7 Abril
“Papá! A professora disse, hoje, que quem tiver a ‘cópia mais perfeitinha’, pode começar a utilizar esferográfica” disse a pequena quando me viu, chegado a casa tarde como sempre, interrompendo a tal cópia, que tudo significava, que tinha como trabalho de casa.
Disse-me isto com um tal brilho no olhar que não pude deixar de me sentir comovido; “como o tempo passa!” pensei.
Sei a razão da alegria da miúda: afinal, dava-se conta de mais um passo a caminho da idade adulta (os adultos escrevem com esferográfica).
Voltei a pensar: “como o tempo passa!”.
A cópia foi das mais perfeitinhas e hoje, a Beatriz, tem cuidados redobrados na utilização da sua nova ferramenta.
Não pode, ainda, dar-se conta do significado profundo do “definitivo” que a esferográfica tem ligado a si, nem pode dar; mas já sabe que os erros feitos a esferográfica não podem apagar-se.
Não posso deixar de admirar a coragem com que a miúda se lança, desde aquele dia, nesta nova tarefa de grande responsabilidade.
Não posso deixar de me espantar com a forma como, por esse mundo fora, tanta gente utiliza esferográfica nos seus afazeres sem se dar conta do quão definitivo é o resultado da sua acção.
E se em muitos casos é impossível “escrever a lápis”, seria de esperar dessa gente, pelo menos, o cuidado que a Beatriz põe nas suas cópias.
segunda-feira, maio 19, 2003
quinta-feira, março 27, 2003
27 Março
Esta noite tive um sonho.
Acordei com o coração a tentar forçar a saída do corpo e todo mijado.
Nesse sonho, vivia numa terra que me pareceu esta terra. E nessa terra,
nesse dia, nesse pequeno espaço de tempo percorrido pelo meu sonho,
homens e mulheres, novos e velhos, pretos, brancos e amarelos
abraçavam-se.
A onda de emoção era tão grande que muitos não conseguiam sobreviver ao
acelerar dos seus corações e caíam fulminados; outros, como gatos,
mijavam-se de excitação e alegria imensa.
Os jornalistas tentavam acorrer com a sua parafernália tecnológica aos
inúmeros grupos que espontaneamente se formavam por todo o mundo: da
Finlândia à África do Sul, do Japão à Guatemala, ignorando que ninguém
estava a ver ou a ouvir as suas reportagens.
Ainda pensei que esse era o dia em que “todos os povos falarão uma só
língua” mas em lado nenhum se ouviam vozes. As pessoas limitavam-se a
trocar abraços, sorrisos, lágrimas ... e mijo.
Pensei: é esta a terra onde eu quero viver para sempre.
Mas, entretanto, acordei na única terra onde posso viver, chamei aquela
terra louca e dela trouxe apenas a memória que se esfuma a cada segundo
e o mijo, que nesta é um incómodo.
Esta noite tive um sonho.
Acordei com o coração a tentar forçar a saída do corpo e todo mijado.
Nesse sonho, vivia numa terra que me pareceu esta terra. E nessa terra,
nesse dia, nesse pequeno espaço de tempo percorrido pelo meu sonho,
homens e mulheres, novos e velhos, pretos, brancos e amarelos
abraçavam-se.
A onda de emoção era tão grande que muitos não conseguiam sobreviver ao
acelerar dos seus corações e caíam fulminados; outros, como gatos,
mijavam-se de excitação e alegria imensa.
Os jornalistas tentavam acorrer com a sua parafernália tecnológica aos
inúmeros grupos que espontaneamente se formavam por todo o mundo: da
Finlândia à África do Sul, do Japão à Guatemala, ignorando que ninguém
estava a ver ou a ouvir as suas reportagens.
Ainda pensei que esse era o dia em que “todos os povos falarão uma só
língua” mas em lado nenhum se ouviam vozes. As pessoas limitavam-se a
trocar abraços, sorrisos, lágrimas ... e mijo.
Pensei: é esta a terra onde eu quero viver para sempre.
Mas, entretanto, acordei na única terra onde posso viver, chamei aquela
terra louca e dela trouxe apenas a memória que se esfuma a cada segundo
e o mijo, que nesta é um incómodo.
segunda-feira, março 03, 2003
“Hoje, num vento do norte,
fogo de outra sorte,
sigo para o sul.
Sete mares.”
canta a Sétima Legião.
Será o vento frio do norte que nos empurra para o calor do sul?
Será necessário?
Será o sofrimento que nos empurra para a felicidade? Caramba!
Pode ser, pode!
E o contrário? Não é, afinal, a vida que nos leva à morte?
Fiquei, de repente, preocupado: para onde “segue” alguém que, como eu,
vive dias de felicidade?
O que há para lá do bem?
fogo de outra sorte,
sigo para o sul.
Sete mares.”
canta a Sétima Legião.
Será o vento frio do norte que nos empurra para o calor do sul?
Será necessário?
Será o sofrimento que nos empurra para a felicidade? Caramba!
Pode ser, pode!
E o contrário? Não é, afinal, a vida que nos leva à morte?
Fiquei, de repente, preocupado: para onde “segue” alguém que, como eu,
vive dias de felicidade?
O que há para lá do bem?
"O Aprendiz de Feiticeiro" é um conjunto de crónicas de Carlos de Oliveira.
Numa delas, "A dádiva suprema", o autor fala sobre o poeta Afonso Duarte.
A crónica termina no funeral deste e com estas palavras:
"Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem
gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:
A dádiva suprema é dar a vida
ao silêncio de pedra que é a morte.
Larga-me da vida, morte,
faz-me da morte pedra.
Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no
depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas."
Belas palavras; de um e outro.
Numa delas, "A dádiva suprema", o autor fala sobre o poeta Afonso Duarte.
A crónica termina no funeral deste e com estas palavras:
"Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem
gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:
A dádiva suprema é dar a vida
ao silêncio de pedra que é a morte.
Larga-me da vida, morte,
faz-me da morte pedra.
Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no
depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas."
Belas palavras; de um e outro.
sexta-feira, fevereiro 28, 2003
Entrevista na rádio, rápida. O noticiário, impaciente, à espera da sua vez.
Uma entrevistada, Drª, respondia a questões sobre os estabelecimentos prisionais; os dramas que lá se vivem: a droga, as doenças infecto-contagiosas, a claustrofobia; assuntos importantes sobre os quais há que pensar para reformular.
Tudo certo.
A Drª, não sei se por força da rapidez da entrevista que exigia palavras mais depressa do que o seu cérebro poderia elaborar, iniciava, invariavelmente, cada resposta, cada afirmação, com uma expressão que me lembrou algo que escrevi em tempos:
"No nosso ponto de vista..."
O plural do possessivo justifica-se já que ela estava a falar em nome de uma organização, um conjunto de pessoas.
Já o "ponto de vista" não consigo explicar muito bem.
Não estaria a falar, com toda a certeza, segundo o MEU ponto de vista!!!
Por isso, encarei a utilização da expressão como muleta, como pequeno atraso, enquanto o seu cérebro procurava colocar em ordem as palavras que se lhe iriam seguir.
O facto de utilizar a expressão tantas vezes, levou-me a pensar no que diabo seria o "ponto de vista": se seria um ponto tão estático, imóvel, de onde eles viam tudo?!?
E levou-me a pensar se não seria melhor eles experimentarem mudar, algumas vezes, de ponto de observação, em função do problema que estivessem a observar?!?!
E concluí que eventualmente o fariam, e então, cada um dos "pontos de vista" que referiu a Drª não seriam a repetição de um mesmo ponto de observação mas sim de um diferente ante cada objecto observado.
E assim se justificaria a repetição até à exaustão.
Tudo certo.
A coisa complicou-se quando a dita Drª, numa das muitas repetições da já referida expressão lhe acrescenta: "eu penso que!"
"No nosso ponto de vista, eu penso que ..."
E esta pequena frase deitou por terra todo o meu raciocínio de até então.
Voltei a lembrar-me da tal coisa que escrevi em tempos, enquanto mudava de emissora.
Uma entrevistada, Drª, respondia a questões sobre os estabelecimentos prisionais; os dramas que lá se vivem: a droga, as doenças infecto-contagiosas, a claustrofobia; assuntos importantes sobre os quais há que pensar para reformular.
Tudo certo.
A Drª, não sei se por força da rapidez da entrevista que exigia palavras mais depressa do que o seu cérebro poderia elaborar, iniciava, invariavelmente, cada resposta, cada afirmação, com uma expressão que me lembrou algo que escrevi em tempos:
"No nosso ponto de vista..."
O plural do possessivo justifica-se já que ela estava a falar em nome de uma organização, um conjunto de pessoas.
Já o "ponto de vista" não consigo explicar muito bem.
Não estaria a falar, com toda a certeza, segundo o MEU ponto de vista!!!
Por isso, encarei a utilização da expressão como muleta, como pequeno atraso, enquanto o seu cérebro procurava colocar em ordem as palavras que se lhe iriam seguir.
O facto de utilizar a expressão tantas vezes, levou-me a pensar no que diabo seria o "ponto de vista": se seria um ponto tão estático, imóvel, de onde eles viam tudo?!?
E levou-me a pensar se não seria melhor eles experimentarem mudar, algumas vezes, de ponto de observação, em função do problema que estivessem a observar?!?!
E concluí que eventualmente o fariam, e então, cada um dos "pontos de vista" que referiu a Drª não seriam a repetição de um mesmo ponto de observação mas sim de um diferente ante cada objecto observado.
E assim se justificaria a repetição até à exaustão.
Tudo certo.
A coisa complicou-se quando a dita Drª, numa das muitas repetições da já referida expressão lhe acrescenta: "eu penso que!"
"No nosso ponto de vista, eu penso que ..."
E esta pequena frase deitou por terra todo o meu raciocínio de até então.
Voltei a lembrar-me da tal coisa que escrevi em tempos, enquanto mudava de emissora.
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JANELA Mar de gente e uma janela. Eu, aqui, vejo tudo. Ninguém me vê mas eu vejo tudo. Tanta gente, tantos caminhos: uma teia, gotas de tinta fresca e sopros de indiferença. Como eu, cada uma dessas pessoas poderá dizer: "Mar de gente, eu vejo tudo!". Ah! Mas para além desta janela só eu vejo. novembro 2002 |
A Drª tinha, entretanto, parado de dizer "no nosso ponto de vista", o noticiário das 9 começava e aí vinham notícias de desgraça que eu não queria ouvir; iam falar-me novamente de pontos de vista: o do Bush, o da ONU, e do Iraque e, como já disse há dias, a razão está de todos os lados precisamente, sei hoje, porque todos agem e falam de acordo com os seus pontos de vista.
E tudo está certo!
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