terça-feira, abril 17, 2007

Kurt Vonnegut


Morreu Kurt Vonnegut. Nunca tinha ouvido falar nele, e agora estou com vontade de saber coisas.

O seu último livro “A Man Without a Country” de 2005 ("
Um homem sem pátria", Tinta da China, 2006) termina com o seguinte poema.

Requiem

When the last living thing
has died on account of us,
how poetical it would be
if Earth could say,
in a voice floating up
perhaps
from the floor
of the Grand Canyon,
“It is done.”
People did not like it here.

Tenho mesmo muita vontade de conhecer melhor o senhor.
A autoridade em Portugal está pelas ruas da amargura arrastada pela amargura das ruas por onde se passeia uma comunicação social cada vez mais sensacionalista.


O mais recente "caso" Jornal Público vs. Sporting é mais um exemplo elucidativo e preocupante. E a minha preocupação reside no facto de ser o Jornal Público; se fosse o 24 Horas, de facto, não estaria tão preocupado. Um por um, acabam os orgãos de comunicação social em que podiamos confiar.


As repercusões da decisão do STJ, convenientemente amplificadas pelo jornal (o próprio), foram de tal ordem que pudemos ouvir as mais violentas reacções vindas de pessoas que eu tinha por inteligentes e bem formadas.


Acontece que sempre me pareceu que os juizes do STJ (tal como todos os outros) não seriam os idiotas que me estavam a fazer crer as tais pessoas, mas de facto, tudo apontava para que fossem.


Falei do assunto com um amigo, juiz, que me fez o favor de elucidar sobre alguns pormenores relacionados com o caso.


Segue o email do meu amigo:





Percebi a tua admiração pela notícia da decisão do diferendo Público – Sporting
Só que
É fácil dizer que o jornal foi condenado por publicar uma notícia que se veio a saber ser verdade, retirando-se "passagens" da decisão para reforçar essa tese e não se indo ao fundo da questão, explicando-se aquilo que foi decidido.
Para que possas compreender melhor as coisas, chamo-te a atenção para o seguinte:




Como se diz no Acórdão do STJ : "
A violação do disposto no artigo 484º do Código Civil (ofensa do crédito ou bom nome) não depende da veracidade ou não do facto divulgado, pelo que a ilicitude do facto não é afastada pelo cumprimento ou não das exigências da verdade".
Assim, por exemplo, se um jornalista resolver noticiar que determinada mulher, durante as últimas férias, dormiu com sete homens diferentes, um em cada dia da semana, facilmente se compreende que, mesmo que o jornalista prove que isso foi verdade, isso não o exclui da possibilidade de cometer um ilícito, por ofender o bom nome da pessoa em causa. A reputação dela foi lesada perante todos, e como tal há, em princípio, ilícito. Apenas não haverá se se considerar que havia uma "causa de justificação" para a conduta do jornalista.
Para, então, se determinar se a conduta do jornalista era ou não justificada havia que fazer uma ponderação de interesses, e ver qual é o que devia prevalecer:
- se o direito da mulher em causa ao crédito e bom nome;
- se o direito à liberdade de imprensa.
Ora, em tal caso, apenas poderia prevalecer o direito à liberdade de imprensa, se se considerasse (provasse) que, no caso em concreto, havia um interesse (público) relevante para noticiar a situação. Assim não sendo, devia prevalecer o direito que cada um de nós tem à privacidade e ao bom nome.



Como vês, retirou-se uma frase do Acórdão para se passar uma "mensagem" favorável aos jornalistas, mais uma vez procurando fazer dos juízes lunáticos totalmente desligados da realidade e "ressabiados" com os jornalistas.




Os jornalistas não foram condenados por noticiarem factos verdadeiros que foram considerados ofensivos do bom nome do Sporting
Os jornalistas foram condenados, sim, por darem uma notícia repleta de afirmações que insinuavam que o Sporting (mesmo após a celebração e início de execução do acordo firmado com o Governo – Plano Mateus) tinha um calote fiscal enorme que tinha escondido da Administração Fiscal, daí partindo para falar na existência de um crime fiscal e na possível aplicação de penas de prisão para os dirigentes.
Quando o que se passou (mais ou menos) foi o seguinte:
- é verdade que o Sporting tinha uma dívida fiscal bastante grande (460 000 000$);
- antes do acordo do Governo com o Sporting, a Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais apurou quais eram, até 31 de Julho de 1996, as dívidas do clube à Administração Fiscal, tendo o valor das mesmas sido incluídas no requerimento que o Sporting, depois, teve que apresentar no âmbito do Plano Mateus.
- O Sporting começou a fazer todos os pagamentos a que se vinculou, desde a aprovação do seu requerimento para a adesão ao Plano Mateus, mantendo-se plenamente cumpridor perante a Administração Fiscal.
- Dado que a Administração Fiscal, quando fixou em 1996 o valor da dívida global para ser considerada para efeitos da dação em pagamento, ainda não tinha concluído as acções de inspecção sobre os clubes de futebol, a mesma veio a apurar mais tarde que existiam dívidas dos clubes que não tinham sido contabilizadas, o que gerou alguma polémica ao nível da Administração Fiscal sobre o procedimento a adoptar para cobrar as mesmas, no caso do Sporting a tal dívida de 460 000 000$



Ou seja:
O Público em vez de noticiar aquilo que efectivamente se passava, avançou com grandes "parangongas" a dizer que o Sporting tinha um calote enorme, falando em crime e em penas de prisão para os dirigentes.
Assim,
A condenação não foi por causa dos factos (verdadeiros) que foram noticiados, mas sim por causa do jornal ter envolvido os factos com insinuações (deturpadas) lesivas do bom nome do clube e seus dirigentes. Como se diz no Acórdão:
"De qualquer modo, na sua estrutura objectiva e pelo sentido que os leitores deles podiam razoavelmente extrair, os factos noticiados não correspondiam à situação envolvida pela relação jurídica tributária encabeçada pelo recorrente e pela Administração Fiscal.
O que passou para a opinião pública foi, conforme se considerou nas instâncias, a ideia de que o recorrente não cumpria as suas obrigações fiscais, que retinha indevidamente impostos e contribuições para a segurança social, o seu incumprimento a participar pela Administração Fiscal, e terem os seus dirigentes cometido o crime de abuso de confiança fiscal a que corresponde pesada pena de prisão. Verifica-se, assim, que o conteúdo do noticiado não se resume à mera informação de factos de pretérito, certo que ele assume uma vertente jornalística de opinião. Além disso, envolvem os referidos factos considerável pormenorização e, dada a credibilidade do órgão de comunicação que a emite, o universo dos seus leitores e o respectivo estrato social, assumiram a virtualidade de objectivar a eficácia do convencimento dos destinatários da comunicação quanto à sua realidade e, daí, a sua potencialidade de consecução de efeito nocivo em relação à personalidade moral do recorrente".




Admito que a questão não é líquida.
Admito que, seguindo-se a linha da decisão do STJ, muitos jornais correm o risco de fecharem, por estarem cheios de notícias sensacionalistas (e, no fundo, foi isso, que o Público fez: exagerou de forma sensacionalista uma notícia com um fundo de verdade).
Tanto não é líquida a questão que os jornal foi absolvido na 1ª instância e também na 2ª instância (Tribunal da Relação), apenas tendo sido condenado pelo STJ (e ainda está pendente recurso no Trib. Constitucional).
Agora o que é certo é que o STJ não cometeu disparate nenhum, tendo assumido uma posição da qual se pode discordar, mas que não é absurda, tem lógica, está fundamentada e, se bem compreendida e explicada, seria se calhar defendida pela maioria daqueles que agora a criticam.



Um abraço.

terça-feira, março 13, 2007

A amizade é ...


Pode ler-se aqui um post sobre a importância de ter amigos.

O autor do post dá eco a um estudo publicado na revista Veja e reproduz algumas, não sei se todas as, conclusões.

São elas:

a - Durante a adolescência, passamos mais de 30 por cento do nosso tempo com amigos. Na vida adulta, menos de 10 por cento.

b - Ao longo da vida, acumulamos cerca de 400 amigos. Mas mantemos contacto com menos de 10 por cento deles.

c - Temos uma ligação directa, em média, com pelo menos 30 pessoas. Destas, só seis são consideradas amigos próximos.

d - Quem tem um melhor amigo no escritório é sete vezes mais criativo no trabalho.

e - Quem tem um sólido círculo de amigos é 70 por cento mais feliz no casamento.

f - A tensão arterial das pessoas mais solitárias é três vezes mais alta do que a das que vivem acompanhadas.

g - Acima dos 65 anos, há três vezes mais mortes entre os solitários do que entre os que convivem regularmente com amigos, parentes ou cônjuges.

Eu não tenho nada contra estatísticas mas creio que é preciso alguma dose de bom senso para tirar conclusões dos seus resultados, bem como predispôr o espírito à critica.

Vejamos uma por uma, as conclusões acima:

a – Será que escola, trabalho ou estado civil terão algo a ver com os números encontrados?

b – Menos de 10%? Hmm, 9%? Ok, tomemos 9% de 400 o que perfaz 36 amigos. Mantemos contacto com 36!!! amigos? Vou repetir: 36????

c – Neste caso o estudo optou por utilizar a média, ou melhor duas: por uma lado 30, por outro 6. Não seria mais esclarecedor fundir as duas e dizer : “Em média, consideramos amigos próximos 20% das pessoas com quem temos uma ligação directa”? E nem falo do adjectivo (próximos) que só aparece aqui, à 3ª conclusão.

d, e – Estas são das minhas preferidas e muito utilizadas em publicidade a cremes de beleza. O que é isso de 7 vezes mais criativo ou 70% mais feliz?!?!

f – Considerando como normal uma tensão arterial de, digamos, 11/7, uma pessoa solitária terá uma tensão de 33/21?!?!?! Mesmo que EM MÉDIA?!?!?

g – Será que acima dos 65 anos há 3 vezes mais pessoas solitárias do que a conviver regularmente com amigos, parentes ou cônjuges? E porque se juntaram parentes e cônjuges a este cálculo e não aos outros?

Que um amigo não tem preço, como conclui depois o autor do post, já se sabia: sabe talvez quem o tem, sabe certamente quem o perdeu. Mas se alguém pretender tornar isso uma verdade científica (vá-se lá saber porquê) que o faça ao menos com números (ou qualquer outra técnica) com PÉS E CABEÇA.

Ou então recorra aos poetas que, sim, servem para alguma coisa.

Enfim; é por estas e por outras que comemos satisfeitos da vida cada numerinho que nos impingem uns e outros.

segunda-feira, março 12, 2007

Mudanças!

Que as coisas mudem; que os promotores queiram mudar o patrono; eu até nem sei se isso é uma coisa assim muito má.

O que me espanta é que os promotores (Casino Estoril), com a mudança, não se apercebam de que, ao contrário do que suspeito ser a sua intenção, estão a desrespeitar, não o Fernando Namora (se é que tal coisa é possível) mas, a própria Agustina (graças, graças ainda viva) e que se saberá patrona a prazo de um prémio literário.

É ridículo, pois é.

sábado, março 10, 2007

A Floribela terminou hoje.

Andaram meses a encher couriços: não havia meio de o príncipe e a criadita realizarem o seu amor. Eis que quando finalmente, depois de todos os avanços e recuos, o casalito se decide, o dito príncipe morre num acidente.

Nada contra uma Cinderela com final heterodoxo; afinal era o final do suplício.

Pensava eu.

Como o enchimento de chouriços já começava a raiar o absurdo (até as minhas filhas de 8 e 10 se começavam a fartar daquilo) mas o negócio valia apena, a produção resolveu fazer o príncipe "voltar" do céu e encarnar no corpo do coitado que, assim não quis o destino, deveria ter morrido na sua vez.

Está pois assim garantido o enchimento de mais chouriços durante largos meses na tão esperada, e adivinhada, sequela.

Eu é que não caio noutra: SIC, proibição total e absoluta; vão chamar estúpido a outro, apre!!!!


"Não há passos divergentes para quem se quer encontrar."

Jorge Palma

segunda-feira, março 05, 2007

NÃO PASSARÁ!!!


A OPA da SONAE sobre a PT morreu antes de se saber se o mercado estava interessado no negócio.


O estado manteve-se neutro: o seu representante ausentou-se da sala na altura da votação. A desblindagem dos estatutos, condição necessária, foi chumbada com, entre outros, os votos da Caixa Geral de Depósitos.


Parece que os acionistas que votaram contra estão contentes com os resultados da empresa.


Estão também contentes com as promessas do Dr. Granadeiro de distribuir 6000 milhões de euros pelos accionistas até 2009 ou coisa que o valha.


Segundo andou a pregar o queixoso Dr. Granadeiro, a empresa está "parada" há quase um ano. Ainda assim, os resultados foram bons e até dá para distribuir 6000 milhões de euros.


NOTAS:


- 6000 é basicamente metade dos 11800 que a SONAE estava disposta a desembolsar pela totalidade do capital. Realmente assim ... é negócio: recebem 6000 e mantêm as acções.

- o estado manteve-se neutro já que a CGD é, como se sabe, uma empresa marroquina.


Está pois esclarecida a dúvida do Eduardo Pitta.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


Afirmación, Manuel Clement Ochoa
Afirmación, Manuel Clemente Ochoa



UMA AFIRMAÇÃO

?A que temperatura
lá fora
acontece isso
dessa lista;

?Onde estava aquilo
que a cresceu agora
mais tarde;

?Que é de mim
embora pouco importe
então como aqui.

Significado não é
atributo das coisas
eu sei

mas ?não é viver
acumular a quem perguntar
mais do que tempo?

David Fernandes

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O dia seguinte

Na abertura das jornadas parlamentares do PS, esta tarde, Alberto Martins, tratou também de reafirmar os avisos aos partidos da oposição e aos movimentos cívicos: ninguém vai fazer a nova lei pelo partido socialista.

«Não haverá naturalmente aconselhamentos obrigatórios, à revelia do que foi o mandato popular», frisou ainda.

«uma vitória do progresso e da modernidade, uma vitória do grupo parlamentar», considerou ainda o mesmo senhor.

Este era precisamente o meu receio, único degrau que tive que transpor para votar SIM no passado Domingo. O senhor Martins está a um passo de transformar esse degrau em sapo que hei-de engolir.

Não senhor Martins, não foi uma vitória do grupo parlamentar; foi de todas as pessoas, associadas em grupos ou não, que lutaram pelo SIM; foi das mulheres portuguesas em particular e de Portugal em geral.

Não haverá aconselhamento obrigatório? Por acaso até não sei porque não há-de haver.
Mas, "à revelia da vontade popular" ?!?!?!?

Não senhor Martins, o povo que o senhor está a chamar de estúpido, não votou em nenhuma lei, respondeu a uma pergunta simples (como V.Exa. não se terá cansado de referir) e, E, confiou que depois disso, os senhores e a Assembleia iriam fazer o melhor possível.

O senhor prefere tirar dividendos políticos da situação: está bem.

Mas olhe que na minha opinião, aproveitar-se politicamente do resultado de um referendo, ainda por cima deste, para mim só tem um nome: pulhice.

O senhor está a mostrar o que de pior tem a política.

Não faça isso, não humilhe dessa maneira tanta gente de boa fé.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Da amizade

Os “voos da CIA” ainda são notícia.

Desde sempre me pareceu razoável e até plausível que tal coisa tenha de facto acontecido. Afinal, os EUA são um estado amigo de Portugal e não me espanta que tais cumplicidades se estabeleçam entre “amigos”.

A insistência na questão advém de lutas políticas caseiras (especialmente de tipo fratricida) mais do que outra coisa qualquer; a “ilegalidade” é apenas máscara. Atrocidades muito mais graves são diáriamente cometidas contra inocentes (não alegadamente inocentes) e ninguém lhes passa cartão. Adiante.

Ora, se é plausízel que aquelas cumplicidades acontecem, a minha dúvida é a seguinte e de fácil resposta: Quem é mais amigo de Portugal: eu ou os EUA?

Correrei riscos ao, por exemplo, criticar abertamente o Senhor Bush? Estarei a salvo daquele tipo de amizade entre estados? Poderei contar com Portugal?

Não adianta ter medo se só posso contar comigo e com os meus, que como eu são menos amigos de Portugal do que os EUA.

terça-feira, janeiro 23, 2007


Conjectura número tal

A verdade é que, de tudo o que não tem utilidade, talvez apenas de ti me seja difícil prescindir; ainda que saiba perfeitamente que te bastas, ou assim me parece e desejo.

E esse facto preocupa-me; digo, ter contacto apenas com o que utilitário, me permite viver com conforto.
Se a felicidade existe é coisa de grande inutilidade e desconforto; já uma conjectura ainda terá algum uso

... e explicação.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Sim, porque não, ou ... não, porque sim.

No canhoto já o haviam dito, eu concordo e verifica-se: a campanha do SIM é uma lástima.

Veja-se este cartaz.



Mas, mas: sim?!?!?
Ahh! Não.
Isto é: NÃO à abstenção para manter o aborto clandestino ... e para isso deve votar-se SIM.
... clarinho como água.
Ou ainda mais claro:
Não se abster é ir votar, certo?? Independentemente do "lado". Ou não?
... pffiiiiiiu que assim a coisa tá preta.

Eu cá não percebo puto de marketing e/ou publicidade mas parece-me, no mínimo, hilariante.

Mas a "coisa" tá armada à partida, digo, na própria formulação da pergunta sobre a qual vamos votar; basicamente o que nos vão perguntar é:

"Acha que não é crime interromper a gravidez .....?"
Como é que se deve responder?
Não, acho que não é.
Sim, acho que não é.

Confesso; estou baralhado.


Assertivo (Lat. assertivu), adj. Que encerra acerto; afirmativo.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Multidão 2


Eu, tu, ele, nós, vós, eles

Li há pouco dois argumentos de um defensor do NÃO que ainda não conhecia (os argumentos, que o adepto continuo a não conhecer).

São eles:

“Coloquemo-nos na pele do outro; coloquemo-nos na pele do embrião que já sente e tentemos imaginar o que será sermos cortados em pedaços a sangue frio ou envenenados. E não é um embrião qualquer, é o nosso futuro filho.”

“Acho que se trata verdadeiramente de um crime horrendo (matar o próprio projecto de filho!)e não compreendo como é possivel que se faça.”


Ora não “compreende como é possível que se faça” mas, ao usar isso como argumento, mostra que crê que compreende tudo o que há para compreender.

Aqui está o cerne de uma questão infelizmente presente neste como em todos os referendos e eleições: o EU quando o que faz falta é pensar o NÓS, principalmente no que isso tem de não-EU.

Apetece devolver o conselho: “coloquemo-nos na pele do outro”; não do embrião que isso parece ser muito difícil; é bem mais fácil: “coloque-se cada um na pele de um semelhante a si”. E não só neste referendo mas em todos os referendos e eleições que venham a acontecer.

Com o tempo aprenderemos a fazer isso durante o resto do tempo também.

domingo, janeiro 07, 2007


ESPIRAL

quantos como eu
um agente secreto
muito incompetente
- espião ao contrário
de um país
que é
e
nada.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

"Quem muda seus males estuda"

Mudei o aspecto da coisa e os comentários foram-se. Não eram muitos mas eram bons e queridos. Enfim. Eram tantos que, não só mas também por isso, me lembro de cada um deles. Obrigado.
Pelo SIM à despenalização da IVG ou pelo SIM ao aborto, resumindo: pelo SIM, seja lá por que motivo for.

O referendo à despenalização da IVG está a dar que falar e está a custar-me perceber porquê; sinceramente.
  • Não é óbvio que não se pode julgar uma mulher que recorre à IVG?
  • Não é óbvio que um dentista sem habilitações é um criminoso?
  • Não é óbvio que despenalizar pode significar tudo menos combater a clandestinidade?
  • Não é óbvio que o recurso a “clínicas” de vão-de-escada não tem nada a ver com penas, tão pouco com dinheiro?
  • Não é óbvio que despenalizar não significa incentivar?
  • Não é óbvio que os números apresentados por gregos e troianos não têm a mais pequena hipótese de confirmação?
  • Não é óbvio que uma IVG não poderá estar sujeita a lista de espera?
  • Não é óbvio que há problemas de saúde pública de resolução muito mais urgente?
  • Não é óbvio que uma gravidez é evitável e até (já) interrompível?
  • Não é óbvio que o assunto diz respeito à mulher como ao homem?
  • Não é óbvio que as questões de ordem moral (psicológica) se sobrepõe às de ordem física?
  • Não é óbvio o significado da palavra “des-pe-na-li-za-ção”?
  • Não é óbvio que “despenalizar” não significa automaticamente “criar condições para que o sistema de saúde público trate do assunto”?
  • Não é óbvio que (felizmente) a maioria das pessoas (de ambos os lados) que argumenta sobre o assunto não faz a mais pequena ideia do que é passar por isso?
  • Não é óbvio que ser a favor da despenalização (do “sim”, para ser claro) implica ser militantemente contra o aborto?
  • Não é óbvio que ser contra a despenalização (do “não”, para ser outra vez claro) implica ser militantemente contra a ignorância?
  • Não é óbvio que a religião professada tem tanto a ver com o assunto como o concelho de naturalidade?
  • Não é óbvio que a competência de legislar cabe à Assembleia da República?
  • Não é óbvio que ninguém melhor que o governo tem (ou deveria ter) a informação relevante para decidir sobre o assunto?
  • Não é óbvio que isto do referendo é apenas uma questão política, no que de pior tem a dita?
  • Não é óbvio que depois do referendo, qualquer que seja o resultado, tudo o que importa estará ainda por fazer?
  • Não é óbvio que esse tudo, então como agora, cabe à tal Assembleia da República fazê-lo?
  • Não é tão escancaradamente óbvio que isto é um não-problema?

Não, nada disto parece ser óbvio e por isso se vai fazer um referendo.

Por isso, embora correndo o risco de contribuir para um resultado certo por motivos maioritariamente errados, eu vou votar sim e esperar que se acabe de vez com esta discusão idiota de país de idiotas sem mais o que fazer.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

O nosso reino, valter hugo mãe, temas e debates

Ando a ler este livro com um atraso de dois anos e suspeito que não vou conseguir acabá-lo. Não porque seja difícil, ou terrível, ou triste, ou alegre, ou isto, ou aquilo; apenas porque não quero deixá-lo.

Estou no bom caminho: ainda não comecei o segundo capítulo, página 27. Mas já acabei o primeiro, várias vezes.

Não sei descrever o que me parece este livro. Deixo apenas uns recortes do pouco que já li, várias vezes: o primeiro capítulo.

se estivemos juntos, foi pelo funeral da minha avó. acabado que estava o dia voltávamos para cada casa sozinhos e separados novamente, impedidos de julgar asneiras por coisas certas os dois ao mesmo tempo. haveria de ser à vez, cada um na sua vez, a decidir pelas asneiras. o que facilitava a vida dos adultos.

fechei os olhos no caminho, mão dada à minha mãe a puxar por mim aos esticões.

e o manuel estava à porta da sua casa, comprometido, a silenciar algo. pela primeira vez vi-o como um estranho, outra pessoa, não outra pessoa que não ele, mas simplesmente uma outra pessoa, não eu

eu não posso ir, tu sabes que a minha mãe está muito doente, agora piorou, e o meu pai resolveu que vamos à missa mais tarde. iam à missa dos pecadores, dos que se atrasam, dos que não querem ir.

jurei que o manuel me abandonou naquele dia, não fui eu, não foi coisa da minha cabeça. deixou de me fitar, agarrou no portão como se se protegesse contra mim, e silenciou-se de vez, como quem não me falaria mais, fechado sobre si mesmo para me deixar fora da sua vida. e eu fui, passei em corrida pela minha mãe, caí, abri os joelhos de feridas, e magoado corri de novo

a chuva (...). mal a vi, começara naquele exacto instante em que avistei o rochedo, e a ele assomei na minha corrida sem hesitações, como um cavalo, e voei até à água que bateu no meu corpo adormecendo-o.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Les choristes




"Duas pessoas ficaram feridas, uma delas um adolescente de 13 anos, esta terça-feira à noite, em Israel, quando militantes palestinos dispararam um rockete que caiu na cidade israelita de Sdérot, na Faixa de Gaza. Uma das crianças está em estado crítico."

"Governo israelita promete resposta."

Segundo a Wikipedia, os primeiros indícios da Lei de talião foram encontrados no Código de Hamurabi, em 1730 a.C., no reino da Babilônia. Essa lei permite evitar que as pessoas façam justiça elas mesmas, introduzindo, assim, um início de ordem na sociedade com relação ao tratamento de crimes e delitos.

Por outro lado, ainda segundo a mesma fonte, está também no Direito hebraico (Êxodo, cap. 21, vers. 23/5): o criminoso é punido taliter, ou seja, talmente, de maneira igual ao dano causado a outrem.

Dar a outra face é coisa mais recente e não se trata disso.

É de comum senso que violência gera violência. Mas, como todos os lugares comuns, perdeu sentido e valor porque a sua razoabilidade se baseia apenas no porque sim.

Não é óbvio que toda a violência tenha que gerar violência (ou então a paz é algo impossível de atingir) mas interromper esta cadeia implica não responder à violência com violência e isso é sinal de fraqueza. Por isso se procura impôr ao outro esse passo.

Isto é: procura-se através da utilização de actos violentos obrigar o outro a abdicar da violência. Ou muito me engano ou isto só pode ser conseguido através do extermínio de uma das partes, ou até de ambas.

Nenhum feliz desfecho à vista, portanto, e ainda bem para todos os "interessados" nestas confusões; o povo é outra coisa.

Quem sabe a que propósito, revi ontem na 2 o filme "Os coristas"

PS: talião escreve-se com t e não com T porque não é um nome.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

De uma lista bem maior publicada no último Expresso, fiz uma selecção. O quê e o porquê (ou não).

NOTA: Os preços são os indicados pelo Expresso, suspeito que alguns deles estejam um pouco inflacionados não sei por que artes. A Leitura, a Bertrand e a FNAC diferem um pouco em alguns deles.

Eis então a wishlist (que não é bem uma lista de desejos) para este Natal (ou natal; não, não sou o único...). Feliz isso e boas compras. Para me enviarem os livros, contactem-me para o email ao lado que eu enviarei a morada postal. Obrigado.


Tipografia - Origens, Formas e Uso das Letras
Paulo Heitlinger
Dinalivro
36.75?


Porque me fascina o gráfico, a capacidade de sintetizar, e ao contrário dos cães, o sentido da visão relativamente mais apurado que o do olfacto.



Até onde se pode ir?
David Lodge
ASA

13.00?

Porque sim.


Cidade de Vidro
Paul Auster, Paul Karasik, David Mazzucchelli
ASA

15.00?

Porque é do Paul Auster, alguém que não faço a mínima ideia quem seja (aliás como todos os ouros acima e abaixo)


O animal moribundo
Philip Roth
Dom Quixote

15.00?

Porque gosto do António Lobo Antunes e não acredito em toda a gente.


Correspondência 1959-1978
Sophia & Sena
Guerra & Paz

22.00?

Mironisses!


Kafka à Beira-Mar
Haruki Murakami
Casa das Letras

20.00?

Murakami era um mestre de karate já falecido; não deve ser relacionado com este.

Porque não?


Borges e a Matemática
Guillermo Martínez
Ambar

16.00?

Pela matemática


Os dias loucos do PREC
Adelino Gomes, José Pedro Castanheira
Expresso/Público

19.90?

Porque nunca consegui compreender o que pode haver de extraordinário num verão ... quente?!?!