João César das Neves (economista e professor universitário na Católica) opina hoje no Destak sobre ... SEXO!
O título da coluna de opinião é “Sexo à esquerda” e JCN discorre sobre uma notícia de um discurso que o primeiro ministro fez em Leiria no passado dia 13.
Diz JCN que, nessa notícia, há uma passagem muito reveladora e transcreve: “Para aqueles que acusam o PS de não ter políticas de esquerda, Sócrates deu o exemplo de três leis: a Lei da Paridade, a Lei da Procriação Medicamente Assistida e a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez”.
“Esta declaração é insolita”, afirma JCN e justifica:
“O elemento mais surpreendente é que os três diplomas que, na sua (do primeiro ministro) opinião, manifestam a especificidade política do Executivo nada têm a ver com os reais problemas do país. Estamos a passar por um período difícil, com exigentes desafios e decisões a enfrentar. Mas os ministros expressam a sua orientação ideológica só em pontos menores, todos relacionados com o sexo. Onde, aliás, se pode questionar a intromissão de políticos.”
Que JCN questione a intromissão de políticos em “pontos relacionado com sexo” e NÃO QUESTIONE a intromissão da Igreja nos mesmíssimos pontos, tanto se me dá; é lá com ele.
Agora, que JCN considere estas leis como estando relacionadas com SEXO, é de bradar aos céus.
A da IVG e a da PMA, com bastante esforço ainda consigo lá chegar, mas a da Paridade ... (alguém me elucida que eu não estou a ver?!?!?)
Mas não se fica por aqui. Um pouco mais abaixo diz:
“O facto de a sua especificidade (política do Executivo) se definir apenas no baixo-ventre levanta, obviamente, muitos problemas à relevância das forças de esquerda”.
Baixo-ventre ?!?!?!?!
Desculpe senhor JCN, disse: “BAIXO-VENTRE”?!?!?!
Quanto à IVG já sei a sua opinião, obrigado. Mas então ... um casal que, por dificuldades em conceber um filho, procure ajuda médica, tem um problema de .... BAIXO-VENTRE?!?!?! Tipo: nasci com isto avariado.
E uma mulher discriminada apenas por questões de género (ou sexo, como prefere o senhor) tem um problema de BAIXO-VENTRE?!?!?! Tipo: nasci com isto.
Enfim, quem o viu no debate “contra” o Daniel Oliveira na altura da campanha para o referendo sobre a IVG, sabe o quanto um homem aparentemente inteligente e sensato pode revelar-se um trauliteiro trocatintas e cínico e, como tal, não estranhará nunca mais as suas opiniões disparatadas. Mas eu confesso que me pareceu que tal comportamento se deveu apenas ao calor da “disputa”. Vejo agora que não: o senhor JCN é mesmo assim e eu não gosto de pessoas assim.
quinta-feira, abril 19, 2007
terça-feira, abril 17, 2007

O seu último livro “A Man Without a Country” de 2005 ("Um homem sem pátria", Tinta da China, 2006) termina com o seguinte poema.
Requiem
When the last living thing
has died on account of us,
how poetical it would be
if Earth could say,
in a voice floating up
perhaps
from the floor
of the Grand Canyon,
“It is done.”
People did not like it here.
Tenho mesmo muita vontade de conhecer melhor o senhor.
Percebi a tua admiração pela notícia da decisão do diferendo Público – Sporting
Só que
É fácil dizer que o jornal foi condenado por publicar uma notícia que se veio a saber ser verdade, retirando-se "passagens" da decisão para reforçar essa tese e não se indo ao fundo da questão, explicando-se aquilo que foi decidido.
Para que possas compreender melhor as coisas, chamo-te a atenção para o seguinte:
1º
Como se diz no Acórdão do STJ : "A violação do disposto no artigo 484º do Código Civil (ofensa do crédito ou bom nome) não depende da veracidade ou não do facto divulgado, pelo que a ilicitude do facto não é afastada pelo cumprimento ou não das exigências da verdade".
Assim, por exemplo, se um jornalista resolver noticiar que determinada mulher, durante as últimas férias, dormiu com sete homens diferentes, um em cada dia da semana, facilmente se compreende que, mesmo que o jornalista prove que isso foi verdade, isso não o exclui da possibilidade de cometer um ilícito, por ofender o bom nome da pessoa em causa. A reputação dela foi lesada perante todos, e como tal há, em princípio, ilícito. Apenas não haverá se se considerar que havia uma "causa de justificação" para a conduta do jornalista.
Para, então, se determinar se a conduta do jornalista era ou não justificada havia que fazer uma ponderação de interesses, e ver qual é o que devia prevalecer:
- se o direito da mulher em causa ao crédito e bom nome;
- se o direito à liberdade de imprensa.
Ora, em tal caso, apenas poderia prevalecer o direito à liberdade de imprensa, se se considerasse (provasse) que, no caso em concreto, havia um interesse (público) relevante para noticiar a situação. Assim não sendo, devia prevalecer o direito que cada um de nós tem à privacidade e ao bom nome.
Como vês, retirou-se uma frase do Acórdão para se passar uma "mensagem" favorável aos jornalistas, mais uma vez procurando fazer dos juízes lunáticos totalmente desligados da realidade e "ressabiados" com os jornalistas.
2º
Os jornalistas não foram condenados por noticiarem factos verdadeiros que foram considerados ofensivos do bom nome do Sporting
Os jornalistas foram condenados, sim, por darem uma notícia repleta de afirmações que insinuavam que o Sporting (mesmo após a celebração e início de execução do acordo firmado com o Governo – Plano Mateus) tinha um calote fiscal enorme que tinha escondido da Administração Fiscal, daí partindo para falar na existência de um crime fiscal e na possível aplicação de penas de prisão para os dirigentes.
Quando o que se passou (mais ou menos) foi o seguinte:
- é verdade que o Sporting tinha uma dívida fiscal bastante grande (460 000 000$);
- antes do acordo do Governo com o Sporting, a Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais apurou quais eram, até 31 de Julho de 1996, as dívidas do clube à Administração Fiscal, tendo o valor das mesmas sido incluídas no requerimento que o Sporting, depois, teve que apresentar no âmbito do Plano Mateus.
- O Sporting começou a fazer todos os pagamentos a que se vinculou, desde a aprovação do seu requerimento para a adesão ao Plano Mateus, mantendo-se plenamente cumpridor perante a Administração Fiscal.
- Dado que a Administração Fiscal, quando fixou em 1996 o valor da dívida global para ser considerada para efeitos da dação em pagamento, ainda não tinha concluído as acções de inspecção sobre os clubes de futebol, a mesma veio a apurar mais tarde que existiam dívidas dos clubes que não tinham sido contabilizadas, o que gerou alguma polémica ao nível da Administração Fiscal sobre o procedimento a adoptar para cobrar as mesmas, no caso do Sporting a tal dívida de 460 000 000$
Ou seja:
O Público em vez de noticiar aquilo que efectivamente se passava, avançou com grandes "parangongas" a dizer que o Sporting tinha um calote enorme, falando em crime e em penas de prisão para os dirigentes.
Assim,
A condenação não foi por causa dos factos (verdadeiros) que foram noticiados, mas sim por causa do jornal ter envolvido os factos com insinuações (deturpadas) lesivas do bom nome do clube e seus dirigentes. Como se diz no Acórdão:
"De qualquer modo, na sua estrutura objectiva e pelo sentido que os leitores deles podiam razoavelmente extrair, os factos noticiados não correspondiam à situação envolvida pela relação jurídica tributária encabeçada pelo recorrente e pela Administração Fiscal. O que passou para a opinião pública foi, conforme se considerou nas instâncias, a ideia de que o recorrente não cumpria as suas obrigações fiscais, que retinha indevidamente impostos e contribuições para a segurança social, o seu incumprimento a participar pela Administração Fiscal, e terem os seus dirigentes cometido o crime de abuso de confiança fiscal a que corresponde pesada pena de prisão. Verifica-se, assim, que o conteúdo do noticiado não se resume à mera informação de factos de pretérito, certo que ele assume uma vertente jornalística de opinião. Além disso, envolvem os referidos factos considerável pormenorização e, dada a credibilidade do órgão de comunicação que a emite, o universo dos seus leitores e o respectivo estrato social, assumiram a virtualidade de objectivar a eficácia do convencimento dos destinatários da comunicação quanto à sua realidade e, daí, a sua potencialidade de consecução de efeito nocivo em relação à personalidade moral do recorrente".
3º
Admito que a questão não é líquida.
Admito que, seguindo-se a linha da decisão do STJ, muitos jornais correm o risco de fecharem, por estarem cheios de notícias sensacionalistas (e, no fundo, foi isso, que o Público fez: exagerou de forma sensacionalista uma notícia com um fundo de verdade).
Tanto não é líquida a questão que os jornal foi absolvido na 1ª instância e também na 2ª instância (Tribunal da Relação), apenas tendo sido condenado pelo STJ (e ainda está pendente recurso no Trib. Constitucional).
Agora o que é certo é que o STJ não cometeu disparate nenhum, tendo assumido uma posição da qual se pode discordar, mas que não é absurda, tem lógica, está fundamentada e, se bem compreendida e explicada, seria se calhar defendida pela maioria daqueles que agora a criticam.
Um abraço.
terça-feira, março 13, 2007

O autor do post dá eco a um estudo publicado na revista Veja e reproduz algumas, não sei se todas as, conclusões.
São elas:
a - Durante a adolescência, passamos mais de 30 por cento do nosso tempo com amigos. Na vida adulta, menos de 10 por cento.
b - Ao longo da vida, acumulamos cerca de 400 amigos. Mas mantemos contacto com menos de 10 por cento deles.
c - Temos uma ligação directa, em média, com pelo menos 30 pessoas. Destas, só seis são consideradas amigos próximos.
d - Quem tem um melhor amigo no escritório é sete vezes mais criativo no trabalho.
e - Quem tem um sólido círculo de amigos é 70 por cento mais feliz no casamento.
f - A tensão arterial das pessoas mais solitárias é três vezes mais alta do que a das que vivem acompanhadas.
g - Acima dos 65 anos, há três vezes mais mortes entre os solitários do que entre os que convivem regularmente com amigos, parentes ou cônjuges.
Eu não tenho nada contra estatísticas mas creio que é preciso alguma dose de bom senso para tirar conclusões dos seus resultados, bem como predispôr o espírito à critica.
Vejamos uma por uma, as conclusões acima:
a – Será que escola, trabalho ou estado civil terão algo a ver com os números encontrados?
b – Menos de 10%? Hmm, 9%? Ok, tomemos 9% de 400 o que perfaz 36 amigos. Mantemos contacto com 36!!! amigos? Vou repetir: 36????
c – Neste caso o estudo optou por utilizar a média, ou melhor duas: por uma lado 30, por outro 6. Não seria mais esclarecedor fundir as duas e dizer : “Em média, consideramos amigos próximos 20% das pessoas com quem temos uma ligação directa”? E nem falo do adjectivo (próximos) que só aparece aqui, à 3ª conclusão.
d, e – Estas são das minhas preferidas e muito utilizadas em publicidade a cremes de beleza. O que é isso de 7 vezes mais criativo ou 70% mais feliz?!?!
f – Considerando como normal uma tensão arterial de, digamos, 11/7, uma pessoa solitária terá uma tensão de 33/21?!?!?! Mesmo que EM MÉDIA?!?!?
g – Será que acima dos 65 anos há 3 vezes mais pessoas solitárias do que a conviver regularmente com amigos, parentes ou cônjuges? E porque se juntaram parentes e cônjuges a este cálculo e não aos outros?
Que um amigo não tem preço, como conclui depois o autor do post, já se sabia: sabe talvez quem o tem, sabe certamente quem o perdeu. Mas se alguém pretender tornar isso uma verdade científica (vá-se lá saber porquê) que o faça ao menos com números (ou qualquer outra técnica) com PÉS E CABEÇA.
Ou então recorra aos poetas que, sim, servem para alguma coisa.
Enfim; é por estas e por outras que comemos satisfeitos da vida cada numerinho que nos impingem uns e outros.
segunda-feira, março 12, 2007
sábado, março 10, 2007
Andaram meses a encher couriços: não havia meio de o príncipe e a criadita realizarem o seu amor. Eis que quando finalmente, depois de todos os avanços e recuos, o casalito se decide, o dito príncipe morre num acidente.
Nada contra uma Cinderela com final heterodoxo; afinal era o final do suplício.
Pensava eu.
Como o enchimento de chouriços já começava a raiar o absurdo (até as minhas filhas de 8 e 10 se começavam a fartar daquilo) mas o negócio valia apena, a produção resolveu fazer o príncipe "voltar" do céu e encarnar no corpo do coitado que, assim não quis o destino, deveria ter morrido na sua vez.
Está pois assim garantido o enchimento de mais chouriços durante largos meses na tão esperada, e adivinhada, sequela.
Eu é que não caio noutra: SIC, proibição total e absoluta; vão chamar estúpido a outro, apre!!!!
segunda-feira, março 05, 2007
A OPA da SONAE sobre a PT morreu antes de se saber se o mercado estava interessado no negócio.
O estado manteve-se neutro: o seu representante ausentou-se da sala na altura da votação. A desblindagem dos estatutos, condição necessária, foi chumbada com, entre outros, os votos da Caixa Geral de Depósitos.
Parece que os acionistas que votaram contra estão contentes com os resultados da empresa.
Estão também contentes com as promessas do Dr. Granadeiro de distribuir 6000 milhões de euros pelos accionistas até 2009 ou coisa que o valha.
Segundo andou a pregar o queixoso Dr. Granadeiro, a empresa está "parada" há quase um ano. Ainda assim, os resultados foram bons e até dá para distribuir 6000 milhões de euros.
NOTAS:
- 6000 é basicamente metade dos 11800 que a SONAE estava disposta a desembolsar pela totalidade do capital. Realmente assim ... é negócio: recebem 6000 e mantêm as acções.
- o estado manteve-se neutro já que a CGD é, como se sabe, uma empresa marroquina.
Está pois esclarecida a dúvida do Eduardo Pitta.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
terça-feira, fevereiro 13, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Os “voos da CIA” ainda são notícia.
Desde sempre me pareceu razoável e até plausível que tal coisa tenha de facto acontecido. Afinal, os EUA são um estado amigo de Portugal e não me espanta que tais cumplicidades se estabeleçam entre “amigos”.
A insistência na questão advém de lutas políticas caseiras (especialmente de tipo fratricida) mais do que outra coisa qualquer; a “ilegalidade” é apenas máscara. Atrocidades muito mais graves são diáriamente cometidas contra inocentes (não alegadamente inocentes) e ninguém lhes passa cartão. Adiante.
Ora, se é plausízel que aquelas cumplicidades acontecem, a minha dúvida é a seguinte e de fácil resposta: Quem é mais amigo de Portugal: eu ou os EUA?
Correrei riscos ao, por exemplo, criticar abertamente o Senhor Bush? Estarei a salvo daquele tipo de amizade entre estados? Poderei contar com Portugal?
Não adianta ter medo se só posso contar comigo e com os meus, que como eu são menos amigos de Portugal do que os EUA.
terça-feira, janeiro 23, 2007

A verdade é que, de tudo o que não tem utilidade, talvez apenas de ti me seja difícil prescindir; ainda que saiba perfeitamente que te bastas, ou assim me parece e desejo.
E esse facto preocupa-me; digo, ter contacto apenas com o que utilitário, me permite viver com conforto.
... e explicação.
terça-feira, janeiro 16, 2007
segunda-feira, janeiro 15, 2007
No canhoto já o haviam dito, eu concordo e verifica-se: a campanha do SIM é uma lástima.
Veja-se este cartaz.

Assertivo (Lat. assertivu), adj. Que encerra acerto; afirmativo.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Eu, tu, ele, nós, vós, eles
Li há pouco dois argumentos de um defensor do NÃO que ainda não conhecia (os argumentos, que o adepto continuo a não conhecer).
São eles:
“Coloquemo-nos na pele do outro; coloquemo-nos na pele do embrião que já sente e tentemos imaginar o que será sermos cortados em pedaços a sangue frio ou envenenados. E não é um embrião qualquer, é o nosso futuro filho.”
“Acho que se trata verdadeiramente de um crime horrendo (matar o próprio projecto de filho!)e não compreendo como é possivel que se faça.”
Ora não “compreende como é possível que se faça” mas, ao usar isso como argumento, mostra que crê que compreende tudo o que há para compreender.
Aqui está o cerne de uma questão infelizmente presente neste como em todos os referendos e eleições: o EU quando o que faz falta é pensar o NÓS, principalmente no que isso tem de não-EU.
Apetece devolver o conselho: “coloquemo-nos na pele do outro”; não do embrião que isso parece ser muito difícil; é bem mais fácil: “coloque-se cada um na pele de um semelhante a si”. E não só neste referendo mas em todos os referendos e eleições que venham a acontecer.
Com o tempo aprenderemos a fazer isso durante o resto do tempo também.
domingo, janeiro 07, 2007
quinta-feira, janeiro 04, 2007
O referendo à despenalização da IVG está a dar que falar e está a custar-me perceber porquê; sinceramente.
- Não é óbvio que não se pode julgar uma mulher que recorre à IVG?
- Não é óbvio que um dentista sem habilitações é um criminoso?
- Não é óbvio que despenalizar pode significar tudo menos combater a clandestinidade?
- Não é óbvio que o recurso a “clínicas” de vão-de-escada não tem nada a ver com penas, tão pouco com dinheiro?
- Não é óbvio que despenalizar não significa incentivar?
- Não é óbvio que os números apresentados por gregos e troianos não têm a mais pequena hipótese de confirmação?
- Não é óbvio que uma IVG não poderá estar sujeita a lista de espera?
- Não é óbvio que há problemas de saúde pública de resolução muito mais urgente?
- Não é óbvio que uma gravidez é evitável e até (já) interrompível?
- Não é óbvio que o assunto diz respeito à mulher como ao homem?
- Não é óbvio que as questões de ordem moral (psicológica) se sobrepõe às de ordem física?
- Não é óbvio o significado da palavra “des-pe-na-li-za-ção”?
- Não é óbvio que “despenalizar” não significa automaticamente “criar condições para que o sistema de saúde público trate do assunto”?
- Não é óbvio que (felizmente) a maioria das pessoas (de ambos os lados) que argumenta sobre o assunto não faz a mais pequena ideia do que é passar por isso?
- Não é óbvio que ser a favor da despenalização (do “sim”, para ser claro) implica ser militantemente contra o aborto?
- Não é óbvio que ser contra a despenalização (do “não”, para ser outra vez claro) implica ser militantemente contra a ignorância?
- Não é óbvio que a religião professada tem tanto a ver com o assunto como o concelho de naturalidade?
- Não é óbvio que a competência de legislar cabe à Assembleia da República?
- Não é óbvio que ninguém melhor que o governo tem (ou deveria ter) a informação relevante para decidir sobre o assunto?
- Não é óbvio que isto do referendo é apenas uma questão política, no que de pior tem a dita?
- Não é óbvio que depois do referendo, qualquer que seja o resultado, tudo o que importa estará ainda por fazer?
- Não é óbvio que esse tudo, então como agora, cabe à tal Assembleia da República fazê-lo?
- Não é tão escancaradamente óbvio que isto é um não-problema?
Não, nada disto parece ser óbvio e por isso se vai fazer um referendo.
Por isso, embora correndo o risco de contribuir para um resultado certo por motivos maioritariamente errados, eu vou votar sim e esperar que se acabe de vez com esta discusão idiota de país de idiotas sem mais o que fazer.
sexta-feira, dezembro 29, 2006

Estou no bom caminho: ainda não comecei o segundo capítulo, página 27. Mas já acabei o primeiro, várias vezes.
Não sei descrever o que me parece este livro. Deixo apenas uns recortes do pouco que já li, várias vezes: o primeiro capítulo.
se estivemos juntos, foi pelo funeral da minha avó. acabado que estava o dia voltávamos para cada casa sozinhos e separados novamente, impedidos de julgar asneiras por coisas certas os dois ao mesmo tempo. haveria de ser à vez, cada um na sua vez, a decidir pelas asneiras. o que facilitava a vida dos adultos.
fechei os olhos no caminho, mão dada à minha mãe a puxar por mim aos esticões.
e o manuel estava à porta da sua casa, comprometido, a silenciar algo. pela primeira vez vi-o como um estranho, outra pessoa, não outra pessoa que não ele, mas simplesmente uma outra pessoa, não eu
eu não posso ir, tu sabes que a minha mãe está muito doente, agora piorou, e o meu pai resolveu que vamos à missa mais tarde. iam à missa dos pecadores, dos que se atrasam, dos que não querem ir.
jurei que o manuel me abandonou naquele dia, não fui eu, não foi coisa da minha cabeça. deixou de me fitar, agarrou no portão como se se protegesse contra mim, e silenciou-se de vez, como quem não me falaria mais, fechado sobre si mesmo para me deixar fora da sua vida. e eu fui, passei em corrida pela minha mãe, caí, abri os joelhos de feridas, e magoado corri de novo
a chuva (...). mal a vi, começara naquele exacto instante em que avistei o rochedo, e a ele assomei na minha corrida sem hesitações, como um cavalo, e voei até à água que bateu no meu corpo adormecendo-o.
quarta-feira, dezembro 27, 2006

"Duas pessoas ficaram feridas, uma delas um adolescente de 13 anos, esta terça-feira à noite, em Israel, quando militantes palestinos dispararam um rockete que caiu na cidade israelita de Sdérot, na Faixa de Gaza. Uma das crianças está em estado crítico."
"Governo israelita promete resposta."
Segundo a Wikipedia, os primeiros indícios da Lei de talião foram encontrados no Código de Hamurabi, em 1730 a.C., no reino da Babilônia. Essa lei permite evitar que as pessoas façam justiça elas mesmas, introduzindo, assim, um início de ordem na sociedade com relação ao tratamento de crimes e delitos.
Por outro lado, ainda segundo a mesma fonte, está também no Direito hebraico (Êxodo, cap. 21, vers. 23/5): o criminoso é punido taliter, ou seja, talmente, de maneira igual ao dano causado a outrem.
Dar a outra face é coisa mais recente e não se trata disso.
É de comum senso que violência gera violência. Mas, como todos os lugares comuns, perdeu sentido e valor porque a sua razoabilidade se baseia apenas no porque sim.
Não é óbvio que toda a violência tenha que gerar violência (ou então a paz é algo impossível de atingir) mas interromper esta cadeia implica não responder à violência com violência e isso é sinal de fraqueza. Por isso se procura impôr ao outro esse passo.
Isto é: procura-se através da utilização de actos violentos obrigar o outro a abdicar da violência. Ou muito me engano ou isto só pode ser conseguido através do extermínio de uma das partes, ou até de ambas.
Nenhum feliz desfecho à vista, portanto, e ainda bem para todos os "interessados" nestas confusões; o povo é outra coisa.
Quem sabe a que propósito, revi ontem na 2 o filme "Os coristas"
PS: talião escreve-se com t e não com T porque não é um nome.





