Hoje assim é: vi o António Lobo Antunes. Vi, e falei com ele; se falar for dizer algo.
Ele a olhar para mim, à espera e eu: David e ele: David nome bíblico e eu: nada.
Extraordinário mas não foi tudo.
Devo andar carente porque me sinto à procura.
Falo de livros. E não vou atrás, não porque vá à frente; vou simplesmente à procura.
Acho que só se pode ir à procura assim sem ir atrás, tão pouco à frente, de livros de poesia. E o encontro é rápido, é prático, sem sedução: é brutal.
Não acredito que se consiga coisa assim num folheio de um romance.
"quién no ha buscado el placer nítido?
quién no ha intentado organizar un desenlace sin escombros?"
Inventário Dos
Mario Benedetti
Pág. 187
A poesia aborda-me como uma puta: sem rodeios.
minutos depois o horizonte
aos poucos vou sabendo mais:
menos
e menos
e pouco antes de saber tudo:
nada,
ainda então será viver:
última ciência.
por isso,
quando minutos-depois-o-horizonte
de onde se avistam muitos mais barcos vivos
e se vence ou esquece o horror a gaivotas,
não me faltes;
dar medida ao inconcebido
é como cortar a mão que resta
sem auxílio.
depois, sim,
não mais um-dia,
ainda que promessa,
pois que em um-dia o tempo inteiro.
david fernandes
COISAS QUE SE DIZEM
Chegar de automóvel a uma cidade estranha é para mim o momento de pânico culminante de, pelo menos, três dias de sofisticados cálculos relacionados com distâncias, conversões numéricas de decimais para sexagesimais e vice-versa, médias horárias e outras variáveis impossíveis de determinar, talvez por isso chamadas de variáveis.
Conduzir um automóvel numa cidade grande e estranha não é das minhas actividades preferidas. Ainda menos porque preciso de ler as placas toponímicas das ruas sem me distrair o suficiente para me deparar com a surpresa de um automóvel parado no meu caminho, tarde demais, demasiado perto.
Em primeiro lugar, é difícil ler os nomes das ruas gravados nas suas placas, à distância a que passo delas. E depois porque, conseguindo ler um deles, tenho que olhar o mapa que sempre me acompanha nestas aventuras de modo a conseguir localizar-me no todo mais geral da grande cidade.
Canso-me sempre muito depressa deste vaivém de olhares e então dou início à busca de um transeunte (acontece sempre isto e nem sei porque ainda transporto mapas).
Nada fácil. É que além de não poder tirar os olhos da estrada por mais de meio segundo, preciso de encontrar alguém com a característica pouco definida de parecer "um local" (um indígena, portanto). Deve ser alguém que conheça a cidade, ou pelo menos aquela parte da cidade, partindo do princípio idiota de que aquela parte da cidade onde me encontro será a mesma parte da cidade que contêm o local para onde pretendo dirigir-me. Ter este raciocínio em relação a uma grande cidade é o mesmo que sentir dores num joelho e achar que o problema se resolve com um xarope expectorante.
Mas enfim, sempre se pode ter a sorte de encontrar um especialista que conheça toda a cidade, ou pelo menos, o meu destino e ao contrário de mim não se encontre perdido, isto é: saiba onde está.
Uma vez identificado o indivíduo, outro problema surge: como chegar até ele? Normalmente, quando tal alma me aparece em linha de vista, o meu automóvel encontra-se na faixa de rodagem do lado oposto, pelo que uma ou outra manobra perigosa vão ser necessárias para chegar até ele. Umas quantas buzinadelas, palavrões e gestos estranhos em forma de pássaro depois, lá estou.
Abro a janela do lado direito e chamo, tendo o cuidado de não parecer muito brusco não vá aquele mapa ambulante assustar-se e ter pensamentos estranhos sobre os meus propósitos. Pergunto-lhe como se vai para tal sítio assim e assado, rezando para que o tipo não diga algo como "não sou daqui" mas também esperando não ter encontrado alguém que queira descrever com exagerado pormenor todo o caminho a percorrer.
- "Alameda da República... hum, deixa cá ver... já sei." - é um momento de felicidade plena.
- "O senhor segue em frente. A rua vai começar a subir ligeiramente, esteja atento a um edifício azul que lhe aparecerá do lado direito, porque depois começará a descer de novo. Cerca de 350 metros depois tem à sua direita a Alameda da República".
- "Muito obrigado e boa tarde."
- "Não por isto, homem!"
- " !!! "
- "Não há como falhar; naquela zona é a única rua arborizada."
- "Arborizada."
- "Sim, plátanos. Os maiores e mais antigos do país, talvez até da Europa."
- " !!! "
- "Não me diga que nunca ouviu falar nos Plátanos da Alameda!!!!"
A Ana não me fala há muitos dias e atrás de mim um de dois rapazes fala sobre, como se fosse para, a rapariga que se cruzou connosco antes de entrarmos na escada tão rolante como um automóvel é (há coisas que não entendo).
- Ai se fosses minha irmã: tenho medo mana, deixa-me dormir na tua cama.
O outro a rir, a dizer qualquer coisa que eu não percebi e eu p'ra mim a corrigir: é mãe; ai se fosses minha mãe.
- Sabes lá que bom seria.
O outro parou de rir só para dizer outra coisa, ou a mesma, e eu p'ra mim a corrigir:
- Mãe.
Rolávamos com a escada andar abaixo, sete passos depois as portas de vidro rolariam também para quem quisesse sair dali, e penso na Ana que não me fala há muitos dias porque sei que não faria como eu, p'ra mim sempre a corrigir ou sempre p'ra mim a corrigir; a Ana chama as coisas pelos seus nomes e ninguém precisa de estar p'ra si a corrigir.
A Ana diria algo mas não está aqui, também por isso penso nela.
Um pouco mais tarde voltei a encontrar os dois rapazes dos quais um gostaria de ter irmã, enganou-se ele, ou a tendo fosse diferente do que é para que quando tivesse medo pudesse dizer: - tenho medo mamã (devia ter dito), deixa-me dormir na tua cama.
Pensei p'ra mim outra vez porque não me fala a Ana há muitos dias e à minha frente um dos dois rapazes fala para, como se fosse sobre, o outro:
- Eu sei do que gostam as mulheres, pá.
O outro quase a rir e eu p'ra mim a pensar: - estou a demorar demasiado tempo a perceber isso e estou a perder algo; ou alguém está.