segunda-feira, março 03, 2003

“Hoje, num vento do norte,
fogo de outra sorte,
sigo para o sul.
Sete mares.”


canta a Sétima Legião.

Será o vento frio do norte que nos empurra para o calor do sul?
Será necessário?

Será o sofrimento que nos empurra para a felicidade? Caramba!
Pode ser, pode!

E o contrário? Não é, afinal, a vida que nos leva à morte?

Fiquei, de repente, preocupado: para onde “segue” alguém que, como eu,
vive dias de felicidade?

O que há para lá do bem?
"O Aprendiz de Feiticeiro" é um conjunto de crónicas de Carlos de Oliveira.

Numa delas, "A dádiva suprema", o autor fala sobre o poeta Afonso Duarte.
A crónica termina no funeral deste e com estas palavras:

"Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem
gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:

A dádiva suprema é dar a vida
ao silêncio de pedra que é a morte.
Larga-me da vida, morte,
faz-me da morte pedra.


Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no
depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas."

Belas palavras; de um e outro.

sexta-feira, fevereiro 28, 2003

Entrevista na rádio, rápida. O noticiário, impaciente, à espera da sua vez.

Uma entrevistada, Drª, respondia a questões sobre os estabelecimentos prisionais; os dramas que lá se vivem: a droga, as doenças infecto-contagiosas, a claustrofobia; assuntos importantes sobre os quais há que pensar para reformular.

Tudo certo.

A Drª, não sei se por força da rapidez da entrevista que exigia palavras mais depressa do que o seu cérebro poderia elaborar, iniciava, invariavelmente, cada resposta, cada afirmação, com uma expressão que me lembrou algo que escrevi em tempos:

"No nosso ponto de vista..."

O plural do possessivo justifica-se já que ela estava a falar em nome de uma organização, um conjunto de pessoas.

Já o "ponto de vista" não consigo explicar muito bem.

Não estaria a falar, com toda a certeza, segundo o MEU ponto de vista!!!

Por isso, encarei a utilização da expressão como muleta, como pequeno atraso, enquanto o seu cérebro procurava colocar em ordem as palavras que se lhe iriam seguir.

O facto de utilizar a expressão tantas vezes, levou-me a pensar no que diabo seria o "ponto de vista": se seria um ponto tão estático, imóvel, de onde eles viam tudo?!?

E levou-me a pensar se não seria melhor eles experimentarem mudar, algumas vezes, de ponto de observação, em função do problema que estivessem a observar?!?!

E concluí que eventualmente o fariam, e então, cada um dos "pontos de vista" que referiu a Drª não seriam a repetição de um mesmo ponto de observação mas sim de um diferente ante cada objecto observado.

E assim se justificaria a repetição até à exaustão.

Tudo certo.

A coisa complicou-se quando a dita Drª, numa das muitas repetições da já referida expressão lhe acrescenta: "eu penso que!"

"No nosso ponto de vista, eu penso que ..."

E esta pequena frase deitou por terra todo o meu raciocínio de até então.

Voltei a lembrar-me da tal coisa que escrevi em tempos, enquanto mudava de emissora.

JANELA

Mar de gente e uma janela.
Eu, aqui, vejo tudo.
Ninguém me vê mas eu vejo tudo.
Tanta gente, tantos caminhos:
uma teia, gotas de tinta fresca e sopros de indiferença.
Como eu, cada uma dessas pessoas poderá dizer:
"Mar de gente, eu vejo tudo!".
Ah! Mas para além desta janela
só eu vejo.

novembro 2002

A Drª tinha, entretanto, parado de dizer "no nosso ponto de vista", o noticiário das 9 começava e aí vinham notícias de desgraça que eu não queria ouvir; iam falar-me novamente de pontos de vista: o do Bush, o da ONU, e do Iraque e, como já disse há dias, a razão está de todos os lados precisamente, sei hoje, porque todos agem e falam de acordo com os seus pontos de vista.

E tudo está certo!