar de bater nela, o avião andar mais depressa, que não andava.

eu cuspia na mão mas nunca dava pelo fim daquilo.

era ao contrário dum susto, dum sonho a acabar, lá acabava por acabar, apenas e ao invés de como daquela vez no telheiro atrás da escola o preto a chegar-se muito para mim, o cabelo dele muito loiro quase branco que fazia impressão, as sardas que parecia doente e os olhos como se nem tivesse

- dá-me um beijo.

não consigo dizer quanto tempo estive a tomar consciência de mim, das paredes, de respirar; não sei se haveria algum avião mas sei que nem medi quanto era suficiente para não deixar que se me escapasse o coração quando ele

- dá-me um beijo

e eu quase logo a correr dali para fora com quanto sangue em arrancos ainda me restava no peito, sem olhar para trás, sem trazer nada, a esquecer o avião se houvesse algum, a só ver um rasto branco a ficar largo tão depressa que se via, e eu sem trazer nada, a correr muito e só aquilo dentro da cabeça

- dá-me

alguém

- despacha-te

e outro alguém a despachar-se.

foram dias e dias, noites a fio a acordar muito devagar mas a nunca mais me apressar se à noite as minhas irmãs já a dormir, o meu pai a zanzar pela cozinha, a pensar na minha mãe e em

- dá-me

e ela, claro

- despacha-te.

nunca mais.

podem dizer-me que perdi algo porque sei que havia mais, mas hoje, décadas mais tarde, o preto ainda mais loiro adivinhou ao ver a minha mesma cara que daquela vez

- nunca mais te esqueceste

a achar que me acalmava, a não saber que não, a sorrir sem ser o riso das caretas que fazia e a recomeçar

- que é feito de ti

que nada de especial mas a mentir

- o normal, casei, tive filhos

a pensar, dei.

não tenho a certeza se perdi muito mas perdi algo, certamente, com o engano muito demorado de só tarde demais ver que

- dá-me um beijo

era afinal uma troca.

FIM

quinta-feira, maio 08, 2008

As palavras


"(...) descobrimos que as palavras não começaram por ser abstractas, antes por serem concretas - e suponho que neste caso "concreto" significa quase a mesma coisa que "poético". Consideremos uma palavra como "dreary" [triste]: a palavra "dreary" significava "manchado de sangue". Do mesmo modo, a palavra "glad" [alegre] significava "polido" e a palavra "threat" [ameaça] significava "multidão ameaçadora". Essas palavras que agora são abstractas tiveram outrora um significado forte.

Poderiamos prosseguir com outros exemplos: Tomemos a palavra "thunder" [trovão] e contemplemos o deus Thunor, o homólogo saxónico do norueguês Thor. A palavra unor valia para trovão e para deus; mas se tivéssemos perguntado aos homens que vieram para Inglaterra com Hengist se a palavra servia para o ribombar no céu e para o irado deus, não me parece que eles fossem suficientemente subtis para compreenderem a diferença. Suponho que a palavra encerrava os dois significados sem se comprometer muito estreitamente com qualquer deles. (...) As palavras estavam carregadas de magia; não tinham um significado rígido e fixo. Portanto, ao falarmos de poesia podemos dizer que a poesia (...) não tenta pegar numa porção de moedas lógicas e transformá-las por magia. Pelo contrário, devolve a linguagem à sua fonte."

Jorge Luis Borges, "Este Ofício de Poeta" Editorial Teorema

Os filhos da terra


São 5 volumes (*) e contam a história de Ayla, uma menina Cromagnon (humana tal como conhecemos o homem, hoje) que com 5 anos, depois de uma calamidade sísmica que mata toda a sua tribo (família, clã), se vê obrigada a meter pés a caminho.

Nessa busca de sobrevivência, encontra um clã de Neandertais, (se bem se lembram, uma espécie menos evoluída(?!), anterior aos Cromagnon) que também se viram na necessidade de procurar uma nova caverna.

É adoptada por estes e fica a cargo de Iza, a curandeira do clã, que a vai iniciar na sua arte.

Não é uma obra literariamente inesquecível, mas a descrição desta nossa terra há 25000 anos atrás, é maravilhosa: um mundo sem .... praticamente tudo o que sabemos que um mundo "deve" ter. Um mundo puro.

Estou a terminar o primeiro volume e mal posso esperar por pegar no segundo, terceiro ....

Um cheirinho do que se pode ler, e do que faz pensar:

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"Quando regressavam, Ayla deteve-se apontando uma erva com flores azuis, com mais ou menos 30 cm de altura.

- Há ali alguns pés de hisopo. A sua infusão é boa contra a tosse e contra o catarro, certo?

- Sim. E além disso proprociona um agradável sabor a qualquer outra infusão. Porque não colhes um pouco? - sugeriu Iza.

Ayla arrancou umas quantas plantas e foi cortando as folhas enquanto caminhavam.

- Ayla - chamou a mulher-, essa raízes produzem plantas novas todos os anos. Se arrabcas as plantas não haverá aí plantas no próximo verão. É melhor colher só as folhas caso não vás fazer uso das raízes.

- Não tinha pensado nisso. - disse Ayla.

- E sempre que precises das raízes, não as arranques todas do mesmo local.

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(*) a versão que tenho é espanhola. Em português existe na Europa América em 7 (ou 6) volumes.

-
Clã do urso das cavernas
-
O vale dos cavalos
- Os caçadores de mamutes (
I e II)
- Planícies de passagem (
I e II)
- O abrigo de pedra (desconheço se existe em português)

quarta-feira, abril 23, 2008

George Oppen - 100 anos


Faria amanhã, 24 de Abril, 100 anos. Chama-se George Oppen e é um homem e um poeta extraordinário.

Filho de um muuuuito abastado comerciante de diamantes, nunca precisou da massa do papá. A mãe suicidou-se tinha ele 4 anos, o pai casou segunda vez e pelos vistos a madrasta não era flor que se cheirasse. Isto marcou-o para sempre.

Foi expulso do liceu e na universidade, apaixonou-se (para toda a vida) por Mary Colby mas logo na primeira saidinha à noite chegaram tarde demais. Ela foi expulsa, ele suspenso.

Casam, abandonam a universidade e a cidade (Oregon) e correm os Estados Unidos à boleia, fazendo ao longo do caminho pequenos trabalhos temporários aqui e ali.

É nesta época que escreve os primeiros poemas e, com a ajuda de uma pequena herança, fundam uma editora que pouco tempo depois falia não sem antes publicar obras de William Carlos Williams e Ezra Pound.

Início da década de 1930 e da grande depressão. Em face dos problemas sociais e do crescimento do fascismo, tornam-se cada vez mais politicamente activos acabando por se filiarem no Partido Comunista e Oppen, não querendo correr o risco de escrever versos de propaganda, "deixa" a poesia.

Desiludido com a política em geral e o Partido Comunista em particular e querendo participar na luta contra o fascismo, alista-se como voluntário sendo mobilizado para a II Guerra Mundial onde serviu na Linha Maginot e nas Ardenas. É ferido com gravidade e regressa aos Estados Unidos momento em que lhe é atribuída a Purple Heart.

Depois da guerra, trabalha como carpinteiro e construtor de pequenos barcos e embora em termos políticos praticamente inactivos, o seu passado atrai as atenções do comite do Senado presidido por Joseph McCarthy e exilam-se no México onde criam uma pequena empresa de fabrico de mobiliário. Embora exilados, continuam sob vigilância das autoridades Mexicanas e do FBI.

Só em 1958 podem regressar aos Estados Unidos e é nesse momento, 25 anos depois, que volta a escrever poesia.

Em 1969 ganha o Prémio Pulitzer para poesia mas a partir de 1977 torna-se praticamente impossível escrever devido à doença de Alzheimer que se agravava.

Morre de pneumonia e complicações originadas pela Alzheimer no dia 7 de Julho de 1984.

É um homem cuja vida faz acreditar que o Homem é possível e um poeta absolutamente imperdível para quem acha que a poesia não é só "flores" e pode ser também Objectiva; e é pena que não existam traduções editadas em português.

Informações sobre as iniciativas do centenário que se multiplicam, sobre a sua vida e obra podem facilmente ser encontradas numa busca rápida ali no Google sabe-tudo.

sexta-feira, março 28, 2008

Os lados

Primeiras linha da crónica de Gonçalo M. Tavares na última VISÃO:

"Não te leves demasiado a sério, mas leva a sério o mundo.

1. Cobarde:
a) aquele que tem medo
b) aquele que tem medo de mostrar que tem medo.

2. Corajoso:
a) aquele que tem coragem
b) aquele que tem medo de mostrar que tem medo."

A crónica continua e vale a pena ser lida, mas se acabasse por aqui quase tudo estava dito.

quarta-feira, março 05, 2008

Não, não é isto



This is not America
(Letra e música: David Bowie and Pat Metheny)

A little piece of you
The little peace in me
Will die
For this is not America

Blossom fails to bloom
This season
Promise not to stare
Too long
For this is not the miracle

There was a time
A storm that blew so pure
For this could be the biggest sky
And I could have
The faintest idea

For this is not America

Snowman melting
From the inside
Falcon spirals
To the ground
So bloody red
Tomorrow's clouds

A little piece of you
The little piece in me
Will die
For this is not America

There was a time
A wind that blew so young
For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea

For this is not America
This is not america, no, this is not

segunda-feira, março 03, 2008

Do engenho


lisboa . lisbon. portugal. Rua do Alecrim.
Rua do Alecrim - Lisboa; fotografia de Tereza Del Pilar


Do engenho

na esquadria dos edifícios em ruas
como a sua própria sombra nas estremas do dia
ou as manchas de urina nas paredes;

na forma da vizinhança,
nos soalhos parados como a água das vasilhas
que não são homotetias do rio;

na luta surda que por ali não há...

David Augusto Fernandes

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Ah comunicação, comunicação


"(...) Dou umas aulas de guionismo na Escola Superior de Comunicação Social. Os miúdos são porreiros, mas se uso uma pequena ironia não a entendem, se utilizo um provérbio não sabem o que é, se passo uma rasteira todos caem. E o vocabulário é reduzidíssimo."

Mário de Carvalho, em entrevista a um jornal com e de letras.

O entrevistador, na pergunta anterior diria, premonitoriamente, a propósito de palavras de Umberto Eco, o seguinte:

"Por isso, com certa ironia, ele conclui que a televisão é o media mais democrático porque nivela e formatiza tudo e todos... por baixo.".

domingo, fevereiro 17, 2008

Os tops dos super-pops

Não tenho muitas certezas sobre este assunto. Parece-me contudo que a poesia nunca terá o mercado da prosa (oh grande novidade - esta cabeça....).

E, a meu ver, o problema não está na educação; aliás a educação não incentiva nenhum tipo de leitura, e nisso a prosa é tão mal amada quanto a poesia.

Há mitos que nunca se hão-de eliminar como por exemplo, acreditar que se chama um miúdo para a poesia através dos Lusíadas. Não pode ser.

Mercado é retorno (valorizado) de investimento. Mercado é falsidade, engodo, engano.

O mercado chegou à prosa há muito tempo: veja-se a quantidade lamentável de sucedâneos do lamentável "Código"!!!

Expliquem-me porque se vendem aos milhares coisas como "Os pilares da terra" do Ken Follett (que eu também li sim senhor e que diverte muito, ok) mas não se vendam ao menos umas centenas de, por exemplo, "A casa do pó" e demais notáveis romances do Fernando Campos. Dou este exemplo apenas porque, podemos dizer que são "do mesmo tipo", acrescendo a que no caso do Fernando Campos, o assunto é Portugal, as nossas coisas, a nossa história, os nossos lugares?? Já para nem falar na qualidade da escrita; incomparável a favor do nosso romancista histórico.

Expliquem-me por favor.

Expliquem-me porque vende como tremoços um lamentável (para dizer pouco) José Rodrigues dos Santos (já tive oportunidade de escrever algo sobre isto
aqui) e, (apenas para manter a semelhança jornalistica), porque não vende o mesmo um ADMIRÁVEL Rodrigo Guedes de Carvalho??? Porque é que, apenas por serem ambos jornalistas, se coloca tudo no mesmo saco?

Porque raio ninguém sabe quem é um valter hugo mãe, nem o da poesia nem o da prosa, ambas de um nível elevadíssimo?

Como comecei por dizer, não tenho certezas, e nem tenho nada contra quem pretenda fazer vida da escrita, seja da prosa seja da poesia, mas é que absolutamente nada. Mas, nas coisas das artes, desconfio do mercado, sempre.

Além de que o mercado não resolve tudo muito menos afina qualidade.

Sabendo que os editores PAGAM às grandes superfícies (malfadadas que já chegaram aos livros) para que estas coloquem os SEUS livros nos escaparates principais, não é de prever grande coelho desta lura. E só pagam se tiverem um risco mínimo de não retorno.

Esta exagerada visibilidade de produtos fracos tem um outro resultado perverso: quantos livros se oferecem? Se pensarmos no fraco nível de leitura deste país de miséria (a maioria dos livros que se oferecem não foram lidos - como é óbvio) quais são os livros com probabilidades de serem comprados para serem oferecidos; é a bosta visível à frente.

Depois os números e as estatísticas com que nos querem enganar. Pergunto por exemplo: quantos dos 150000 exemplares vendidos de um Codex (do JR dos Santos), foram de facto lidos? E desses, quantos foram lidos até ao fim? (Falo apenas de um livro MAU com uma saída incrível).

É o circo mediático como está muito na moda dizer-se.

Há uns tempos, havia pouco tempo do anúncio do Nobel deste ano (Doris Lessing), passeava eu pela FNAC e qual não é o meu espanto quando vejo os escaparates cheios de livros da senhora. O meu espanto não foi a quantidade de livros, foi o preço. A Livros do Brasil na colecção Dois Mundos, tinha há muito editado Doris Lessing; pois vão à FNAC ver o preço a que estão esses livros e vão ao site da editora ver a quanto são vendidos?

Acredito que a poesia estará sempre fora disto; acredito e desejo.

Vou repetir: não tenho nada contra quem queira fazer vida da escrita.

Vou repetir: não tenho certezas nenhumas; é provável que mude de opinião à medida que for reflectindo nisto; quem for burro que puxe carroça, eu não sou.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Acompanhante: pai

José Luís Peixoto escreve agora uma crónica na VISÃO. Começou esta semana.

Alguém que escreve assim, fica automaticamente [era aqui o gato] perdoado de qualquer pequena ou grande falta; faz-me sentir indigno de apontar um cabelo fora do lugar.

Dois extractos:

"Assistirmos ao sofrimento do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro. E cada som do nosso filho a sofrer é silêncio em brasa, é a cabeça cheia de silêncio em brasa, o peito cheio, incandescente, o mundo inteiroem brasa."

(...)

"É então que a mãe e eu sentimos que nascemos em dias específicos,em lugares específicos e avançamos por caminhos, fizemos escolhas,tivemos vocações e segredos apenas para nos encontrarmos neste menino que dorme diante de nós, e que é o rosto da nossa alma."

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os prémios, os prémios

Os prémios de literatura voltam a estar na ordem do dia.

José Luís Peixoto venceu o Prémio Daniel Faria e nada se pode questionar que logo atiram a etiqueta da inveja, essa coisa feia. O facto de ser um Prémio que visa incentivar o aparecimento de novos poetas, nada diz a ninguém, a não ser "invejoso".

As palavras do jurado Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, que publicará a obra vencedora, dizem bem da falta de senso de que enfermam algumas cabeças:

“Foi mesmo uma grande surpresa, mas uma surpresa boa, porque vem dar força e credibilidade ao prémio."

Eu pensava que surpresa, surpresa, surpresa mesmo boa, seria encontrar um novo valor, não?? Não daria, isso sim, mais força e credibilidade ao prémio? Parece que não.

"Durante a leitura dos originais, já tinha suspeitado que se tratava de um autor experiente, com grande domínio da linguagem e das técnicas de escrita, e não alguém que envia o seu primeiro livro."

Pergunto: é isto um incentivo a quem "envia o seu primeiro livro"? Desgraçadinhos.

“Gostava de salientar a extraordinária humildade do Zé Luís, que ao querer ficar associado a este prémio, e ao nome do Daniel Faria, correu o risco de perder para um autor desconhecido ou, pior ainda, de receber uma mera menção honrosa.”

Pergunto: precisará o JLP de provar alguma coisa a alguém?
Pergunto: uma menção honrosa, como dizem as palavras, não é uma menção ... HONROSA?? Ou será apenas uma honra de derrotado?

A coisa não é nova: veja-se o recente Prémio Nuno Júdice atribuido pela CM de Aveiro, vencido por esse consagrado papa-prémios da literatura portuguesa que é José Jorge Letria. O facto de, também este, ser um prémio que pretendia incentivar novos poetas, nada diz a ninguém.

Enfim, como eu, ingénuo, crente, diria ridículo, concorri a esse, podem chamar-me invejoso à vontade.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Descubra as diferenças

Enquanto Portugal vende o seu património cultural para tremoços, condomínios de luxo e outras coisas muito Ocidentais e evoluídas; enquanto em Portugal (uma república) se discute, coisa espantosa, a monarquia.

Enquanto Portugal se mostra ao mundo com futebóis, AllGarves e WestCoasts, Espanha faz assim (deve ser do conservadorismo patriótico, retrógrado e monárquico).

Merda; estou um bocadinho triste

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Phonix!!!!

O youtube é uma daquelas coisas como as cerejas. Está bem feito; é como dizem os espanhóis, adictivo.




Só aquela capacidade de associação me fez saltar disto para um Paul Simon (que não chupo nem à lei da bala) nas suas "50 maneiras de deixares o teu amor".

Ponto em comum, lei mais forte que a da bala: um improvável Steve Gadd, senhor que, diz-se, criou o disco beat

... e não é como as cerejas, é mais como o Vinho do Porto.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Antes de nós



A rotação do pulso no virar do tempo
para uma aferição aproximada
do longe
antes do metódico aconchego dos óculos
a aclarar a voz;

o passo diferente
sobre a sombra pastel
ao abrigo da aresta
entre o passeio e a soleira:
cimento e mármore,
linha real
de uma mudança de estado
depois imaginado.

David Augusto Fernandes

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Apontamentos desconexos

Há pessoas sobre as quais se pode dizer tudo: têm uma vida recta, pode-se contá-la com facilidade. Tudo é correcto e sem dias estranhos, sem gostos inoportunos, sem indecisões.

Há contudo outras que pela inconstância, paixão, impulso, fazem das suas vidas (voluntária ou involuntáriamente) histórias impossíveis de contar com razoabilidade. Mas têm momentos de puro brilho explosivo: 2 minutos apenas que nunca mais se esquecem.






Diz-se que são livros difíceis; diz-se muito isso. Talvez como livros de poesia, digo eu.

“A ordem natural das coisas” de António Lobo Antunes (Dom Quixote, 1992) é como uma daquelas pessoas; é como uma filigrana tridimensional, um cubo de bilros; maciço mas como diria quem o visse impresso em papel transparente.

Ao pé dele, um “Todo-o-mundo” de Phillip Roth, autor de quem Lobo Antunes é confesso admirador, é uma brincadeira.


No entanto ...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Os Lusíadas em números



Os substantivos mais utilizados n'Os Lusíadas são:

  1. gente (220)
  2. terra (216)
  3. rei (194)
  4. mar (187)
  5. mundo (103)
  6. céu (81)
  7. reino (77)
1750 inícios de verso distintos e os mais frequentes são:
  1. Que (779)
  2. E (439)
  3. A (347)
  4. De (334)
  5. O (292)
  6. Mas (221)
  7. Por (181)
  8. Com (177)
  9. Os (155)
  10. Não (149)

Gente, é o substantivo mais frequentemente usado como início de verso. Há 9 versos começados com Gente.

Camões utiliza um vocabulário de 8786 palavras sendo que a obra é composta por um total de 52917 palavras.

A palavra não aparece 556 vezes enquanto a palavra sim não aparece nenhuma.

Quem quiser saber mais coisas, pergunte.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Dúvidas

Porque vemos as livrarias pejadas com:






e não com: