segunda-feira, maio 19, 2003

29 de Abril

Hoje é um daqueles dias, cada vez mais frequentes com o crescente efeito do oxigénio no meu corpo (dizem os especialistas em envelhecimento), em que não me levantei da cama de bom grado.

Ao que parece, envelhecemos porque oxidamos.

Lembrei-me das janelas de casa dos meus avós maternos, todas em madeira, e da recusa do meu avô em as envernizar; dizia que cada dia estavam mais bonitas; e estavam. A minha avó dizia: desmazelo. Pontos de vista.

Lembrei-me do banco de jardim que o meu pai havia comprado num leilão de velharias e servia agora quem quisesse descansar no minúsculo pátio lá de casa. Lembrei-me da ferrugem que alastrava sob camadas de esmalte verde que o meu pai ia renovando e da forma enrugada que dava às rosetas, travessões e curvas de que a estrutura metálica do banco era composta. A minha mãe dizia: preguiça. Pontos de vista.

Belas janelas, belo banco.

Não me animei muito com a ideia.

Concluo que a tal oxidação dos seres afecta também a capacidade de apreciar o mundo e as coisas.

Já no automóvel e a caminho do trabalho a rádio; sempre.

Notícia do dia: “Hoje, dia 29 de Abril, é o dia Mundial da Dança e, na Faculdade de Motricidade Humana, múltiplas iniciativas terão lugar para comemorar este dia”.

Dança? Faculdade? Motricidade Humana?

Imaginei uma quantidade de fórmulas, um sem-número de desenhos anatómicos, infindáveis cálculos sobre consumos energéticos, etc, de dois corpos envolvidos numa dança e .....

mortos, já se vê!
24 Abril

Dia Mundial do Livro, Dia Mundial Disto e Dia Mundial Daquilo.

Um “Dia Mundial de ...” é como uma missa, em que se fazem coisas que poderiam fazer-se noutro dia qualquer, mas não: assinala-se o dia específico e, sendo mundial, todo o mundo faz coisas relacionadas com o assunto pretendido.

Tenho pavor a dias mundiais, quase tanto quanto tenho pavor a missas.

É que sou levado a esperar pelo tal dia para fazer algo que poderia já ter feito antes, noutro dia qualquer mais a meu jeito.

Gosto muito mais dos outros dias que, tanto quanto eu saiba, não são dias mundiais de coisa alguma.

Embrenhado nestes pensamentos, ainda aromatizado com o dia de ontem, dou comigo a pensar num senhor, prémio nobel da literatura logo autor de alguns livros, inglês, filósofo e matemático; Bertrand Russell.

Este senhor não devia preocupar-se muito com “Dias Mundiais” e coisas que tais, senão não tinha arranjado, pelos seus próprios meios, uma forma de quase acabar com a matemática; afinal, o seu ganha pão.

Pois foi assim que num belo dia este homem se depara com um paradoxo lógico, (que ficou conhecido como o Paradoxo de Russell), obra mental tal que quase arruinou séculos de pensamento matemático.

É um problema de uma área da matemática denominada: Teoria dos Conjuntos.

Algo do tipo: conjunto dos conjuntos que não são membros deles próprios.

Rio-me, porque penso nisto a propósito de uma ideia maluca de implantar o Dia Mundial dos Dias Que não são Dias Mundiais, afinal, os meus preferidos; e se, o dia que eu viesse a escolher, seria ou não um dia a comemorar na festança que eu, diligente, trataria de organizar.

A resposta é óbvia.

Seria se não fosse.
Deixaria de o ser se o fosse.
23 Abril - Dia Mundial do Livro

Hoje terminei, enquanto almoçava, um livro.

A vida faz da hora do almoço, a minha hora de leitura, enfim.

Procuro escolher, sempre, pratos que não me ocupem ambas as mãos. Hoje: macarrão com bacon e natas.

Livrinho na mão esquerda, com a direita, encho a boca tanto quanto possa para poder numa mastigadela ler uma ou duas páginas.

Almoçando no centro comercial, sentou-se ao meu lado esquerdo uma senhora que, como não trazia leitura, pode escolher comer uma bela de uma dourada grelhada.

Nos fugazes momentos em que os meus olhos passavam do papel para o macarrão e vice-versa, pude apreciar a dona a usar ambas as suas cuidadas mãos no manuseio da sua pobre dourada de olhos arregalados, coitada.

Não invejei: nem a dourada nem a senhora.

Bom! Numa dessas rápidas viagens de olhos pude ver a senhora olhar para os meus lados e voltar a mirar o seu prato com uma expressão, se me é permitido dizer, de nojo.

Imaginei que fosse motivada pelo deplorável espectáculo proporcionado por duas bochechas inchadas numa boca repleta de macarrão com bacon e natas mas não. E digo não, ou pelo menos não só, porque pude confirmar.

Quando acabei a leitura, ainda restava algum macarrão no prato pelo que pousei o livro na mesa mesmo entre nós os dois e reparei que ela fazia a mesma cara de horror sempre que olhava a capa do livro; “O beijo ao leproso”, François Mauriac.

Imaginei, meio divertido, a cara que faria, sabendo que eu enquanto comia macarrão, tinha estado a ler um livro que trouxe da biblioteca, se eu lhe mostrasse a “Advertência ao Leitor” que o livro trás consigo logo na primeira página e que é:

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ADVERTÊNCIA AO LEITOR

No seu próprio interesse, pre-
zado Leitor, verifique se
este livro mantém o lacre branco
que sela algumas das suas pági-
nas; neste caso, abra-o, por favor,
como abriria um livro não gui-
lhotinado, isto é, com uma faca,
até com um simples cartão, e
assim não rasgará as folhas.
Se o livro estiver todo aberto,
rejeite-o, pois é indício de que
já foi lido. Defenda a sua saúde
não manuseando livros usados.
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Tive vontade de lhe dizer que hoje era o Dia Mundial do Livro e tal, mas temi que a dona se saísse com alguma do tipo: “Até podia ser o dia mundial do macarrão!”
7 Abril

“Papá! A professora disse, hoje, que quem tiver a ‘cópia mais perfeitinha’, pode começar a utilizar esferográfica” disse a pequena quando me viu, chegado a casa tarde como sempre, interrompendo a tal cópia, que tudo significava, que tinha como trabalho de casa.

Disse-me isto com um tal brilho no olhar que não pude deixar de me sentir comovido; “como o tempo passa!” pensei.

Sei a razão da alegria da miúda: afinal, dava-se conta de mais um passo a caminho da idade adulta (os adultos escrevem com esferográfica).

Voltei a pensar: “como o tempo passa!”.

A cópia foi das mais perfeitinhas e hoje, a Beatriz, tem cuidados redobrados na utilização da sua nova ferramenta.

Não pode, ainda, dar-se conta do significado profundo do “definitivo” que a esferográfica tem ligado a si, nem pode dar; mas já sabe que os erros feitos a esferográfica não podem apagar-se.

Não posso deixar de admirar a coragem com que a miúda se lança, desde aquele dia, nesta nova tarefa de grande responsabilidade.

Não posso deixar de me espantar com a forma como, por esse mundo fora, tanta gente utiliza esferográfica nos seus afazeres sem se dar conta do quão definitivo é o resultado da sua acção.

E se em muitos casos é impossível “escrever a lápis”, seria de esperar dessa gente, pelo menos, o cuidado que a Beatriz põe nas suas cópias.

quinta-feira, março 27, 2003

27 Março

Esta noite tive um sonho.

Acordei com o coração a tentar forçar a saída do corpo e todo mijado.

Nesse sonho, vivia numa terra que me pareceu esta terra. E nessa terra,
nesse dia, nesse pequeno espaço de tempo percorrido pelo meu sonho,
homens e mulheres, novos e velhos, pretos, brancos e amarelos
abraçavam-se.

A onda de emoção era tão grande que muitos não conseguiam sobreviver ao
acelerar dos seus corações e caíam fulminados; outros, como gatos,
mijavam-se de excitação e alegria imensa.

Os jornalistas tentavam acorrer com a sua parafernália tecnológica aos
inúmeros grupos que espontaneamente se formavam por todo o mundo: da
Finlândia à África do Sul, do Japão à Guatemala, ignorando que ninguém
estava a ver ou a ouvir as suas reportagens.

Ainda pensei que esse era o dia em que “todos os povos falarão uma só
língua” mas em lado nenhum se ouviam vozes. As pessoas limitavam-se a
trocar abraços, sorrisos, lágrimas ... e mijo.

Pensei: é esta a terra onde eu quero viver para sempre.

Mas, entretanto, acordei na única terra onde posso viver, chamei aquela
terra louca e dela trouxe apenas a memória que se esfuma a cada segundo
e o mijo, que nesta é um incómodo.

segunda-feira, março 03, 2003

“Hoje, num vento do norte,
fogo de outra sorte,
sigo para o sul.
Sete mares.”


canta a Sétima Legião.

Será o vento frio do norte que nos empurra para o calor do sul?
Será necessário?

Será o sofrimento que nos empurra para a felicidade? Caramba!
Pode ser, pode!

E o contrário? Não é, afinal, a vida que nos leva à morte?

Fiquei, de repente, preocupado: para onde “segue” alguém que, como eu,
vive dias de felicidade?

O que há para lá do bem?
"O Aprendiz de Feiticeiro" é um conjunto de crónicas de Carlos de Oliveira.

Numa delas, "A dádiva suprema", o autor fala sobre o poeta Afonso Duarte.
A crónica termina no funeral deste e com estas palavras:

"Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem
gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:

A dádiva suprema é dar a vida
ao silêncio de pedra que é a morte.
Larga-me da vida, morte,
faz-me da morte pedra.


Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no
depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas."

Belas palavras; de um e outro.

sexta-feira, fevereiro 28, 2003

Entrevista na rádio, rápida. O noticiário, impaciente, à espera da sua vez.

Uma entrevistada, Drª, respondia a questões sobre os estabelecimentos prisionais; os dramas que lá se vivem: a droga, as doenças infecto-contagiosas, a claustrofobia; assuntos importantes sobre os quais há que pensar para reformular.

Tudo certo.

A Drª, não sei se por força da rapidez da entrevista que exigia palavras mais depressa do que o seu cérebro poderia elaborar, iniciava, invariavelmente, cada resposta, cada afirmação, com uma expressão que me lembrou algo que escrevi em tempos:

"No nosso ponto de vista..."

O plural do possessivo justifica-se já que ela estava a falar em nome de uma organização, um conjunto de pessoas.

Já o "ponto de vista" não consigo explicar muito bem.

Não estaria a falar, com toda a certeza, segundo o MEU ponto de vista!!!

Por isso, encarei a utilização da expressão como muleta, como pequeno atraso, enquanto o seu cérebro procurava colocar em ordem as palavras que se lhe iriam seguir.

O facto de utilizar a expressão tantas vezes, levou-me a pensar no que diabo seria o "ponto de vista": se seria um ponto tão estático, imóvel, de onde eles viam tudo?!?

E levou-me a pensar se não seria melhor eles experimentarem mudar, algumas vezes, de ponto de observação, em função do problema que estivessem a observar?!?!

E concluí que eventualmente o fariam, e então, cada um dos "pontos de vista" que referiu a Drª não seriam a repetição de um mesmo ponto de observação mas sim de um diferente ante cada objecto observado.

E assim se justificaria a repetição até à exaustão.

Tudo certo.

A coisa complicou-se quando a dita Drª, numa das muitas repetições da já referida expressão lhe acrescenta: "eu penso que!"

"No nosso ponto de vista, eu penso que ..."

E esta pequena frase deitou por terra todo o meu raciocínio de até então.

Voltei a lembrar-me da tal coisa que escrevi em tempos, enquanto mudava de emissora.

JANELA

Mar de gente e uma janela.
Eu, aqui, vejo tudo.
Ninguém me vê mas eu vejo tudo.
Tanta gente, tantos caminhos:
uma teia, gotas de tinta fresca e sopros de indiferença.
Como eu, cada uma dessas pessoas poderá dizer:
"Mar de gente, eu vejo tudo!".
Ah! Mas para além desta janela
só eu vejo.

novembro 2002

A Drª tinha, entretanto, parado de dizer "no nosso ponto de vista", o noticiário das 9 começava e aí vinham notícias de desgraça que eu não queria ouvir; iam falar-me novamente de pontos de vista: o do Bush, o da ONU, e do Iraque e, como já disse há dias, a razão está de todos os lados precisamente, sei hoje, porque todos agem e falam de acordo com os seus pontos de vista.

E tudo está certo!